A festa de Okulu

Quando os pés descalços tocaram o chão não haviam pegadas atras dele, nem a frente. Era assim que ela chegava: saída da névoa ou da sombra. Silenciosamente. Sua presença acalmava toda a vida da savana. Os animais noturnos se aquietavam. Os predadores e as presas paravam sua eterna dança para vê-la passar. Até mesmo o poderoso vento, que no velhíssimo continente não conhecia limites se dobrava em uma suave brisa.
Os olhos se abriram e observaram o ambiente. A terra seca que a cercava combinava com seu humor. Estava ali porque sentira o chamado, mas sabia também que não deveria estar. Aquele chamado ainda devia levar alguns anos para acontecer e, apesar de no fim das contas não fazer muita diferença, ela não gostava de ser chamada antes da hora. O hálito fresco da noite carregava o cheiro de carne assada e fumaça. Uma festa estava acontecendo. Mais do que apenas a o odor da carne, a noite também lhe trazia o chamado. Sem pressa ela começou a caminhar na direção dos cheiros. Pequenos pontos de luz bruxuleantes apareceram no horizonte. Tochas guia mostrando o caminho para os convidados. Em breve ela chegaria a seu destino.
Depois do cheiro, a luz, e depois da luz, o som. Batuques cadenciados mesclando canções de celebração e dor. Canções felizes como ela dificilmente ouvia e canções fúnebres, já decoradas em sua mente. Contornos de pessoas agora também se destacavam sob o céu estrelado. Umas dançando, outras sentadas, cabisbaixas. Ela divisou um cabana no fundo da festa. Seu chamado vinha de lá. Pensou em contornar a fogueira quando uma das silhuetas que dançavam parou e começou a vir em sua direção.
-Salve Silamuê, senhora do lado escuro!. Nós estávamos esperando você.
-Salve velho. Eu vim para a colheita.
– A gente sabe. Mas Silamuê não precisa ter pressa. A criança pediu a festa para comemorar a sua chegada! A convidada de honra é você.
Por um segundo ela ficou surpresa. Muitos cultos a recebiam com oferendas, mas elas geralmente eram também um presente de despedida. Outros cultos a tinham em alta estima, mas apenas por acreditarem que ela lhes daria sua força. A ideia de alguém, ainda mais uma criança, celebrando a hora de sua chegada era algo bem diferente.
Silamuê olhou fundo nos olhos do velho. Sentiu-lhe as emoções. Procurou por algum sinal de loucura ou embriaguez mas tudo que encontrou foi respeito e tristeza. Viu o medo do velho e sua vontade de correr mas havia também amor sustentando suas palavras e o impedindo de fugir.
– Não tente me enganar velho…
– Venha senhora… A criança esta esperando.
Silamuê seguiu o velho. O som dos tambores vacilou quando ela entrou na aldeia e muitas das pessoas pararam de dançar dominadas pelo mesmo medo que o velho sentia.
– Que vergonha é essa? A convidada de honra chega e a festa para? É essa a despedida que Okulu pediu?
O grito do velho, por mais ilógico que lhe parecesse, surtiu efeito. Aos poucos os tambores voltaram a soar e as pessoas, desviando os olhos, voltaram a dançar. Só depois de satisfeito com o andamento da festa é que o velho voltou a conduzi-la para a cabana. Ela sentia o chamado ficando mais forte. A criança não tinha mais muito tempo.
– Pronto minha senhora Okulu está ai dentro.
– Obrigada velho.
Dentro da cabana o ar estava pesado. O cheiro de sangue era sufocante. No centro, longe do alcance das luzes, havia uma rede. Nela estava deitado um menino com as veias do braço abertas logo abaixo de um nó firme. Seus olhos estavam abertos mas ela podia ver que o menino estava fazendo um esforço muito grande para se manter lúcido.
– Porque Okulu? – disse apontando para o corte
– Porque eu queria que você me levasse.
– Então porque o nó?
– Porque eu queria me despedir Okalula.
– Meu nome não é Okalula pequeno. Okalula significa cura. Eu sou o oposto dela. E não vim aqui te curar. Vim aqui te levar.
Um sorriso tímido brincou nos lábios esbranquiçados da criança.
– E quando você me levar, vai continuar doendo?
– Não.
– Então você é curandeira sim.
Silamuê observou o menino. O suor frio escorria pela testa e o sangue quente que escorria pelo braço. Em seu rosto não havia medo, apenas uma determinação resoluta. Uma certeza que só podia surgir da inocência de uma criança.
– Como você sabe que eu vou deixar você se despedir?
– Porque meu avô me contou sobre você antes de você levar ele. Ele me disse que você não é má. Disse que você é como nós, faz o que tem que fazer, vai quando tem que ir. Respeita o que tem que respeitar.
– E se seu avô estivesse errado sobre mim?
– Bom, ai tem a sua festa. – disse sorrindo novamente.
Silamuê aproximou-se do garoto e tocou a ferida aberta. A pele de okulu começou a se fechar. Seus lábios rachados voltaram a ser macios. Seus olhos voltaram a brilhar.
– Vá se despedir.
– Eu disse. Okalula. Obrigado. Agora você pode abrir o seu presente.
Silamuê não sabia se era a ideia de ganhar um presente, ou se era sentir os braços do garoto apertando com força sua cintura, mas algo ali a deixava sem ação. Algo ali a deixava mais…. humana
– Presente?
– Bom, você não pode ir para a festa sem uma roupa de festa né?

Okulu saiu primeiro. Ele não se parecia nada com a criança que vinha morrendo nos últimos meses. Ele estava como sempre fora: forte e cheio de energia. Uma criança de sorriso fácil. Correu para abraçar a mãe , o pai e o irmão menor. A tribo explodiu de alegria. Os tambores se tornaram mais algos e até mesmo a fogueira pareceu brilhar mais forte na noite estrelada. Depois de livre do abraço familiar Okulu correu de volta até a entrada da tenda.
– Agora é sua vez.
Silamuê saiu da tenda e todas as atenções se tornaram dela. Ela sabia que isso ia acontecer, mas o menino fora insistente. Era tão raro levar almas interessantes, mais tão raro quanto ter uma festa em sua homenagem, então ela acabou concordando em usar o presente.
O vestido vermelho e amarelo chamava a atenção. O trabalho no tecido, a costura tipica da tribo, tudo isso fazia com que fosse mais fácil para eles entenderem, ou melhor, ignorarem o que ela era. Da sua roupa antiga, apenas o colar de ossos permanecera no lugar.
– A festa é sua Okalula. Obrigado por me dar a chance de dizer adeus.
Okulu levou Silamuê para o lugar de honra, perto do fogo, e a sentou ao lado do chefe da tribo. Dessa vez levou menos tempo para as pessoas começarem a dançar. Logo todos pareciam te-la esquecido.
Silamuê aprendera com os anos que o medo e a negação humana eram suas maiores armas. Eles faziam com que a temessem. Faziam com que preferissem ignora-la e com isso ela já estava acostumada a lidar. O esquecimento ….
Com o passar da noite ela observou Okulu dançar. Ninguém diria que aquele menino partiria com ela essa noite. Ele ria e cantava. Conversava com amigos e com a família. Quando a noite ficou mais fria e a escuridão parecia querer devorar a fogueira Okulu olhou para Silamuê. Nenhuma palavra precisou ser trocada. Okulu abraçou seus amigos e começou a caminha na direção de Simaluê e sua família.
– Pai?
O homem negro não levantou a cabeça ao ser chamado.
– Pai, você não me fez ficar doente. Não tem pelo que se culpar.
– Mas eu… – disse o homem perdendo o olhar na lança que jazia deitada em seu colo. – Eu não pude fazer nada.
– Você me ajudou. Fez o que eu pedi. Fez o que eu não teria força para fazer sozinho
Okulu tocou a mão que segurava a lança. Ele sentiu a pele do pai. A mão forte e calejada. A mão de um caçador. A ponta ainda vermelha da lança.
– Leve. – disse o homem sem olhar o filho nos olhos. – Leve ela com você. Você precisara de coragem.
– Não.
– Eu não posso ficar com ela Ok. Não depois de…
-Mas, se você não ficar com ela como meu espirito vai poder te ajudar nas caçadas? Toda vez que você trouxer comida para a tribo eu estarei com você, ajudando do jeito que eu deveria pai.
O homem caiu de joelhos na frente do filho que o abraçou forte. Okulu forçou a mão do pai novamente no cabo da lança.
– Por mim…
Okulu continuou caminhando. Agora a sua frente estava seu irmão menor.
-Ei pequeno, eu vou sentir saudade de você sabia?
– Onde você vai irmão?
– Para o mesmo lugar que você vai um dia.
– Então a gente vai se ver logo?
– Logo não. Mas a gente ainda vai se ver.
– Então tudo bem. Eu vou sentir saudade irmão.
– Eu também vou, pequeno.
Por fim, Okulu se aproximou da mãe. Ela estava séria. Brava até. Ele sabia que ela seria a mais difícil de se despedir. Sua mãe realmente o amava e não estava de acordo com seus planos desde o começo.
– Mãe…
Ela nada respondeu. A mulher apenas ignorou a pergunta. Ela sequer se deu o trabalho de olhar para o filho.
– Eu amo você tá?
Okulu começou a se afastar na direção de Silamuê quando um grito cortou o ar. O grito era tão cheio de dor que era impossível não se arrepiar com ele. A própria vida pareceu se interromper. Algo estava se rompendo, provavelmente para sempre, dentro de sua mãe. Okulu sentiu como se não pudesse respirar. Ele se virou de volta a mãe e correu para os braços da mulher que agora estava no ajoelhada junto ao pai com o rosto molhado pelas lágrimas.
– Você não pode ir. Não ainda. Você é o meu filho Okulu. Só vai onde eu deixar você ir.
– Mãe…
– Você não vai. Nós… nós podemos lutar com ela! Podemos lutar contra a doença.
– Você sabe que não é assim mãe. Sabe o que eu escolhi.
– Você não sabe do que está abrindo mão meu filho. Você ainda não viveu. Ainda não caçou. Ainda não dormiu com alguém sob as estrelas. Ainda há tanta coisa pra você fazer.
– Não vivi?
– Não o suficiente.
– E o que é então que eu tenho no peito? O que são minhas lembranças?
– É pouco.
– São suficientes para mim agora mãe. E agora é só o que a gente tem, não foi isso que você mesma me ensinou?
– Sim, mas eu nunca pensei que…
– Que eu fosse tão cedo? Todos tem seu tempo.
– Mas você acelerou o seu.
– Eu sei… mas meu corpo doía tanto. Eu não quero viver assim. E não quero que vocês vivam assim. Ou você acha que eu não ouvia as brigas por minha causa? Ou o choro antes de dormir?
– Você…
– Sim. Eu ouvi. O que eu fiz foi por nós. Nós merecemos melhor. Você merece.
– Okulu…
– E não seja egoísta. Assim eu vou poder passar um tempo com o vovô até você chegar. Tem algum recado para ele?
O rosto da mãe de Okulu brilhava na pálida luz das estrelas e da fogueira que morria. Ela admirava o filho. Reprovava também. E sofria como nunca sofrera.
– Seja forte está bem? Eu vou ficar bem. E não esquece tá: Te amo.
Okulu beijou o rosto da mãe e abraçou sua família mais uma vez. Depois com o resto das forças que tinha, foi até Silamuê, que também havia derramado uma lagrima. Ele entrelaçou seus dedos com o da mulher sentada a sua frente. Ele sorriu para ela.
– Como você fez?
Silamuê fingiu não entender.
– Fiz o que?
– As palavras certas. Eu sei que foi você que as soprou para mim. Obrigado.
– Era o minimo que eu podia fazer para ajudar. E agora?
– Agora… agora eu te levo pra casa Okalula. Vamos?
Simaluê olhou para o menino ainda incrédula. Seu sorriso ainda estava lá. Mais branco que as estrelas. Mais iluminado do que elas. Ela sorriu de volta, segurou firme na mão do pequeno, e deixou que o garoto a levasse, desaparecendo através da noite.

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  1 comment for “A festa de Okulu

  1. 20 de setembro de 2017 at 08:07

    Oloco, foi um conto muito bem escrito. O ritmo está perfeito, e o enredo é muito sentimental. Adorei. Devo te dar um puxão de orelha na falta de acentos, que ainda falham muito, mas ainda assim o conto está lindo

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