Abraço

Raul costumava se considerar uma pessoa cabeça bem aberta. Não tinha preconceitos e sempre recebia elogios por ser o tipo que ajuda em casa. Não tão astuto, nunca pegou o deboche da esposa ao agradecê-lo por ter feito a comida, pendurado a roupa na corda ou trocado a fralda dos filhos. Cresceu em um ambiente muito diferente e não entendia que estava fazendo só a sua obrigação – bom, uma parcela de sua obrigação – dizia que era um cara feminista. De toda forma, é fato que fazia muito mais que seus amigos, e chegava a se constranger ao ver a dinâmica do relacionamento de alguns destes.

Também não era racista, afirmava, e em seguida, listava a quantidade de amigos negros que tinha. Quando o criticavam por alguma piadinha tradicional que fazia, reclamava que o mundo estava chato demais.

Em sua criação, pai militar das antigas, mãe religiosa ao extremo, lhe ensinaram que casal era um homem e uma mulher e que homossexualidade – ou homossexualismo como seu pai preferia chamar – era errado, era doença. Mas aprendera também, ao longo da vida, que esse tipo de coisa não se podia dizer. E tentava mesmo reverter isto em sua cabeça, mas era muito forte. Em voz alta conseguia dizer que não tinha nada contra, que não era da conta dele e que gays deviam ter os mesmos direitos que héteros. Mas no fim sempre lhe escapava que “pode ser gay, mas não precisa ser viado, não precisa desmunhecar” ou coisas como “tudo bem ser gay, mas não precisa também se beijar em público! Temos que pensar nas nossas crianças!”.

A esposa o repreendia várias vezes e ele ia mesmo se conscientizando, se policiando. Mas em meia hora na roda de amigos, se sentia tão livre, em poder falar o que realmente achava! Não entendia como o Greg, depois de velho foi resolver dar o cu! “Será que ele já era viado?”, dizia um. E o outro “aposto que ficava manjando a gente no chuveiro depois da pelada!”. Ou quando viam casal de lésbicas, logo diziam que era falta de pica e se ofereciam para curá-las. E riam, riam muito.  

Teve quatro filhos com Úrsula: três meninos e uma menina, a caçula. Uma vez a esposa o ouviu dizer que tivera três machos, mas que depois fraquejou e foi quando nasceu Bia. Ela quase morre: ver o marido repetir piada de Bolsonaro era demais. Ele sabia como ela abominava aquele ser – que evitava mesmo nomear. Raul concordava com algumas coisas que o político dizia, mas outras achava realmente pesadas. Nunca mais fez essa gracinha. Pelo menos não na frente dela.

Criaram Tito, Hugo, Fábio e Ana Beatriz com o máximo de equilíbrio que conseguiram. Sabiam que muito do machismo era naturalizado, e foi uma luta diária se corrigirem quando se notavam reproduzindo algumas coisas. Não diferenciavam brinquedos e brincadeiras, todos participavam das tarefas doméstica… Bom, pequenas coisas. Só vestir os meninos de rosa que ele achou demais. Úrsula riu e resolveu fazer essa concessão. Seu marido era maravilhoso e ela sabia que se esforçava pra desconstruir toda a rigidez com que fora criado.

Quando Tito arranjou a primeira namorada, tiveram um papo super responsável com ele. Ficaram orgulhosos dos pais que se tornaram. Com ele tinha sido muito diferente. Ainda no início da adolescência, seu Tenório, seu pai, contratara uma garota de programa: precisava perder o cabaço. Ia ser um cabra-macho, como ele mesmo. Raul lembra de se sentir acuado, com medo mesmo. E lembra de desde aquela época ter achado estranha a oposição entre ele ter que ser iniciado tão cedo e a pressão que sofriam as mulheres pra permanecerem virgens.

Depois Fábio conheceu a Julieta. Doidinha, mas uma simpatia. Paixão intensa. Os pais se preocupavam, mas não interviam. Apoiaram o namoro e abraçaram o filho nas lágrimas do fim – sim, homem podia chorar, porque não?! -, quando ela trocou ele por Sofia. Raul quase diz que achava aquela menina meio estranha e que agora sabiam que não era normal, mas Úrsula, sentindo que algo assim vinha, o repreendeu com um olhar.

Bia foi a que namorou mais cedo. O pai se roeu de ciúmes. Mas se controlou. O menino, tímido, tímido, morria de medo do sogro no início. Depois se tornaram grandes amigos. Torciam pro mesmo time de futebol, gostavam de escutar coisas parecidas – “aquelas músicas de velho!”, reclamava Bia. Quando a filha deu o pé na bunda do rapaz, Raul sofreu um tantinho.

Hugo foi que mais tarde namorou. Não era tímido. Sempre rodeado de amigos e amigas, era bastante popular. E bonitão também. Raul achava estranho falar que homens eram bonitos, mas, sendo seu filho, entendia como exceção. Às vezes o incentivava a investir nessa ou naquela garota. Estava certo de que Paula, amiga de Hugo desde a infância, tinha uma quedinha pelo filho.  “Deixa quieto isso…” falava Hugo, rindo.

Foi no verão de quando completava 22 anos que os pais perceberam Hugo diferente. Grudado no celular, saídas repentinas, mais noites dormindo fora, e um olhar… ah, um olhar apaixonado. Tentaram puxar esse assunto com ele e com os irmãos, felizes que estavam, mas ficavam escorregadios toda vida. Hugo chegou a admitir que tava meio que namorando, mas não deu detalhes nem falou de levá-la para conhecê-los. Raul já começava a achar aquilo estranho e ficar entre chateado e preocupado. Sempre foram tão bacanas com os companheiros dos irmãos e sempre tiveram um diálogo tão aberto com os filhos. Porque esse mistério e essa distância toda agora? Tá, as pessoas eram diferentes, mas não entendia. Teria vergonha da família, por não terem grandes luxos? Ou a namorada seria uma pessoa muito problemática? Talvez mesmo perigosa.

Um dia estavam só os dois em casa e Raul resolveu encurralá-lo. Mas não como tentara até então. Pois um futebol, abriram umas cervejas… foram conversando de tantas coisas, retomando uma intimidade que achou já não terem. Até que chegou no assunto. Hugo já tinha ensaiado muitas vezes como contar aquilo. Às vezes se achava bobo mesmo pelo mistério. Os pais eram tão compreensivos, tão cabeça aberta… os amigos sempre lhe diziam isso. Ensaiou tanto… mas na hora só saiu. Assim, sem preparar, sem rodeios. “Pai, o nome dele  Gabriel”.  

Raul tonteou. Nunca tinha passado pela cabeça seu próprio filho pudesse ser gay. Ele era tão… Normal! Hugo seguiu contando toda a história, por um momento aliviado de ter por fim se aberto. Mas Raul não estava escutando. Respirava fundo tentando se convencer que aceitava, que não achava errado, que defendia os direitos LGBTs, como dizia sempre. Mas não tava sendo fácil. Pensou nos amigos, no que diriam, na piada que ele viraria. Pensou na decepção que o seu Tenório teria e de como culparia Raul pela viadagem do filho. Pensou se não tinha solução, se não devia levá-lo ao psicólogo, ao psiquiatra, ao neurologista, ao caralho a quatro. Pensou também no preconceito que o filho sofreria.

Não, não aceitava. Escaparam de sua boca então todos os preconceitos que dizia não ter. Ameaçou internar, deserdar, espancar. Hugo ficou incrédulo. Não reconheceu o pai naquele homem exaltado à sua frente. Deixou Raul falando sozinho, foi no seu quarto, escreveu uma carta banhada de lágrimas para a mãe, pegou algumas mudas de roupa e saiu sem dizer pra onde ia. Na verdade, sequer sabia.

Úrsula se desesperou quando viu a carta. Esbravejou com o marido, exigiu que ele se desculpasse. Mas mesmo que ele fosse capaz, não adiantaria: Hugo não conseguiria perdoar. Pai e filho romperam relação. Mãe e filho se encontravam ao menos uma vez por semana, primeiro em cafés ou na casa do amigo que o recebesse por aquela semana, depois no apartamento que Hugo foi dividir com Gabriel. Nas primeiras vezes, Úrsula implorava que o filho voltasse. Aos poucos foi entendendo que isso não aconteceria, e que não era justo pedir isso a ele. Seu casamento aos poucos desmoronava.

Naquela tarde de quarta-feira, já faziam dois anos que pai e filho não se viam ou se falavam. Hugo viu a mensagem do irmão mais velho, contando do falecimento do vô Tenório. Deu um nó imenso na garganta e seus sentimentos eram confusos. Culpava o avô pela cabeça do pai e sabia que ele nunca o aceitaria como era. Mas isso não apagava suas memórias de infância, o carinho que tivera -tinha- por aquele homem. Queria estar junto com os irmãos, abraçá-los. Resolveu ir, ignoraria o pai e pronto. Mas quando viu a família, de longe, não foi capaz de se aproximar. Chorou dali as lágrimas pelo vô junto com o choro entalado de dois anos antes. Saiu antes deles e foi bater perna no centro, como costumava fazer quando precisava pensar. Hábito esse, herdado de Raul.

Já rodava sem parar a duas horas, quando viu aquele homem, que parecia 10 anos mais velho, sentado no banco da praça. Já escurecia e era míope, mas não teve dúvidas que era o pai. Parecia arrasado. Se encheu de coragem e foi até ele. Choraram abraçados, um abraço apertado, enquanto Raul implorava o perdão do filho. Queria conhecer Gabriel, queria conhecer novamente o filho. Que babaca e covarde que tinha sido.

Hugo não conseguia responder, num misto de mágoa e saudade daquele carinho. Só seguiram abraçados, sem falar muito, não se sabe por quanto tempo.  E não viram quanto os quatro homem fortes se aproximaram. O primeiro soco, Raul não entendeu. No segundo e nas frases desconexas proferidas pelos agressores, que mal podia distinguir, zonzo pelas pancadas, ouviu coisas como que viado não era gente, que iam limpar o mundo desta escória, que defenderiam a família brasileira com as próprias mãos. Tentou implorar por suas vidas, tentou defender o filho, mas em pouco tempo sequer podia se mover. Entre lágrimas e sangue entendeu que as piadas que costumava achar graça, talvez não fossem mesmo inofensivas, como ele defendia chamando quem o reprimia de radical, exagerado.

Na capa do jornal, junto com a foto de pai e filho já sem vida no chão de pedras portuguesas, a explicação de um dos assassinos, que soava como um pedido de desculpa para sociedade: “Foi tudo um grande mal entendido. Achamos que eram dois de viados se atracando.”

  7 comments for “Abraço

  1. 20 de outubro de 2017 at 15:30

    Sem palavras. ='( Quando eu me recompuser, volto para comentar. <3

    • Raquel Stern
      22 de outubro de 2017 at 21:00

      É, esses últimos 3 não ficaram muito leves…
      Mas me veio rapidinho essa ideia. Teve um caso parecido, né?
      E tantos absurdos nessa linha de “achei que era mendigo”, “achei que era prostituta”.

      Mas gostou?

      O próximo vai ser mais leve! 😉

      • 22 de outubro de 2017 at 21:26

        Se gostei? Adorei! Enquanto ia lendo a descrição da personalidade do Raul, pensava: “quantos detalhes! será necessário detalhar tanto?” Mas logo comecei a perceber o objetivo. Era preciso visualizar com precisão o que se passava na mente dele para poder entender o sofrimento pelo qual passou e também causou. Fiquei com a impressão de que no fundo ele não era preconceituoso, mas sentia a compulsão de agir conforme havia sido treinado. Desnecessário dizer como foi comovente o final, principalmente quando se sabe que fatos assim já aconteceram e infelizmente continuarão a acontecer. Parabéns pelo conto. 🙂

        • Raquel Stern
          22 de outubro de 2017 at 21:56

          Obrigada, Zulmira!

          É, eu acho que ele faz um esforço danado pra não ser preconceituoso, entende na teoria o quão errado é. Mas na prática não é fácil mudar o que já tá tão entranhado nele desde a infância.

  2. 24 de outubro de 2017 at 08:17

    Oi Raquel, tudo bom? Primeiramente um toque de revisão: tem um lugar no texto escrito “Os paise”, e acho que você que você quis dizer “Os pais se”. no penúltimo parágrafo, em “Hugo não conseguia responde”, faltou um “r” para o verbo no infinitivo. Mas isso são coisas de revisão, só uma segunda lida já ajeita.
    Achei curioso você dizer que a roupa se pendura em corda. Sempre chamei de varal, rs. Você mora em que Estado? Será que é regional? 🙂
    Teve um caso desses em SP, de um pai é um filho que foram espancados por acharem que eram gays. Mas na vida real eles não morreram. Pelo menos, né? Queria que isso só acontecesse nas ficções de nossos textos, mas infelizmente é tudo real. Apesar de eu saber que sou intolerante com gente preconceituosa, também tento entender o lado da pessoa. Afinal, como eu farei para que uma avózinha de 80 e tantos anos entenda essas coisas, sendo que ela cresceu apreendendo que isso é errado? Alguns estudiosos até afirmam que para que a gente viva numa sociedade livre de preocnceitos, ainda levarão algumas gerações.
    Eu adorei o jeito como você escreveu, empatia para ambos os lados da história é uma bela mensagem a ser transmitida. É um pouco do “tem que desenhar pra pessoa entender”, mas de fato se não utilizarmos de exemplos empáticos incluindo a pessoa no contexto, fica mais difícil de entender.
    Parabéns pelo texto!

    • Raquel Stern
      24 de outubro de 2017 at 09:26

      Obrigada pelo comentário e pelos toques, Lídia! Tenho escrito esses contos num fluxo corrido e sempre me escapam algumas falhas destas. Realmente preciso ficar mais atenta e revisar! 😉

      Fiquei encubada agora com corda. Sou de Niterói-RJ. Mas moro hoje em Foz, onde cada um é de um canto diferente. Pensando aqui, me sai mesmo mais natural “corda”, como me veio ao escrever! Mas me bateu uma dúvida danada se no Rio se diz em geral corda ou varal ou se peguei a influência de algum outro canto!

      Que bom que gostou!
      Realmente rolou esse caso em SP. Quando fui escrevendo, levei vagamente dele. Depois fui procurar: realmente não morreram. Infelizmente coisas parecidas acontecem o tempo todo… e um ponto do conto é que quando repetimos alguns dos discursos preconceituosos, mesmo achando só brincadeira, acabamos contribuindo pra que sigam acontecendo esses absurdos. Espero que os estudiosos estejam certos que em algum momento estaremos livres de preconceito, pq tenho bastante dificuldade em acreditar…

      Sentindo falta dos seus contos!

      • 27 de outubro de 2017 at 09:47

        Ai, eu ando tão corrida com minha vida ultimamente. Mas juro que vou voltar a escrever haha

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