Afrodite

Tem quem não acredite em amor à primeira vista. Bom, Paulo era uma dessas pessoas, até o dia em que a conheceu. À despeito de sua péssima memória, lembrava-se com perfeição de cada detalhe daqueles primeiros encontros, embora nunca falasse disso. Preferia evitar reviver esta história. Sua história.

“Prazer, Afrodite”. Assim ela se apresentou formalmente a Paulo, um mês após a primeira troca de olhares. Ele, que mal podia dormir desde aquele 15 de agosto, disfarçou sua ansiedade e cumprimentou a moça. Achou o nome bonito e irônico. Se tornaria uma das brincadeiras deles: Paulo podia até ter nome de santo, mas ela tinha logo de deusa!

Se ele já não a tirava da cabeça desde a primeira vez que a vira, depois de se conhecerem oficialmente o sofrimento era outro. Tímido, não conseguia se aproximar de fato dela quando se encontravam entre os amigos em comum e tampouco tinha coragem de convidá-la para saírem só os dois. Talvez, se não tivesse ela tomado a iniciativa, aquele amor nunca teria deixado de ser platônico. Hoje não sabe dizer se foi algo bom ou ruim. No dia, lembra de ter se sentido o homem mais sortudo do mundo.

Ele tremeu ao vê-la se aproximando. Acendeu um cigarro para tentar relaxar; apagou em seguida, ao lembrar de nunca tê-la visto fumar: e se não gostasse? Quando teve certeza que Afrodite viria em sua direção, virou o copo. Se encheu de coragem: tinha uma mostra de cinema grego, era a deixa perfeita… ela gostava de cinema, disso já se certificara. Faria um gracejo com a origem do nome dela, repetiria em tom blasé as informações que decorara dos principais filmes e do diretor mais icônico… tinha que dar certo! Desistiu em seguida, só de olhá-la. Precisava tirar aquela cisma da cabeça. Ela era linda demais – neste momento reparava justo como hipnotizava a todos ao redor só pela presença; e ele sabia que não tava exatamente dentro dos padrões de beleza da sociedade. E ainda por cima era manco. “Afrodite pode ter quem quisesse”, pensou. Não seria ele.

De tão imerso em suas divagações, levou um susto quando pegaram o cigarro recém apagado que seguia entre seus dedos. Era Afrodite. Pôs o L&M na própria boca e pegou o isqueiro do bolso de Paulo. Quando ela passou o cigarro pra mão dele, o nervosismo também passou, como que por encantamento.

Conversaram muito, a noite toda. Ao olhar em volta, Paulo gabou-se silenciosamente dos olhares invejosos a ele dirigidos. Teve medo de estragar tudo com o convite. Foi quando ela lhe sugeriu, ao pé do ouvido, que fossem a outro lugar. Assim era Afrodite: decidida e intensa.

Intensa foi também a paixão dos dois. Os amigos reclamavam, ninguém achava que combinavam… eles não se importavam.

De não entender as constantes referências de sua amada ao mundo de sua homônima, Paulo, que até pouco pensava que Zeus nada mais era que um erro de grafia de Deus, debruçou-se sobre as histórias dos deuses gregos. Afrodite já sabia ser deusa da beleza e do amor –  que escolha exata fizeram seus sogros! – mas mesmo assim foi a primeira coisa que pesquisou. Sentia que de certo modo era uma forma de conhecer melhor a namorada. Fez sentido ser também deusa da sexualidade. “Vaidosa, sedutora e amante fervorosa”.

No dia que contou a Afrodite, certo de que agradaria, que andava lendo muito sobre mitologia grega, despertou uma ira até então desconhecida: disse-lhe que não eram mitos, era a sua história real. Achou graça, mas não riu: ela parecia falar preocupantemente sério.

Sentiu um arrepio quando chegou ao marido Hefesto, descrito como “manco e feio”. Seria por isso que ela se aproximara dele? Tirou a ideia louca da cabeça: segundo lera, a Afrodite original casava-se obrigada com Hefesto. Não era nem de longe o caso deles: eram felizes e apaixonados de dar inveja. Ao menos até então.

Mas foi a partir de então que passou a sentir Afrodite a cada dia mais distante. Se alguns dias antes ela estava toda animada, planejando o futuro dos dois, viagens, casamento, nomes de filho e tudo – todos repetindo deuses gregos, claro -, passou a fugir de qualquer assunto relacionado. Com medo de perdê-la, se encheu de coragem e fez o pedido. Foi um alívio quando, com seu mais lindo sorriso, ela disse sim. Pensou ter visto, de relance, ela secar uma lágrima enquanto ele voltava com o champagne, mas, quando se aproximou, Afrodite exalava amor.

Foi ao tratar da documentação que teve uma surpresa: a certidão de nascimento da futura esposa trazia o nome de Helena de Menezes Gurgel. Pensou três vezes até ir contestá-la. E se arrependeu: mais uma vez aquela ira que ela escondia tão bem. Insistiu que seu nome era Afrodite e que assim devia tratá-la.

As famílias só se conheceram às vésperas da festa. Paulo não se segurava de felicidade: a noiva se deu tão bem com seus familiares que parecia ainda mais bela de tanta alegria. Afastou, por ora, todas as suas cismas.

Quando voltaram da lua de mel, foram passar um fim de semana na casa de João, irmão mais novo de Paulo. A felicidade com a química entre Afrodite e sua família, aos poucos se transformava em ciúmes do irmão. Tentou afastar essa ideia, assustado com a possibilidade de estar entrando na fantasia de Afrodite: eles eram Paulo e Helena e não era porque Hefesto fora traído com Ares que o mesmo aconteceria.

Pode-se dizer que os primeiros anos de casamento foram felizes. Se Afrodite estava descontente, como a da mitologia – em sua mente Paulo ainda usava o termo – era muito discreta. Paulo abandonou suas leituras sobre deuses gregos – vivia a vida que queria e decidira que só cabia a si não ser Hefesto em sua história.  

Mas, tem coisas que não dependem da nossa vontade. Quando seu primo Hélio lhe veio contar, cheio de pesar, que Afrodite e João tinham um caso, tudo voltou. Não precisou comprovar, na mitologia grega estava a sua certeza. Na analogia moderna à exposição que Hefesto fez de seus traidores, escreveu textão no Facebook, humilhando esposa e irmão. Foram mais de 1000 visualizações, nenhum compartilhamento, e muitos comentários privados entre os amigos. Alguns ressaltavam a beleza de Afrodite e invejavam João como haviam invejado a Paulo; muitos diziam ser o esperado: o que fazia mulher tão bela com Paulo? Mas cedo ou mais tarde aconteceria; outros sugeriam que não era a única pulada de cerca de Afrodite; e tinha quem repreendesse a atitude de Paulo.

Ao chegar em casa, já não encontrou Afrodite. Desesperou-se. O que fizera? Mas já não tinha volta. Lembrou-se do complemento da descrição da deusa: temperamental, facilmente ofendida e vingativa. Ela dizia não ser verdade a acusação; ele não acreditava; ela jamais o perdoaria; ele só queria voltar atrás!

Alguns contam que Afrodite ficou arrasada. Outros dizem que parecia mais leve. Consenso é que Paulo nunca mais foi o mesmo.

Quando o irmão foi tomar satisfação com ele, apontando a idiotice que estava fazendo com a vida e que só muito burro pra jogar fora assim um casamento com a mulher fantástica que era Afrodite, Paulo tomou o elogio como prova da traição. E descontrolado gritava que eram muitos os casos da esposa! Que João – a quem começou a chamar de Ares – devia abrir os olhos pra Hermes, Nerites, Dionísio, Poseidon e mesmo Zeus! Ao primo Hélio, avisou para ter cuidado com a vingança de Afrodite.

Depois de mais alguns episódios como este, que todos concordaram em internar Paulo. Mesmo os que a princípio acharam exagero, defendendo que ele estava passando por uma fase difícil, que logo superaria e voltaria a ser o cara sensato de sempre, desistiram quando ele passou a referir-se a si mesmo como Hefesto. Cismava também em chamar sua ex-esposa Helena, de Afrodite. Quiseram conversar com ela pra entender, mas depois de tanto sofrimento, a bela nunca mais tocou no assunto.

Helena e João alegavam que nunca houve a traição e que o relacionamento entre os dois começou após a acusação de Paulo, quando se apoiaram mutuamente. João achou lindo o nome Harmonia, escolhido pela companheira para a filha que tiveram, mas espera dissuadi-la de batizar os meninos que esperam de Eros e Fobos, como diz desejar Helena. “Talvez seja só uma brincadeira”, tenta se convencer. Por via das dúvidas, prefere não contar a ninguém que às vezes, nos momentos mais íntimos, ela o chama de Ares.

  6 comments for “Afrodite

  1. Willian Fernandes
    22 de setembro de 2017 at 10:04

    Muito interessante a ideia de recontar os clássicos como algo moderno. Gostei do ritmo e fiquei com pena de Paulo, mas a vida não foi feita para ser boa para todos certo? rsrsrsrs…

    • Raquel Stern
      26 de setembro de 2017 at 11:09

      Obrigada Will! haha é, ele não deu sorte!
      Pensei em no fim Hélio ser internado no mesmo lugar que estava Paulo, depois de começar a acreditar no primo, achando que as desgraças que aconteceriam na sua vida eram parte da vingança de Afrodite – e vendo paralelo na vingança contra o Deus sol, na mitologia grega.
      Mas fiquei na dúvida se já era demais e estava atrasada, então resolvi não incluir.

  2. 25 de setembro de 2017 at 20:39

    Gostei bastante da ideia do conto. Achei que o Paulo foi imprudente ao encarar um casamento com uma pessoa claramente doida! 😮 E no final ficou uma dúvida do tipo “Capitu traiu ou não traiu Bentinho?” Estranhei uma coisa: o início teve descrições bem detalhadas, como por exemplo a cena do cigarro, mas depois o tempo passou bem depressa e coisas importantes foram apenas citadas, sem descrições. Senti um “desequilíbrio” nesse aspecto. No final, restou um sentimento de pena do Paulo, exatamente como o Will mencionou acima.

    • Raquel Stern
      26 de setembro de 2017 at 11:16

      Obrigada pelo comentário, Zulmira!

      Acho que o desequilíbrio tem dois motivos: por um lado queria detalhar mesmo esses primeiros momentos, quando ele lembra tintim por tintim de como tudo começou com Afrodite (mas aí tenho que mudar um pouco isso, pq só falei de ele ter claro na memória o dia que conheceram) e o outro realmente de ter escrito meio corrido! Tô tentando escrever toda semana e queria ter enviado no prazo (mas por fim foi só na segunda) e a correria acabou refletindo mesmo no texto!
      Quero mexer algumas coisas – vi que passaram uns errinhos e algumas partes ficaram meio confusas – e vou tentar melhorar isso!

      Ahh Paulo ficou encantado demais com Afrodite que não quis ver a loucura.. ou talvez ele que sempre tenha estado doido (acho que nessa mexida vou por de uma forma que tudo o que sabemos da história deles seja o que ele contou pro psiquiatra).

      Mas antes vou terminar o da semana passada que ainda tá pela metade!

      Beijos!

  3. 28 de setembro de 2017 at 08:48

    Oi Raquel, tudo bom? Eu concordo com a Zulmira, adoro histórias que te deixam com esse sentimento de curiosidade, bem ambígua. Achei que sua narrativa possui um ritmo bem gostoso de ler, foi natural e mesmo sendo muito brigada essa história da menina ser a Afrodite, não senti que era uma história sem sentido, tudo parecia bem real. Parabéns pelo conto!

    • Raquel Stern
      8 de outubro de 2017 at 18:28

      Obrigada Lidia!
      A ideia foi deixar meio ambíguo mesmo… o que é real, o que é loucura e de quem é a loucura.

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