“42 dobras” ou “O menino, a LUA e o coelho”

“Esse menino vive no mundo da lua!” – disse Dona Luiza a sua filha Guta, quando o neto Diguinho, ocupado em construir o maior barco de lego do mundo – do seu mundo, que ele ainda não sabia ser o da lua -, não reagiu a nenhuma das três vezes que a avó lhe chamou. Sabia o que era lua, mas não que se podia viver lá. Saiu do transe na hora e rebateu que morava na Rua Leopoldo número 07, casa 02, Andaraí, Rio de Janeiro, Brasil, Planeta Terra, via láctea. Não entendeu a risada dos familiares e voltou ao trabalho. Mas ficou uma pulga atrás da orelha com aquele papo de viver na lua. Era verão e por vezes achava o Rio quente demais!

No dia seguinte, já no café da manhã, informou aos pais que decidira o seu presente de aniversário: queria ir à lua. Guta e Fabio engasgaram. Diguinho franziu a testa. Explicaram que ficava muuuuuito longe, mais longe que a casa do primo que morava em São Paulo. Perdeu a certeza: enjoava muito em viagens. Não teria avião? Diante da negativa dos pais, tomou o resto de seu Nescau em silêncio, a decepção estampada na cara.

Passou a prestar muita atenção em tudo que se relacionava com a lua, embora não entendesse bem todas: Sofia, a filha da vizinha, nascera com a bunda pra lua (?!); a mãe era tão preocupada com os outros porque tinha a lua em Aquário (não entendeu porque riram quando ele perguntou se a lua não era grande demais para caber num aquário); Tia Geralda não cortava nunca o cabelo na lua minguante! “Minguante?”, quis entender. Não gostou da tal explicação sobre as fases da lua. Lua era a luona, redonda, que chamaram neste dia de lua cheia. Achou bobagem: se as tais de lua minguante e lua crescente tinham formato de MEIA lua, logo a “cheia” era a lua inteira, completa. Bem, A lua. Pra esses pedaços de lua ele não ligava não. A “lua nova” nunca faria sentido pra ele, se nem dava pra ver.    

A viagem foi substituída por uma aniversário temático: nada de heróis, filmes da Disney ou times de futebol; nos seis anos de Diguinho o painel era o universo, sua roupa de astronauta e o bolo um queijão! Sim, tentaram dissuadi-lo, os pais dos amigos não entenderam, mas, depois que o pequeno vira num livro que a lua era feita de queijo, foi o que ele quis: um pedacinho do seu sonho ali na mesa.

Se esperavam que depois do aniversário a fixação do menino passasse, o que aconteceu foi o contrário. O vídeo do homem pisando na lua substituiu Os Goonies no posto de filme preferido, e foi reencenado repetidas vezes para a família. Longos natais àqueles. Foi num destes que seu primo mais velho lhe contou que aprendera na escola que dobrando 42 vezes uma folha de papel, era possível chegar à lua. Pegou as folhas da impressora de Guta e correu para o quarto. Dormiu sobre as folhas amassadas e suas lágrimas, incapaz de dobrar mais que cinco vezes. O primo Caio levou bronca de todos por ter incentivado uma coisa dessas e preferiu o castigo a admitir que não tinha feito de implicância com o caçula, mas que compartilhava a decepção de Diguinho, já que também acreditara ser mesmo possível. No começo do ano seguinte, esta seria sua primeira pergunta ao professor de física, que lhe esclareceria não ser falsa a afirmação de seu antecessor, mas que era apenas um cálculo, já que o recorde de dobras em folha de papel eram doze.

O fascínio de Diguinho pela lua cheia o acompanharia por toda a vida. Em certa época, temeu mesmo ser um lobisomem. Mas, sendo filho único, lhe pareceu improvável. Chegou a testar uivar escondido e ficou verdadeiramente aliviado quando não houve efeito. A história permaneceu secreta, mas tanta cisma com lua cheia rendeu a ele os dois apelidos que o acompanharam nos anos de faculdade: Lobo e Lunático.

O Lobo entendeu imediatamente e respondeu rindo, mas sincero, que estava seguro de não sê-lo. Já Lunático, precisou pesquisar. Descobriu que os loucos ficavam mais loucos – ou assim se acreditava – nos dias de lua cheia. Nos dias de LUA, repetiu para si mesmo. Bom, se aquilo que ele tinha com lua loucura era, certamente nos dias em que ela estava redondinha, em seu esplendor, seus olhos brilhavam mais. Podia passar noites inteiras olhando a lua. Passou a desenhar, pintar, fotografar, filmar, poetisar.

Achou irônico quando lhe sugeriram nomear seu primeiro livro de “O homem que vivia na Lua”. Dedicou à Dona Luiza, que só então soube ser a causadora de tudo aquilo. Sentiu um misto de orgulho e culpa.

Leu muitas coisas sobre a lua. Lendas, histórias, mitos, crenças. E escreveu as suas. Até a do lobisomem, mas substituindo o nome para se poupar. Achava lindo que influenciasse a maré e absurda a ideia de que a lua cheia tivesse culpa em crimes violentos. Não sabia se nasciam mais bebês em noites assim, como se dizia, mas gostaria de ter nascido com a bunda para a lua assim como a vizinha Sofia, agora que sabia o que significava.

Conversava sobre tudo isso com Estela, que conhecera no lançamento do livro. Foi apresentado a ele como Lobo Lunático, apelido composto consolidado após votação na turma de 1998 de Antropologia. Ela achou graça, mas preferia chamá-lo de Rodrigo. Ela mesma era bastante engraçada: era daquelas pessoas que duvidam que o homem tenha pisado na lua. Da primeira vez que ela disse isso, ele riu: só podia ser piada. Ela ficou séria. Era seríssimo. Saíram de lá pra um bar, e o papo engatou. Quando ele contava suas histórias, percebeu que ela ria com ele e não dele. A noite rendeu uma amizade instantânea.

Quando chegou a noite do lançamento de seu segundo livro, “42 dobras”, Estela, que soube o significado sem que ele explicasse, confessou: também ela se empenhara naquele desafio. Da livraria, foram para um quiosque na praia: era noite de Super Lua. Observavam a enorme lua, cheíssima, enquanto prometeram que ainda pisariam juntos lá – segundo ela, seriam os primeiros. Foi então que ele viu uma coisa que nunca tinha reparado: tinha aparecido um coelho desenhado na lua. Estava certo de que não estava lá antes. Perguntou, preocupado, o que Estela achava que poderia ser aquilo. Ela riu de, logo ele, nunca ter escutado esta história. Contou ao pé do ouvido e disse que ela mesma há algum tempo via o coelho. Com o tanto que acelerou seu coração, soube ser aquela uma das verdades sobre a lua cheia.

Luana foi o nome que escolheram pra filha. Dizem que por conta de uma música, mas ninguém nunca acreditou. Agora, adolescente, ela acha graça da história dos pais. Esse papo de pessoas apaixonadas verem coelho na lua? “Fala sério!”, ri, e arremata: “seus bregas, é só uma mancha!”. Eles riem e garantem que é uma questão de tempo. Luana dá de ombros. Nascida em noite de lua nova, é com as estrelas que a menina sonha.

  5 comments for ““42 dobras” ou “O menino, a LUA e o coelho”

  1. 10 de setembro de 2017 at 14:02

    Poxa, que conto fofo! De deixar o coração quentinho! =) Gostei bastante, rs

    • Raquel Stern
      12 de setembro de 2017 at 20:07

      Obrigada Lídia!

  2. Will
    15 de setembro de 2017 at 01:39

    Caraca!
    É bom ver sangue novo no pedaço (acredito que é o primeiro conto seu que leio) e já digo que sou meio chato: se acho que meus pitacos podem melhorar algo, os falo logo de cara! E no começo do seu texto, talvez por ter uma linguagem diferenciada, algo me incomodou, mas, assim que peguei o ritmo, esse algo desapareceu, ou pelo menos, foi esquecido. Comecei a ler o texto mais rápido, não por querer saber o fim, mas por querer ler. Enfim, adorei a estória. Ela tem um “que” de poesia delicioso. Fiquei curioso para ler os livros e encantado pelos nomes ao mesmo tempo simples e cheios de significado. Fico no aguardo do próximo. E seja muito bem vinda!

    • Raquel
      17 de setembro de 2017 at 11:25

      Obrigada Will!
      Sou nova sim… tava tentando criar uma rotina de escrever, mas não conseguia. Então busquei um site que me indicasse temas, que me ajudasse a criar essa disciplina e encontrei o Rascunho!
      Muito bom ter os pitacos de outros e também ler os contos de vocês. Um dos primeiros que vi foi o S3 e ontem li o Pequenas Coisas. Adorei!

  3. Fabio Baptista
    17 de novembro de 2017 at 18:15

    Alguém tem que escrever um livro com esse título/tema (se é que já não existe). Achei a história muito divertida, traz uma coisa boa de criança pra gente, um sorrisinho besta no rosto, adorei! Bom trabalho 🙂

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