A Busca

– Xièxiè

O homem de olhos rasgados observou João por alguns instantes antes de cuspir ao lado da mesa e desaparecer pelas portas duplas que, em teoria, o levariam de volta a cozinha e, possivelmente, a outras cuspidas. João, entretanto, não se incomodou. Também não se incomodou com o fato de ser provavelmente o único ocidental – em uma terra famosa por não gostar de ocidentais –  em quilômetros, nem pelo fato de ter apenas 30 renminbis em sua carteira. João na verdade tinha olhos apenas para uma coisa.

À sua frente, alem da sopa de conteúdo duvidoso, havia uma caixa. Era uma caixa preta, de tamanho médio, e relativamente leve. Uma caixa que durante anos havia sido sua obsessão, e, atras dela, havia um homem sentado do qual João não sabia absolutamente nada. Um homem que chegara pouco depois de João fazer o seu pedido e que se sentara sem dizer nada, sem nem sequer levantar o pesado capuz que cobria sua cabeça. O homem apenas se sentara e colocara a caixa sobre a mesa. O homem não dissera nada. João também não.

Depois de tantos anos buscando, depois de perder tudo: família, dinheiro, amor-próprio… depois de… enfim…  depois de tudo, ela estava ali, na sua frente, esperando apenas para ser aberta. João tremia de ansiedade, e também, se parasse para pensar, tremia de medo, porque o que poderia ser mais assustador do que a revelação de uma vida de procura? Uma vida inteira de ansiedade. Uma vida de espera e de não saber. Tudo poderia acabar ali. E depois? Qual seria seu destino? Sua missão? Por mais insano que parecesse João não sabia mais se queria abrir a caixa. Ela finalmente estava ali, ao alcance de sua mão, mas ele hesitava.

Assim que suas mãos finalmente tocaram a caixa, João encarou – ou pensou ter encarado, já que não conseguia distinguir com clareza os olhos do outro – o homem encapuzado. Haviam também algumas questões em sua mente a respeito do estranho embora a proximidade, e agora o toque, de um objeto tão ansiado fizesse com que tais duvidas escoassem de sua mente mais rapidamente do que João conseguiria formula-las.

– Posso? – perguntou João, esquecendo-se por um momento de traduzir sua fala para o idioma local.

– Apenas se você quiser. – Respondeu o homem encapuzado também em português.

João hesitou novamente. O que ele sabia sobre aquela caixa? Nada. Havia ouvido apenas rumores. Rumores sobre uma caixa misteriosa, quiça mágica, que dava as pessoas aquilo que elas precisavam. Por vezes ouvira que a caixa trazia respostas. Outras vezes que a caixa conteria os itens desejados pela pessoa que a abrisse. Uma caixa de dinheiro talvez? Não, isso não parecia certo. Preferia acreditar em outras histórias, embora, se tratando de rumores, com certeza houvessem pouquíssimos rumores a respeito da caixa. Ninguém nunca a vira de fato. As histórias eram sempre de terceiros. De quartos. De amigos de amigos. De quem ouvira falar. Histórias incompletas que apenas concordavam em uma coisa: a pessoa que a abrisse nunca mais seria a mesma.

As mãos tremulas desfizeram o nó, delicadamente feito em seda negra, que encimava a caixa. Seus dedos tocaram a tampa com reverencia enquanto João pensava em seu pai. Seu pai, a verdadeira razão da obsessão. Seu pai que amava caixas. Que as fazia para viver. Seu pai que primeiro ouvira falar dessa caixa. Seu pai que saíra de casa para encontra-la. Seu pai que nunca mais voltou. João fechou os olhos. Uma pequena lagrima desceu por apenas um dos lados de seu rosto, parando na barba por fazer. O homem encapuzado continuava aguardando em silencio.

Um respiro.

Dois respiros.

Coragem João – dizia para si mesmo. – Coragem!

Três respiros.

João abriu os olhos e a tampa.

Dentro da caixa havia um objeto retangular, tão negro quanto a caixa em que estava, e quanto o veludo que o cercava. Letras prateadas de caligrafia rebuscada podiam ser vistas e João, pegando o objeto em suas mãos transformou as letras em palavras enquanto as lia em um sussurro.

“Encaras-me com respeito e verás a tua busca

Encaras-me com honestidade e verás tua resposta.

Encaras-me com sabedoria e verás o teu caminho.”

E então, quase sem nenhum espanto, João virou e viu a si mesmo no espelho mais brilhante que já havia visto. Sua mente antes ansiosa parecia ter agora encontrado a paz. Sua busca, assim como a maioria das buscas, não era apenas por uma resposta. Sua busca era por si mesmo. Ele havia sido a pergunta e agora entendia que era também a resposta. E enquanto entendia isso a imagem que via refletida começou a lembrar a de seu pai. João nunca percebera exatamente o quanto era parecido com o pai, mas sabia que não era tanto. Com calma ele abaixou o espelho e viu a sua frente que o homem abaixara o capuz e colocara um segundo embrulho na mesa. Desta vez o embrulho não era uma caixa. Era apenas o que parecia ser um manto marrom e levemente surrado amarrado com um barbante. O homem de capuz, que agora João via claramente como seu pai também era parte da resposta. O homem de capuz que era seu pai também era parte de seu caminho. Ou melhor, do convite de um caminho.

– Apenas se você quiser. – repetiu o homem.

João se levantou e se vestiu com o manto marrom. Ele e seu pai agora estavam tão parecidos que ninguém os distinguiria. João notou que um dos lados do  manto estava mais pesado do que o outro e, ao verificar, encontrou uma caixa em seu bolso. Era uma caixa pequena, é verdade, mas era uma caixa. Diferente da sua, aquela caixa era verde e cheia de inscrições douradas em mandarim. João pegou seus últimos 30 renminbis, colocou na mesa para pagar a sopa, e colocou a caixa em cima. Abraçou o pai, agora também de pé, por um longo tempo, e assim que conseguiu solta-lo, os dois se viraram e saíram do estabelecimento.

Das poucas pessoas que estavam ali, nenhuma jamais se lembraria deles. Eram apenas homens mau-vestidos que tomaram uma sopa e saíram, que importância poderiam ter? A unica lembrança que aqueles poucos espectadores teriam daquele dia era da cara do atendente que, ao limpar uma mesa abriu uma especie de caixa, verde talvez, da qual ninguém viu o conteúdo, mas a julgar pelo rosto, e pela reação do homem, mudaria sua vida para sempre.

  5 comments for “A Busca

  1. Fabio Baptista
    29 de maio de 2017 at 16:04

    Texto muito bem escrito, parabéns! Só achei que (mesmo sendo o tema) apareceram muitas ‘caixas’. Sucesso! 🙂

    • Willian Fernandes
      30 de maio de 2017 at 11:01

      fui repetitivo em algumas coisas, melhorarei no próximo, obrigado!

  2. 29 de maio de 2017 at 19:34

    No final eu não consegui entender se o João era o atendente, ou se o atendente era uma terceira pessoa. Teve algumas palavras que faltaram acento, acho que se escrever no Word da próxima vez ele corrige.
    Eu prefiro pensar que o pai e o João fazem parte de uma sociedade secreta de espelhos mágicos ou caixas com drogas, porque se ele demorou tanto tempo pra achar uma caixa e achar só um espelho e ficar satisfeito com essa resposta é meio frustrante.

    • Willian Fernandes
      30 de maio de 2017 at 11:04

      O atendente era uma terceira pessoa, sem direito a nome… rsrsrs… Acentuação é o meu pesadelo, e meu word tá programado com inglês, tenho de baixar o corretor pt-br… E o espelho não é bem mágico, nem as cartas possuem drogas, mas sim, o pai de João faz parte de uma sociedade secreta que entrega à algumas pessoas as coisas que podem mudar a vida delas, que no caso do João foi um convite para fazer parte… mas se tive de explicar quer dizer que não escrevi direito…rsrsrs… vou melhorar 😉 ou morrer tentando

      • 30 de maio de 2017 at 12:34

        Quando você for escrever no Word, depois que terminar de escrever seleciona o texto inteiro e vai em Tools > Language, e seleciona Português. Aí depois dá o Spelling and Grammar para verificar as acentuações. Ele verifica se está escrito certo em português sem desconfigurar a língua do programa.

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