A Cartomante

Eu estava com medo. Pensara centenas de vezes antes de ligar para a senhora e marcar um horário, mas mesmo assim o fiz. No dia em questão cheguei somente alguns minutos antes do combinado, porque não queria ser visto por ninguém naquele lugar mas assim que que cheguei percebi que, mesmo que mais alguém estivesse naquela rua escura, não conseguiria me ver em meio a neblina que fazia. Encarei a fachada com dificuldade por alguns segundos, para ter certeza de que estava no lugar certo e entrei.
Assim que passei pela porta, uma sineta tocou anunciando minha entrada. Era uma sala pequena, onde a maioria dos móveis era decorada com panos em tons de roxo e vermelho escuro. Podia jurar que vi uma criança aparecer por trás do balcão no fim da sala, olhar para mim rindo e sair correndo, mas foi tudo tão rápido que preferia acreditar que era coisa da minha cabeça. Medo, concluí.
Não demorou muito para que a senhora me atendesse. Cerca de dois minutos depois que me sentei no sofá, ela adentrou a sala e me convidou para entrar no lugar onde conversaríamos. Era uma porta simples de madeira, com um único olho desenhado na altura da minha cabeça; dentro da sala, um círculo desenhado no chão limitava o lugar onde havia uma mesa com alguns objetos e duas cadeiras.
Nos sentamos e então ela pediu que eu cortasse o monte de cartas e depois que tirasse três delas sem virar. Livrou-se então do monte restante e deixou apenas as três cartas na mesa.
_Seu nome é Levi, não é? O meu eu não posso dizer, mas é um prazer conhecê-lo. Você veio procurar respostas sobre você mesmo, não é? – disse rapidamente.
_Sim – respondi.
_Vamos lá então. Preciso avisar-lhe que adentraremos terreno místico agora e peço para que tenha mente aberta e que não se assuste com o que verá nesta sala.
Engoli seco e respirei fundo. Pensei por um instante na famosa frase “onde fui me meter” mas agora eu já estava lá, ia até o fim. Ela então virou a primeira carta: IX – O Eremita.


_Essa carta representa a necessidade de nos voltarmos para dentro de nós próprios para encontrarmos as respostas que procuramos. Você precisa repensar suas atitudes, tem feito muita coisa ruim, talvez seja hora de reconhecer isso. Têm uma relação conturbada com a sua mãe viúva. Roubava a carteira dela na adolescência para comprar coisas nas noitadas e não fez nada quando viu seu falecido pai agredindo ela, não é?
Eu nunca havia contado isso para ninguém. Só nós três sabíamos disso, eu, meu pai e minha mãe (e agora ela).
_Eu era um adolescente indisciplinado e tolo, isso é coisa do passado, ficou lá.


_Tal vez não. Continuando – Ela virou a segunda carta – XII – O Dependurado. Esta diz que passará por um período de turbulência, de sacrifício, mas que esse talvez o fortaleça. Não é como um purgatório, só um momento tenso. A sua noiva está grávida, não está?
_Não se atreva! – interrompi.
_Não sou eu, são as cartas. Você que as tirou, não foi? É uma gravidez de risco, ela perderá o bebê. Será frustrante e isso abalará o relacionamento de vocês. Isso vai acontecer porque o relacionamento está estagnado, servirá para mudança de atitude. Ela é uma mulher de ouro e você só a desdenha.
_Isso é só um monte de tolice! Não vim aqui para você rogar praga no meu filho e no meu relacionamen… – Antes que eu terminasse ela virou a última carta e interrompeu.


_ XV – O Diabo. Como o próprio nome indica, está relacionada com as energias negativas, devemos ter atenção e não agir por impuls… – Mas então, ela foi interrompida por um barulho alto, um estampido rápido e então completou – …impulso. Estão querendo falar com você, esteja pronto.
A mulher então começou a tossir demasiadamente, como se estivesse engasgada, suas rugas ficaram ainda mais evidentes e seu tom de pela parecia um pouco mais bronzeado.
_Tudo bem com a senhora?
_Ela já me deu licença – A voz que saia dela agora era grave, seca, era alta de firme.
_Quanta tolice! Com que estou falando então?
_ Sou conhecido e recebido de maneiras diferentes para cada um. Nasci no dia 21 de agosto ou posso nunca ter nascido, derivo do latim, mas tenho relatos e mitologias gregas e romanas. Estou nas cartas de tarô e também nas lendas, as vezes até como anjo.
_Vai me dizer que estou falando com o diabo? – ri.
_O diabo não perde tempo com pessoas como você. Vou muito mais além. Mas saber quem eu sou não muda nada. Você vai me acompanhar essa noite.
_Só porque você quer! – Desdenhei.
_Na verdade sim, só porque eu quero. Você passou por mim várias vezes, até que agora achei o momento perfeito para te cercar. Que espécie de homem abandona uma alma nua em meio a flora, depois de exercer nela o mais puro fruto da natureza? Que homem maltrata a sua progenitora e permite que os outros também a façam mal? Que homem trata a mãe de seu filho com tamanho desdém, a ponto de deleitar-se com outras flores? Que homem envia o pai para o submundo de tanto desgosto? Sua existência na Terra é uma lástima, foi um erro.
Aquilo já começava a me assustar.
_Já chega, eu vou embora! – levantei, virando as costas para mesa e para criatura.
Foi aí que senti. Meus pés grudaram no chão, bem à beira do círculo desenhado no chão, de forma que não conseguia me mover e meu peito dava fortes pontadas do lado esquerdo.
_Você vai sim. Quando voltar será uma linda moça e coisas terríveis vão acontecer a você, isso eu posso lhe prometer. – O vulto disse e nesse momento já estava atrás e mim.
Meus joelhos dobraram bruscamente e senti o baque ao cair no chão. Em seguida, minhas mãos e pés dobraram no sentido contrário as juntas e os braços foram jogados para trás. Meus olhos, nariz e boca então começaram a sangrar, mas de alguma forma eu ainda continuava consciente. Então meu corpo despencou de vez no chão. Houve silêncio, e então pude ver a cena de cima. A cartomante estava dormindo na cadeira e a criança que achei ter visto na sala de espera rondava o que fora o meu corpo e estava junto de outras crianças, elas brincavam com os ossos partidos até que tudo apagou.

 


 

Depois que perdeu seu primeiro bebê há um ano, Sofia não teve mais notícia do noivo Levi. Mesmo triste, decidiu que não ia abrir mão do sonho de ser mãe e procurou uma clínica de fertilização. Nove meses depois nasceu sua linda bebê, a quem deu o nome de Kala. A criança, dizem, tinha os olhos de Levi.

  6 comments for “A Cartomante

  1. 17 de julho de 2017 at 19:00

    Gente, que criatividade! Parabéns! Quanto à escrita, tenho uma sugestão: diminuir o número de “ques”. É um desafio escrever com poucos “ques” de tanto que estamos habituados (já usei dois em duas linhas… rsrsrs), mas vale a pena tentar. O texto ganha em fluidez.
    Fiquei com pena da Kala/Levi. 🙁

    • Fabio Baptista
      18 de julho de 2017 at 09:43

      Oi, Zulmira
      Os “ques” são realmente uma dificuldade, não é? Vou aderir ao desafio! hahaha
      Muito obrigado pelas dicas e elogios, feliz que tenha gostado!
      Um beijo 🙂

  2. 18 de julho de 2017 at 08:10

    O começo do texto faltou um pouco de revisão. Ficou com umas palavras soltas e outras repetidas, parecia que você estava ansioso para escrever ;p a ideia ficou demais! Excepcional! Mas discordo desse negócio da vida seguinte levar a culpa da vida passada. É tipo a gente tomando na cabeça por algo que não fez. Super acredito que se existe reencarnações, é uma forma de redenção, e não de punição.

    • Fabio Baptista
      18 de julho de 2017 at 09:48

      Oi, Lídia!
      Sim, a vontade era tanta de compartilhar que acabaram passando essas coisinhas! hahah
      A questão da reencarnação como punição não é necessariamente uma opinião do Fábio, é um ponto de vista livre e “hiperbolizado” ahaha
      Obrigado pelo comentário 🙂

      • 27 de julho de 2017 at 15:22

        Hahaha, entendo que a questão da reencarnação seja um ponto de vista do personagem, não seu. Era eu comentando da história em si, não da construção dela rs.

  3. Will
    27 de julho de 2017 at 13:36

    Senhor Fabio!
    Gostei muito da ideia do texto. Muito tempo atrás escrevi algo com forças malignas também então seu conto me deu um certo saudosismo gostoso. Além disso, gostei muito da criança… kkkk… acho que super combina. De verdade.
    Um único comentário, acho que o texto ficaria mais interessante se fosse mais lento. Algo como explorar a punição mais lentamente, como um carrasco exploraria. ^^

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