As chamas no anoitecer

Enquanto escrevo isso, assisto ao crepúsculo de mais um dia. Meu último. O Sol se põe, e com ele minhas últimas esperanças. A mim, resta encarar os meus pesadelos. Mas eu sei que vai acabar.

O fogo há de consumir meus males e minhas tristezas. Em meu peito, sinto dor e mágoa. Contenho minhas lágrimas, mas na calada da noite, meu coração chora. E durante o dia, sofro quieto. Vivo no silêncio e nas sombras da alegria.

Acho que esses são meus últimos momentos. Tenho bebido uma bebida amarga. No meu íntimo, quero arder minhas chamas. Eu quero soltar um grito. Um grito tão alto que possa ser ouvido no horizonte. Quero que escutem a angústia do meu íntimo. Quero que notem as feridas abertas da minha alma, que olhem a miséria do meu ser. Quero, simplesmente, que me vejam.

E a culpa é de vocês.

Como puderam fazer isso comigo? Desde sempre morei na mesma vila que vocês. Sou filho do mesmo solo e da mesma semente. Cresci com seus filhos. Brincávamos nas ruas, felizes, sob seus sorrisos de aprovação. Divertíamo-nos sem pensar no amanhã. Quando perdi meus pais, naquele incêndio maldito, vocês me consolaram. Ficaram ao meu lado. E aos poucos se voltaram contra mim.

Eu estava sozinho. Só queria ser amado. Ser acolhido e cuidado. Mas vocês me baniram. Vocês me baniram da felicidade e do carinho. Eu, que sempre vivi com vocês, fui banido para a solidão. Eu, que era como um irmão para seus filhos, fui deserdado por aqueles que antes me aceitavam. Virei um pária entre meu próprio povo.

Tudo isso depois daquele dia. O dia que vocês viram as chamas do meu coração. Sem tentar me entender, vocês se assustaram. E começaram a me acusar injustamente de coisas terríveis. Sem quem me ajudassem, fiz o que pude para viver. Morei na rua, à sombra da minha vida anterior. Mendiguei, pedi, implorei por qualquer coisa. Tive que roubar pra poder comer. E vi vocês se afastando, pouco a pouco. Vocês não tem ideia de como foi doloroso pra mim ser rejeitado assim.

Eu não matei meus pais. Eu não sou culpado pelo incêndio. Aquilo saiu do controle. Eu… não queria…

Mas agora eu vejo a verdade.

Vocês me perseguiram! Tentaram me apedrejar e me machucar. Falaram aos seus filhos para me evitarem. Para me odiarem. Vocês me chamaram de ladrão. De assassino. Vocês são os verdadeiros culpados. São culpados também ao que aconteceu àquela mulher bondosa que tentou me ajudar e me abrigar em sua casa, que agora está em ruínas, inteira queimada.

A culpa é de vocês!

Eu não tinha para onde ir. Essa vila fica muito isolada para eu ir embora. E eu não queria deixá-la. Entendem? Eu só queria ser aceito. Fazer parte da minha comunidade. Vocês impediram isso. Vocês são os responsáveis pelo que me aconteceu.

Mas, em meio a isso, encontrei novos amigos. Amigos que me aceitam e que entendem o que estou passando e o que estou enfrentando. Amigos que estão sempre comigo, dia e noite, e que nunca vão me abandonar ou se virar contra mim. Encontrei amigos para cuidarem de mim. E agora nós teremos nossa vingança!

No fim das contas, nós nos tornaremos aquilo que vocês fizeram de nós. Não quero mais abaixar minha cabeça. Se vocês me têm por monstro, eu serei um monstro. Quero morrer do meu próprio veneno. Vocês morrerão do próprio veneno. Vocês verão. Ouvirão o grito da minha alma. Um grito desumano, que vocês criaram. As minhas chamas dançarão por toda a montanha essa noite, lambendo os céus. A vila vai arder. Vocês vão queimar pelos próprios pecados. Vão saber o que fizemos e o que nos tornamos. Gargalharemos sob sua ruína.

Termino aqui essa carta. O Sol se põe. E, com ele, o que resta da minha antiga vida. Essas serão minhas últimas palavras. A partir daqui, terror e dor. Teremos nossa vingança!

Queimem!

  7 comments for “As chamas no anoitecer

  1. 17 de junho de 2017 at 15:23

    Curto, sucinto, mas muito bem explicado =) Ficou muito bão. Roy Mustang dá joinha.

    • Lucas Suzigan Natchigall
      17 de junho de 2017 at 15:26

      Own! 😀
      O Pyro também. Lembra?

      • 17 de junho de 2017 at 17:09

        Do teamfortress?

        • Lucas Suzigan Natchigall
          17 de junho de 2017 at 17:49

          Will… meu Avatar no TBoA!

  2. Fabio Baptista
    21 de junho de 2017 at 10:27

    Eu gostei muito, realmente visualizei a cena. Parabéns e bem vindo! 🙂

    • Lucas Suzigan Natchigall
      22 de junho de 2017 at 19:33

      Obrigado! Obrigado mesmo!

  3. Willian Fernandes
    23 de junho de 2017 at 15:16

    Achei a descrição centrada demais nos sentimentos do personagem. Ele fala a respeito dos fatos, mas não mostra os fatos. A descrição física deu lugar a uma descrição quase que totalmente psicológica. Não digo isso como uma critica, mas talvez, como uma dica para equilibrar um pouco mais o texto, caso isso não afete o que você quer passar.
    E sim, Queimem!

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