A bruxa, o dragão, a sapinha e a princesinha

Há muito, muito tempo, na época em que os bichos falavam, existia uma bruxa neurótica e desagradável que morava em uma campina verde e florida. Toda vez que ela se irritava com alguém ou com alguma coisa, fazia a mágica da transformação só para se vingar.
Uma vez, por exemplo, deu uma topada numa pedra e machucou o dedão. Não foi culpa da pedra, é claro, mas ela se irritou e… PLAFT!!! Transformou a pedra num monte de cocô. Bem feito que a varinha dela ficou toda suja de cocô, mas aí ela transformou a sujeira em uma nuvem de moscas que voaram para longe, deixando a varinha limpa de novo.
Todo mundo tinha medo da bruxa neurótica porque ela era imprevisível e malvada. Já havia um monte de coisas transformadas por ali, o que não era nada legal.
Então um dia ela recebeu uma carta anônima que dizia assim: “Dona bruxa, a senhora vive irritada por um motivo muito simples: as belezas desta terra não combinam com a sua pessoa. Um local muito melhor para a senhora viver é lá na cratera do vulcão. Não existem criaturas vivas, só pedras, e o ar tem cheiro de enxofre dia e noite porque nem ventinho entra lá.”
A bruxa ficou irritada porque a ideia era muito boa e alguém tinha pensado naquilo antes dela. Fez uma bruxaria para descobrir o autor da carta, foi lá e disse:
“Você é muito enxerido, viu? Só por causa disso vou te transformar num dragão!” ZAPT!!! Transformou o autor da carta em um dragão!
“Dona bruxa – perguntou ele, deveras chateado – como se desfaz este encantamento?”
“Você só vai voltar ao que era se uma princesa der um beijo no teu focinho! Mas qual princesa vai ter coragem de chegar perto de um dragão? Ha ha ha ha ha ha ha!!!“
Gargalhando feito louca ela montou na vassoura e foi embora voando, direto para a cratera do vulcão.
Enquanto isso acontecia, uma sapinha observava de longe, bem escondida. Quando o dragão ficou sozinho ela se aproximou e disse:
“Meu príncipe! Que maldade ela fez com você! Como posso te ajudar?”
O dragão, todo triste, contou sobre o método de desencantamento, dizendo que nenhuma princesa ia querer beijar o seu focinho. Mas a sapinha afirmou que ia ajudá-lo.
“Como vai me ajudar, querida sapinha?”
“Vou até o castelo da princesa, conto para ela o que aconteceu e ela vem aqui te desencantar.”
“Mas é uma viagem muito longa e perigosa!”
“Não faz mal. Sou corajosa e vou te ajudar, meu príncipe!”
Disse e fez. Superou todos os obstáculos, enfrentou mil perigos, e conseguiu chegar ao jardim do palácio real. Ficou lá quietinha perto do lago onde a princesa ia brincar todos os dias. Esperou pacientemente e por fim conseguiu se aproximar e contar a ela toda a história do dragão.
A princesa mostrou-se bastante interessada:
“Quer dizer que o seu príncipe foi transformado em dragão? Coitado! Claro que vou ajudar. Ele era bonito antes da transformação?”
“Muito bonito! O mais bonito de todos!”
Imediatamente a princesa pegou a sapinha, colocou-a lá no alto da cabeça, bem no meio da sua coroa, e falou:
“Então você me ensina o caminho que vamos agora mesmo!”
Dessa vez a viagem foi bem mais rápida porque a princesa tinha pernas muito mais compridas que a sapinha e além disso parecia estar bastante apressada.
Chegando lá, a sapinha chamou:
“Meu príncipe, saia de onde estiver que a princesa já está aqui pra te desencantar!”
O dragão saiu de trás de uma grande pedra onde estivera escondido e se aproximou devagarinho, meio envergonhado. Mas a princesa não se intimidou, foi até ele e lhe deu um grande beijo no focinho. TÓIMMMM!!!  O dragão desencantou!!!
A princesinha levou um susto e não entendeu nada.
“Sapinha, o que saiu errado? Ele virou sapo!!!”
“Não, princesinha, eu não virei sapo! Eu sempre fui sapo. A bruxa malvada me transformou em dragão mas eu era um sapo.”
Enquanto isso a sapinha já tinha corrido para abraçá-lo, e não parava de dizer:
“Meu príncipe! Meu príncipe!”
Final da história: apesar da decepção, a princesa acabou achando muito fofo aquele casalzinho de sapos e os convidou para morarem lá no lago do palácio. Eles foram e povoaram tudo aquilo com muitos sapinhos graciosos. E a princesa ficou feliz.
A bruxa também ficou feliz morando na cratera do vulcão. Os únicos seres viventes que lhe faziam companhia eram as moscas que surgiram daquele cocô grudado em sua varinha.
Os habitantes daquele lugar bonito também ficaram felizes. Todas as coisas e seres transformados se destransformaram, e todos viveram felizes para sempre.

           FIM 🙂

  7 comments for “A bruxa, o dragão, a sapinha e a princesinha

  1. 23 de setembro de 2017 at 20:15

    Amigos, eu sei que a ideia de “Animal Mitológico” era outra, mas fiquei com vontade de subverter um pouquinho e publicar um conto infantil. Afinal tem dragão na historinha, não tem? 😉
    Adoro variar estilos, acho que é um exercício interessante. Espero que apreciem. 🙂

    • Raquel Stern
      27 de setembro de 2017 at 11:46

      Legal Zulmira! Gostei muito da ideia de subverter a expectativa e mesmo a ideia de o que é o príncipe.

      Ando também com vontade de arriscar um infantil… Desafio triplo! rs

  2. 28 de setembro de 2017 at 09:15

    Adorei o fato de ser um conto infantil, ficou muito fofo e me deu aquelas nostalgias de livros paradidáticos. No entanto, acho que o uso do “Final da história” e do “Fim” foi desnecessário. Você poderia facilmente retirar essas palavras e ainda assim deixar explícito que é deste modo que a história termina. Acho que isso ajuda também a criançada a entender melhor uma estrutura narrativa (de um jeito cognitivo, claro), sem precisar ficar explicando desse jeito escancarado.
    O plot twist do dragão ser um sapo é demais! Adorei! A única coisa que achei estranho foi as coisas e seres destransformando. Porque isso aconteceu? A magia da bruxinha tinha prazo de expiração? Ou as coisas foram se acertando porque ela estava feliz morando na cratera do vulcão?
    Parabéns por mais um desafio escrito, Zulmira! =D

  3. 30 de setembro de 2017 at 09:07

    Obrigada pelo comentário, Lídia. 🙂 Suas observações são sempre pertinentes. Neste caso, por se tratar de um texto para o público infantil, o “Final da história” serviu como a “moral da história” típica das fábulas, e foi acrescentado como um recurso de infantilização. O “FIM” seguido da carinha sorridente também. Sobre o motivo de os seres e as coisas se “destransformarem”: não expliquei porque ficaria cansativo entrar em detalhes. Na minha experiência como professora observei que explicações demais confundem em vez de esclarecer. Além disso, acho legal deixar espaço para a construção de hipóteses. A minha hipótese particular é de que a presença da bruxa mantinha as feitiçarias e a sua ausência fez as coisas voltarem ao normal. Se não fosse assim, as moscas voltariam ser cocô e depois pedra, né? rsrsrsrsrsrsrs 😀

  4. will
    5 de outubro de 2017 at 10:32

    O príncipe ERA um SAPO! Adorei! Um belo e bem didático plot twist. Parabéns!

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