9º Primeiro Encontro

NONO ENCONTRO

_Encontro virtual é a maior furada, Beatrice! – esbravejei, revirando os olhos.

Ao meu redor, o ar calmo e ameno de Seattle adentrava pelo vidro e ultrapassava às persianas. Ao meu lado e batendo os pés freneticamente no assoalho, Beatrice, minha melhor-amiga-irritante-de-infância.

_Não é virtual se eu o conheço, Emma. – foi a vez dela revirar os olhos.

Me ajeitei na cama com o notebook no colo e, antes de responder, observei atentamente o nome e a foto de perfil na tela: Alex Green; cabelos negros e barba por fazer.

_É virtual se eu o estou conhecendo… virtualmente. – ri, deliberadamente dando um tapinha ao ar.

Bea estava em um namoro de poucos meses, mas desde então, iniciou uma busca frenética a fim de arranjar alguém para mim com a ideia de que tínhamos a todo custo que ”sair de casal”.

Oito encontros. Dois beijos. Quatro bolos. Um gay. Todos furados.

_É, mas… – ela insistia. – dessa vez já está marcado e vocês não conversarão antes, pra evitar que a senhorita… – dizia encostando o indicador na ponta do meu nariz –…estrague tudo.

Jurei ouvir um ”rum” ao término da frase, mas me desconcentrei e pus-me a rir da cara debochada e ao mesmo tempo autoritária que Bea fazia sempre que empinava o queixo.

_Espera… – minha sobrancelha se arqueou –, já está marcado? – questionei.

_Sim, senhora.

_O quê? – estava incrédula.

_Amanhã às 19h, no Starbucks do Central 13.

_Você sabe que não posso, tenho que cuidar do Thomas. Amanhã é sexta e minha mãe fica até mais tarde no escritório. – mordi os lábios, fingindo desapontamento ao ter que cuidar de meu irmão mais novo.

_Eu tenho que cuidar do Thomas. Você, tem um encontro com Alex. – piscou.

Dei de ombros rindo. Sem questionar.

_Certo, certo… tenho um encontro. – me rendi por fim, passando mais algumas fotos no perfil de Alex nas redes sociais.

_Rumo ao nono encontro furado. – ergui o notebook, simulando algum tipo de brinde, mas Beatrice pareceu não achar graça.

Ri, ignorando.

A madrugada parece ignorar a contagem do tempo e pular algumas horas de sono quando definitivamente não queremos acordar. A verdade era que, todos os encontros eram iguais: supérfluos e vazios. Mas não sei por que, Beatrice insistiu em mais um. Concordei, porque: ditei a mim mesma que seria o último; e era horrível não sair com a minha amiga, porque o Porter estava sempre em sua cola.

”Ansiosa?”, foi a primeira mensagem de Bea naquela tarde.

”Ele é muito legal!”, segunda.

”Por favor, jura de mindinho que você não vai usar o suéter vermelho de corações!”, terceira e a que me fez rir.

Olhei para o suéter estendido sobre a cama. ”Droga!”, murmurei a mim mesma, girando os calcanhares e caminhando ao guarda-roupa, decidida a procurar qualquer coisa mais ”usável”.

Por mais que esse seja o meu nono primeiro encontro, estava decididamente ansiosa e determinada. Escolher gostar de uma pessoa baseado em informações de redes sociais é muita hipocrisia, mas confesso que curtir a página de Hardy e de Titanic foram… diferenciais. É claro que isso só se tornaria plausível se ele não entrasse em discussões do tipo: ”tinha espaço no piano para Jack subir, mas Rose não deixou”.

Olhei para o relógio de pulso dourado: dezenove e dez. Puxei o ar visivelmente desgostosa aos olhos alheios. Alex estava 10 minutos atrasado e eu, impaciente.

Mais dez minutos.

 Cruzei os braços: mais um encontro furado e, dessa vez, ele quem furou. Minha expressão tornou-se frustrada e por um momento senti meus olhos arderem. Efeito colateral de estar estressada.

_Emma? – uma voz masculina soou ao longe e percebi que seria necessário aumentar o grau do óculos com urgência, quando tive que estreitar os olhos para enxergar a figura que vinha em minha direção.

_Eu mesma, você é o…

_…Alex. Prazer. – o rapaz aproximou o rosto do meu e senti o estalo do beijo em minha bochecha.

O perfume amadeirado me fez esquecer e perdoar momentaneamente o atraso.

_Eu sei, eu sei… mas não há vagas para estacionar aqui perto! – Alex me deu explicações que só pedi em pensamento, enquanto se afastava e me estendia o braço para adentrarmos ao café.

_Tudo bem… – não estava tudo bem. –… acontece, né? – tentei não parecer falsa, mas: eu odiava atrasos.

_O que vai querer? – ele questionou ao encontrarmos a fila para pedir.

_Cappuccino tradicional, com canela e avelã.

Seu olhar adotou um tom curioso e me permiti sorrir com sua expressão.

_Isso humilha meu expresso normal, não é? – ele sorriu, me peguei absorta nesse gesto e entreguei à mão beijada minha mania de admirar sorrisos.

Dei de ombros, retribuindo a expressão.

Empurrei o copo térmico sem desencosta-lo da mesa de madeira, oferecendo-o a Alex.

_Posso? – ele perguntou gentilmente

Assenti. — Aprecie esse cappuccino, que é mais conhecido como bebida dos deuses. — ri.

_Bebida dos deuses. – Alex confirmou, após beber um gole do café. – Sim, humilha meu expresso normal.

Rimos em uníssono.

_Então… – ele pareceu embaraçado à procura de um assunto e naquele momento, senti um frio na barriga. – O que gosta de fazer? – Alex me questionou, após bebericar um gole de seu expresso.

Perguntas de primeiro encontro.

Tentei ao máximo conter minha vontade de revirar os olhos. _Ler?! – foi talvez, uma pergunta retórica, mas para minha surpresa, Alex sorriu.

_Digamos que eu seja uma leitora incurável. – ri, dando um tapinha ao ar. – E você?

_Digamos que dificilmente tenha um livro que eu não tenha lido. – Alex tentou adotar o mesmo tom que eu usara, mas falhou miseravelmente nos agudos finais, isso me arrancou um sorriso.

_Duvido. – externei sem titubear. Continuaria com meus argumentos sobre ser impossível ele ter lido todos os livros, mas uma coisa em Alex prendeu minha atenção, quando enroscou o indicador na asa da xícara para beber o último gole de café, observei: uma varinha, dentro de um círculo que estava colocado sob um triângulo estava tatuado na lateral de sua mão. – Desculpe, mas… – ergui uma das minhas sobrancelha. – que tatuagem é essa?

_Relíquias da Morte. Harry Potter – Alex garantiu.

_Ah. Nunca li. – dei de ombros.

Alex pareceu incrédulo.

_Como assim você nunca leu Harry Potter?

_Isso é um problema?

_É uma hamartía!

Ri.

Àquela altura, não sentia mais os peso do primeiro encontro e meu corpo, juntamente com a expressão facial, estavam visivelmente relaxados.

_Há duas coisas que devem ser lidas na vida: Harry Potter e O Segredo. – Alex garantiu. – Nunca li O Segredo, mas dizem que é experiência de vida. Acho que é por isso que a minha anda aos barrancos. – ele riu e me contagiou novamente. Me perguntei se seria assim sempre e, por um instante, me peguei pensando no sempre. Finalmente terminei meu cappuccino.

_O Segredo, eu já li, viu?! – ergui uma das sobrancelhas novamente, mas dessa vez com ar desafiador.

O relógio do Starbucks marcava 20h30 e isso me fez suspirar preocupada. – Podemos ir? Beatrice ficou responsável por meu irmão mais novo e… – fiz uma pausa autoexplicativa.

_Entendi. Duas crianças juntas não dá. – Alex riu, entendendo a piada e agradeci por ele não sentir-se ofendido por eu pedir para ir embora. Aquele era um primeiro encontro bom.

_Mas vai ter que ler Harry Potter. – ele insistia, enquanto novamente estendia o braço para sairmos do local.

_E você, O Segredo. – teimei. Alex somente assentiu.

O clima havia mudado e o fluir da conversa não nos fez perceber que a chuva tinha tomado conta do céu, o que nos obrigou a esperar sob a lona, ao lado de um músico de rua que segurava uma cesta vazia e seu violão nos braços. Ele nos olhou e percebi seus olhos marejados. Apertei minha bolsa junto ao corpo, lembrando-me que dificilmente andava com notas de dinheiro. Suspirei. Alex pareceu acompanhar meu pensamento, quando tirou de sua carteira uma nota de dez dólares e entregou ao músico.

Sam. Estava escrito na maleta.

O rapaz nos entreolhou e pareceu pensativo por alguns segundos. Naquele tempo, ao som da chuva, não emitimos nenhum som. Mas o silencio quase que constrangedor foi rompido, quando a voz rouca e trêmula de Sam ecoou. _Obrigado. – a gratidão era visível. _Vocês namoram? – senti meu rosto corar.

Neguei com a cabeça. Alex não se mexeu, apenas sorriu. Novamente o músico pareceu pensativo, avançou um passo, tocou meu ombro e disse em tom sereno:

_Vocês se casarão um dia.

PRIMEIRO SEGREDO

Nova casa. Novas escolhas. Novos problemas. Estava decidida que não contaria a Alex e manteria o segredo até que tudo chegasse ao fim, porque aprendi que não se dão notícias impactantes com apenas um ano de união estável. Caso contrário, não daríamos esse nome.

_Há quanto tempo você sabe? – ele me questionava, enquanto andava de um lado para o outro.

_Há um mês e meio. – na verdade, sabia há cinco meses, quando de fato, os exames específicos comprovaram. Minha mãe e Bea, apesar de não concordarem com a minha decisão de esconder, estavam me apoiando.

_Por que você age como se fosse normal, Em? – Alex parecia visivelmente irritado.

_Casou comigo sabendo que eu não era normal. – retruquei e me permiti sorrir. Sua expressão séria me fez considerar esse feito uma péssima ideia.

Alex deu as costas e fingiu mexer em alguns papéis.

_Quando vou saber?

Ri só por ser óbvio.

_Quando acabar, bobinho. – dei um tapinha ao ar, mesmo que ele não estivesse vendo.

_Sabe qual a probabilidade das mulheres no mundo que não contam esse tipo de coisa aos maridos? – probabilidades. Revirei os olhos.

_A mesma das leitoras incuráveis, que nunca leram Harry Potter. – ri.

Podia sentir que ele franzia os lábios desgostoso, mesmo que estivesse de costas.

_Alex… – dei um passo à frente, envolvendo sua cintura e o abraçando por trás. -…não fique bravo comigo. – mordi o lóbulo de sua orelha e rocei os lábios em sua barba. Ele virou para mim e puxou meu quadril para colar no seu, afundando o rosto em meu pescoço. Era seu modo de dizer que não me questionaria. Sorri satisfeita, embora um pouco preocupada sobre minha decisão incomum de esconder isso dele.

_De qualquer forma, são só mais quatro meses. – ergui os ombros, acariciando seus cabelos e tentando parecer o mais convincente possível. Mesmo sabendo que as datas eram imprevisíveis e a probabilidade de tudo acontecer mais rápido do que o previsto eram enormes.

_Quatro meses… – Alex repetiu desgostoso.

_O envelope está ali. – apontei. Alex olhou surpreso para o envelope azul claro, sobre a tábua de mármore. – Você pode abrir, se quiser. – dei de ombros, ele se afastou e foi em direção ao envelope. Minha expressão permanecia séria.

Alex ergueu os ombros, apanhou o envelope e o encarou por instantes. _Não. – proferiu em tom monótono. – Vou respeitar. – engoli em seco, aliviada e tensa ao mesmo tempo. Alex o guardou na gaveta ao lado da tábua de mármore e aproximou-se novamente de mim.

Nossos lábios se uniram e um beijo apaixonado.

O FINAL É O DISFARCE PARA UM NOVO COMEÇO

Olhei no relógio e a fresta de luz que adentrava ao quarto condizia com os ponteiros do relógio: 6h15. Alex já tinha saído para o trabalho e ao decorrer dos meses, eu me sentia cada vez mais incapacitada de levantar, como se eu carregasse uma tonelada nas costas. As recomendações médicas foram desde repousos às compressas nos pés inchados duas vezes ao dia.

_Mãe? – falei ao conseguir me esticar o suficiente para apanhar o celular e discar o número de minha mãe.

“Em? Tudo bem?“, sua voz era visivelmente preocupada, mas ao escutar, senti paz e aconchego. Soltei um suspiro aliviada.

_Um pouco de dor. Mas, hoje é o dia marcado. – a voz saía com dificuldade e as frases, entrecortadas, devido às pontadas na lombar.

“Jason e eu vamos passar aí e te levar ao hospital.”, Jason era o quinto namorado da minha mãe, mas por incrível que pareça, dele eu gostava.

Assenti para mim mesma, puxando o ar com dificuldade antes de responder. _Ok, obrigada.

Esforcei-me para levantar, tinha que ajeitar algumas coisas antes de sair. Lutei contra os pés inchados e contra o fato de não conseguir dar um passo sem esbarrar em algum móvel, a fim de me equilibrar.

A casa nunca foi tão estreita.

 Ai!“, reclamei quando as pontada pareciam estar cronometradas.

Chego próximo à tábua de mármore e retiro o envelope da gaveta, o mesmo que Alex guardou e ficou ali nos últimos dois meses e meio. Era sábado, Alex haveria de chegar por volta das 15h. Eu já não estaria mais em casa.

 Coloquei o envelope novamente sobre à tábua e apanhei caneta e papel. Estava chegando ao fim e esse seria o momento de contar tudo a meu marido:

Alex,

Eu sei que te fiz esperar sete longos meses por isso, sem te dar datas ou informações suficientes e mantendo suspense a todo o momento. Mas lembra quando teve paciência comigo, quando disse que terminaria os 7 Harry Potter em um mês e terminei somente no ano seguinte, porque eu precisava me concentrar na faculdade? Então (risos)… Você sempre teve muita paciência comigo e eu sou imensamente grata.

Eu te prometi quatro meses, mas o fim precisou ser antes: mulher sofre, né?! Eu percebi todas as noites em que você acordou de madrugada para me observar nas poucas em que achava que eu estava dormindo. A dor estava ali, mas sua serenidade sempre me acalmava. Mais uma vez: eu sou imensamente grata.

Agora lhe devo explicações, não é mesmo?! Primeiro, quando chegar do trabalho, pegue o frango e o esquente. Você precisa se alimentar, sabe que cheiro de hospital te faz mal, né?! Tudo acontecerá às 13h, então… quando chegar, já vai ter acabado. Por favor, não se apresse.

Meu quarto é o 213, segundo andar. Por favor, não quero esses olhos marejados, quero sorrisos. Minha mãe vai te encontrar no estacionamento com o Jason. Leve Donuts.

Agora sim (não queira me matar por isso)…

Antes de terminar a carta, peguei um pedaço de fita, e colei ao papel informações tiradas de dentro de um envelope aberto recentemente:

“Término gestacional – Cesariana marcada para: 18/07/2014

Último ultrassom: 15/07/2014 – 1.900kg e 43.7cm“

Àquela altura, imaginei a expressão de Alex ao ler a carta e ignorar parte de tudo o que ele já sabia. Continuei:

Agora, meu amor, sem mais enrolações… corra para o hospital, que a gravidez se encerra hoje e finalmente você conhecerá…

…a nossa menina.

Sabia desde o primeiro mês, quando o exame específico para saber se o feto nasceria com deficiências. Então, não deixei de sorrir e sentir uma onda de satisfação por ter conseguido manter o suspense durante o tempo gestacional inteiro. E, por saber que meu marido, mesmo tomado por toda a curiosidade, deixou o envelope intacto. Voltei minha atenção à carte para termina-la:

Estaremos te esperando.

 Com amor,

Margôt e mamãe.

Dobrei o papel e deixei sobre o envelope, perto do porta retrato do ensaio de gravidez. Não demorou muito para a buzina estrondosa do carro de Jason soar ao lado de fora. A dor ainda repetia-se, mas agora com menos intervalo. Minha mãe entrou para pegar a bolsa e saímos da casa.

Enfim, o fim da espera, o térmico para um começo: quando voltasse para casa, estaria com meu marido e minha filha.

  4 comments for “9º Primeiro Encontro

  1. 1 de junho de 2017 at 21:02

    O que é um tapinha no ar? Não entendi hehe. Também não entendi porquê o modo como os dois se conheceram tinha importância com o segredo do sexo do bebê. O relacionamento dos é muito fofo e a descrição deste conto deixou isto mais claro do que o anterior 🙂 parabéns! Quando o cara vai brigar com ela, e fala “Em” eu pensei que era uma grafia diferente de “hein”, só quando eu li de novo en outra fala eu entendi aheuaheua. E eu não sei se o cara é um fiadaputa de deixar a mulher parir sozinha ou ela que é idiota de deixar uma carta ao invés de ligar

    • Viviane Farias
      2 de junho de 2017 at 12:37

      Tudo para dramatizar hahahaha (tapinha ao ar é quase uma mania em expressão corporal, tenho muito isso). Descrevi mais nesse, acatando as dicas anteriores! Muito obrigada, mesmo <3
      (Ela é idiota)

  2. Fabio Baptista
    6 de junho de 2017 at 11:50

    Muito fofo!! haha
    Acho difícil esconder uma gravidez de um cara que dorme com você, mas aceitando que é possível, é super fofo. Parabéns!

  3. Willian Fernandes
    9 de junho de 2017 at 12:04

    Eu gostei bastante. Não entendi o motivo de esconder a gravidez, o que obviamente para mim não fez muito sentido. Mas de resto foi muito bom. Gostei particularmente das expressões faciais da garota. Você não descreveu mais do que o necessário, o que me permite imaginar a garota que eu quiser, ainda que com a exata expressão, e isso foi muito legal. E os diálogos, tirando a parte da gravidez, também fizeram bastante sentido e pareceram naturais, como se você estivesse escrevendo de experiencia própria. Talvez esteja?
    Aaaa, e também me perdi no tapinha no ar, mas depois de ler seu comentário isso fez muito mais sentido, embora só vá azer sentido, creio eu, para quem te conhece… ^^

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