A última carta

Existem coisas novas, coisas velhas e coisas antigas. Coisas novas perdem a graça e se tornam velhas. Coisas velhas se deterioram com o tempo e eventualmente desaparecem sem deixar traços de suas existências. Coisas antigas são um assunto a parte. Elas simplesmente são. Além do limite do tempo. Novas e velhas ao mesmo tempo. Aeternum. Vivas e mortas. E de tempos em tempos elas se encontram e compartilham histórias novas e velhas. Pequenas coisas que por um motivo ou outro acharam interessantes ou até mesmo bobas. Detalhes ricos de vidas pobres. Essa é uma dessas histórias.

Alguém deveria colocar mais lenha na fogueira – disse a Sabedoria.
Eu vou. – respondeu o Tempo. – Afinal de contas, agora é minha vez de falar, não?
É sempre sua vez de falar – ecoou a voz rouca da morte. – Apenas seja breve, eu tenho uma história curiosa para contar e não tenho todo o Tempo do mundo como alguns aqui.
Nem todos ali apreciavam aquele tipo de humor, mas todos se calaram e, talvez por cortesia (ou medo) sorriram discretamente do jogo de palavras do Companheiro Final. Percebendo então que tinha a atenção de todos, Tempo atirou mais um fardo de lenha na fogueira e começou sua história iluminado pelo fogo e pela Lua.
Minha história é simples. Frágil. Um conto humano. Um conto que tem um pouco de mim, e um pouco de cada um de vocês. Como sabem, eu não sou o maior fã da humanidade aqui. Eles me desperdiçam com coisas tolas, tentam me controlar, e o pior, ainda esperam de mim todas as soluções e respostas. A maioria das pessoas espera. Algumas esperam por um aumento, como o obvio resultado de seus esforços no trabalho sem pensar se esse esforço realmente existe. Outras esperam por um amor, que venha consertar tudo que o antigo amor lhes fez de mal, responsabilizando-o pela felicidade em suas vidas. Outras ainda esperam por uma segunda feira sem graça onde consigam finalmente começar os seus regimes, indiferentes ao fato de que todos os dias são segundas feiras – e ao mesmo tempo não são. E Marcelo, como qualquer outra pessoa, não era muito diferente disso. Quer dizer, ele tentava, é claro. Ele fazia sua parte, ou pelo menos a parte que se sentia capaz de fazer, e, de resto, também aguardava. Mas o que torna Marcelo interessante para mim não é o fato dele aguardar algo. O que torna Marcelo interessante é o que ele aguarda.
Marcelo aguarda o fim.
Os olhos da morte brilharam rapidamente enquanto Tempo tomava folego e se certificava de ter a atenção dos companheiros. A fogueira estalou três vezes.
Ok, muito dramático, eu sei. Vamos então nos ater aos fatos que são razoavelmente simples:
Fato um – Marcelo e Laura se conheceram.
Fato dois – Marcelo e Laura se apaixonaram (ou pelo menos assim lhe parecia)
Fato três – Marcelo e Laura terminaram.
Fato quatro – As circunstancias especificas do término não vem ao caso.
Muitos de vocês provavelmente acabaram de perder o interesse em nosso herói. Outros talvez devem estar se perguntando sobre as circunstancias do término e se realmente isso não tem importância – o que eu asseguro, realmente não tem – Outros talvez estejam pensando que esse é apenas mais um caso de amor fracassado. Mas a minha história começa bem depois do término de Marcelo e Laura. Tempo suficiente para, tanto Marcelo quanto Laura, seguirem em frente. Ambos namoraram outras pessoas. Casaram. Tiveram filhos. Nenhum suicídio por amor. Nem assassinato. Nenhuma reviravolta a lá Hollywood. Nenhum final necessariamente feliz. Nem infeliz.
Entretanto, durante todo esse tempo Marcelo guardou para si um segredo. Um segredo que pouco a pouco o corroía por dentro. O fato de que, apesar de todos os acontecidos, após o término do relacionamento, após anos sem se falar, Marcelo ainda amava Laura. Amava Laura como acreditava jamais poder amar outra pessoa. E continuou a ama-la. Mesmo se relacionando com outras pessoas. Mesmo amando outras pessoas. Agora, seria isso realmente possível para um humano ou Marcelo era apenas mais um a cair nas garras de nossa querida Loucura?
Para Marcelo isso era sim muito possível. Amar Laura não era opcional para ele. Viver com ela, ao que tudo indicara, também não. Então Marcelo se viu numa encruzilhada – lugar onde eles geralmente esperam que eu resolva tudo – E decidiu seguir em frente, o que, diga-se de passagem, era a unica opção realmente viável para ele. Mas mesmo seguindo em frente ele tinha essa ferida aberta. Esse assunto não resolvido. No começo, achava que não iria amar ninguém nunca mais. Depois, até com certa vergonha, descobriu que suas necessidades biológicas não deixavam de existir apenas porque eles não estavam mais juntos. Finalmente, ele aprendeu a viver com essa dor. Ou quase.
Marcelo descobriu que precisava colocar aquele sentimento para fora. Começou então com os amigos. Não todos, é claro. Apenas um ou dois. Mas aquilo não era o suficiente. Pensou em aumentar o numero de amigos. Também não funcionaria. Pensou em falar com Laura. Preferiu evitar. Sim, meus amigos, nosso herói foi medroso. Vocês podem culpa-lo? Fariam diferente?
Enfim, o que importa é que Marcelo precisava extravasar aquele sentimento. Precisava tirar aquilo de dentro dele antes que explodisse. E muitas foram suas tentativas. Quase tantas quanto os copos dos venenos que colocava aos poucos em seu corpo. Marcelo acreditava que sofreria até encontrar uma forma de se livrar de Laura definitivamente, ou até morrer. Então, em uma quarta feira qualquer, ele decidiu escrever para ela. Escreveu e apagou. Escreveu novamente e jogou o papel no lixo. Escreveu uma terceira vez e se sentiu levemente melhor. Ele não se livrara dela, isso lhe era claro como o dia, mas tinha achado algo que poderia aliviar sua angustia.
Então Marcelo escreveu.
Marcelo escrevia cartas e mais cartas. Cartas que jamais seriam entregues. Cartas que eram delicadamente guardadas, dia após dia, enquanto ele seguia com sua vida.
No começo, eram cartas desesperadas. Cartas de angustiada. Cartas em que ele se permitia até sentir algo parecido com esperança, embora ele não soubesse – ou admitisse – de que. Ele escrevia todo dia e lhe parecia que nem todo papel do mundo seria o bastante. Depois, com o passar dos anos, sua intensidade diminuiu. Marcelo se sentia bem ao pensar nisso, e logo em seguida se sentia mal, pois sabia, bem em seu intimo, de que aquela dor podia até ter melhorado, mas que nunca cessaria.
Laura. Aquela mulher lhe marcara para o resto da vida. De alguma forma Marcelo se convencera de que ela havia sido A mulher de sua vida. Ele se esquecera, ainda que conscientemente, dos problemas. Se esquecera das imperfeições e das brigas. Seu olhar parecia enxergar apenas saudade, olhares e amor.
E da mesma forma que colocara a idéia de um amor absurdo e impossível em sua própria cabeça, também se auto aconselhava a esquece-la. O esforço constante para evitar pensar nela o cansava. Escondia da melhor forma possível, mas ele sabia, bem no fundo, que ela, ou melhor, que aquele sentimento, era danoso. Ela o assombrava mesmo sem saber. O deixava desconfortável dentro de sua própria pele.
E então Marcelo continuou a escrever. Talvez com ainda mais furor, na esperança vã de que dessa vez funcionaria. Talvez apenas por que escrever lhe dava uma desculpa para pensar nela. E Marcelo escreveu. Suas palavras fluíam como imagens perfeitas. Seu sentimento, achava ele, causaria inveja nos grandes poetas e, caso um dia descoberto, talvez uma ponta de arrependimento no coração de Laura. Ele esperava mesquinhamente por aquele arrependimento.
Até que um dia, cansado e exaurido, Marcelo adormeceu com seu caderno ainda nas mãos. Foi uma noite sem sonhos. Nenhuma aparição. Nenhum pesadelo. Nenhum servo do Divino, nem da justiça universal, veio ao seu leito. Um sono comum, exatamente igual ao de outras milhares de pessoas. Quando acordou, reparou no caderno. Havia um numero no topo da página. Uma forma que Marcelo encontrara de manter algum controle sobre o que escrevia. Um numero para cada carta guardada. Um numero para cada tentativa de fuga daquele sentimento. Havia um numero no topo da página e nada mais.
Ele então se levantou. Colocou um pão na torradeira e pegou o iogurte na geladeira. Bebeu no gargalo. Comeu a torrada com manteiga. Uma musica tocou na casa da vizinha. Uma musica que lembrava ela. Ele então respirou pesadamente, desapontado por logo no começo do dia ser afligido por aquele fantasma e pegou o caderno novamente. A indicação marcava 1786. E ao olhar o numero Marcelo parou. Faziam aproximadamente 6 anos que Laura saíra de sua vida. Era quase o dobro do tempo que passaram juntos. Marcelo gritou. Gritou de frustração. Gritou pela loucura que tudo aquilo representava. Gritou pois não haviam mais palavras a serem ditas. Ele perdera. Perdera total e completamente. E enquanto gritava apoiou as costas na parede e se deixou escorregar até o chão. A folha, ainda em sua mão, continuava a encara-lo. 1786.
1786.
1786.
Marcelo parou de gritar. Ele reuniu toda a força que ainda tinha para uma ultima carta. Para uma carta de termino. Uma carta para ser a ultima. A ultima carta e a ultima vez que pensaria em Laura. A despedida definitiva. A musica continuava tocando. A caneta tocando o papel. Letras que saiam sem controle ou pensar. Palavras que expressavam tudo o que ele queria dizer. Todo o bom e todo o mal do relacionamento. Tudo por que também passara naqueles seis anos. Tudo o que ele queria que ela soubesse. Tudo o que tinha medo de admitir. E quando finalmente terminou Marcelo sentiu sua alma leve. Aquilo era o que Marcelo esperara por tanto tempo. Aquele era o fim, ou pelo menos aquelo era um fim que ele podia aceitar. Ele fechou os olhos . Não havia mais angustia. Não havia mais dor. Sentiu que o caminho que traçara estava agora mais claro e mais livre. Soube que conseguiria seguir a vida e ser verdadeiramente feliz. Marcelo arrancou a folha de numero 1786 com cuidado, dobrou carinhosamente, colocou-a junto com as outras, e foi lavar a louça da noite anterior. Ele enfim pode seguir sua vida.
Você deve estar de sacanagem. – ecoou a voz rouca e, agora irada, da Morte. – Todo esse teatro por uma carta. Você acha que somos idiotas? Como ele pode ter encontrado o fim se ele não me encontrou?
Ele não encontrou o fim. Ele encontrou algo mais poderoso do que isso. – respondeu o tempo.
Mais poderoso do que o fim? – Agora a figura da morte crescia diante da fogueira. Raios cruzavam o céu. – O que pode ser mais poderoso do que o fim?
A compreensão – respondeu em tom apaziguador a Sabedoria. Ela sorriu para o Tempo e depois olhou para a Morte. Eu entendi a história, e aparentemente esse Marcelo também entendeu.
Entendeu o que?
Que nada realmente tem um fim. – responderam o tempo e a sabedoria em uníssono. Aceitar isso é o que realmente te permite seguir em frente – continuou o Tempo, agora sozinho – As memórias sempre existirão. Assim como o passado. Assim como o sentimento. Mas essas coisas continuam a existir dentro de seus próprios tempos. E a existência disso tudo não é um problema, a não ser que a pessoa faça delas um problema.
A morte por fim se acalmou. Os outros antigos que ouviram a história pareciam felizes. Tempo então se sentou, dando a vez ao próximo antigo. Porem antes que o Medo pudesse começar a sua história, o Amor perguntou:
O que estava escrito na carta?
“Eu te amo. Pra sempre. “ – respondeu o Tempo.

  4 comments for “A última carta

  1. 12 de junho de 2017 at 01:45

    Thanks, great article.

  2. Fabio Baptista
    13 de junho de 2017 at 13:42

    Caraca…senti o impacto. Parabéns! 🙂

  3. 13 de junho de 2017 at 19:49

    Muito bom Will 🙂 seus textos me lembram um pouco Gaiman. Tu escreve bem, com sentimento. Só fiquei um pouco confusa no começo se era o tempo ou a morte que contavam a história. Depois tente dar ua revisada para ajustar acentos e gramática 😉

  4. Lucas Suzigan Nachtigall
    24 de junho de 2017 at 03:09

    Novamente… ótimo conto. Estava esses dias sem tempo (trabalho e a sempre presente procrastinação). Agora de madrugada li dois de seus contos. E, sinceramente, gostei muito desse. Acho que rpecisava de uma revisada na parte ortográfico-gramatical (acentos faltando, morte ora com inicial minúscula, ora com maiúscula,…), mas me prendeu bem o conto. 🙂

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