Backup

 

Apesar do dia frio de inverno, o coração de Rita se aquecia ao ver o sorriso de sua amada. A luz suave e quente do sol refletia no rosto de Susie, revelando que a morena não precisava de nenhuma maquiagem em sua pele perfeitamente macia. Ela dançava no jardim, seguindo a melodia do vento farfalhando as folhas das árvores, murmurando uma canção inventada no momento. Seu vestido longo acompanhava o doce movimento de seu corpo, e o mundo parecia assistir Susie com admiração.

Tudo era perfeito. Tudo era natural. Tudo era irreal.

Rita acordou com o som grosseiro do estilhaçar de porcelana vindo da cozinha. Mal teve tempo de se lamentar por ter um sonho tão gostoso interrompido, quando percebeu que havia caído no sono, deixando Susie sozinha. Justo naquela hora do dia. Um erro fatal.

Levantou num pulo do sofá e correu até a cozinha, acidentalmente levando ao chão o porta-retrato do criado mudo.

Ao encontrar Susie, seu coração apertou. Já havia visto aquela cena diversas vezes desde que a esposa fora diagnosticada, mas isso não tornava as coisas mais fáceis. Pelo contrário, doía cada vez mais.

Susie estava paralisada em frente ao fogão. Suas mãos ainda seguravam o fantasma da xícara que se encontrava espatifada no chão. Seu olhar distante era encoberto por pálpebras que tremiam descontroladamente, de um modo quase desumano. Aquele silêncio matava Rita aos poucos, e era cada vez mais frequente no lar das meninas.

Rita suspirou. Quis chorar. Quis ajoelhar-se nos cacos de vidro, esperando que a dor física lhe trouxesse algum alívio emocional. Quis desistir de tudo. Mas não podia. Não podia desistir de Susie.

Pegou a tablet em cima da bancada de mármore e deslizou os dedos sobre os aplicativos já conhecidos. Uma caixa prateada surgiu de uma das paredes, deslizando sobre rodinhas invisíveis, e começou a recolher magicamente os cacos de porcelana do chão.

Uma mágica chamada tecnologia” pensou Rita consigo mesma. Depois de se certificar que nenhum pedaço restara, a moça se preparou para o mais difícil. Susie continuava naquele estado de suspensão e para tirá-la daquilo era necessária uma anestesia pesada.

Apesar de não parecer, aquilo era uma de suas convulsões. Susie só não se debatia violentamente no chão graças ao chip implantado em seu cérebro, que ajudava a controlar suas terminações nervosas. Toda vez que ela tinha convulsões, o chip agia, desligando a parte do cérebro responsável pelo ataque. Isso, é claro, a salvou de muitos acidentes.

No entanto, a tecnologia ainda não era perfeita. Ainda não fora capaz de religar as terminações nervosas, sendo necessário a anestesia e um backup periódico das últimas memórias do portador do chip.

Rita acionou os comandos na tablet para que a cadeira se posicionasse atrás de Susie. Enquanto ouvia as velhas rodinhas vindo do escritório, retirou de uma das gavetas o anestésico que interromperia a convulsão e o funcionamento do chip.

Tentou escolher o braço com menos marcas, mas Susie tinha ambos os lados marcados pelos diversos ataques que tivera. Quando a cadeira chegou, tentou não pensar muito. Quanto mais pensasse, mais difícil seria todo o procedimento.

Envolveu um dos braços por trás do corpo estático da morena, e com a outra mão livre inseriu a agulha com o anestésico. Sentiu o corpo da mulher de sua vida ganhar peso em seus braços, caindo sobre a cadeira. Rita podia jurar que sempre enxergava os cabelos cacheados de sua amada caindo em câmera lenta, deixando tudo muito mais melancólico ainda.

A primeira parte estava feita. Rita passou as mãos pelos cabelos recém cortados e soltou um longo suspiro. No fogão, um bule piscava um LED indicando que o chá já estava pronto. O chá que Susie havia preparado com tanto esmero.

Rita abriu o armário em busca de uma xícara para se servir, mas não havia nenhuma restante. Apenas aqueles copos de vidro metalizado com tecnologia térmica. Eram úteis, mas Susie os odiava. Achava que eram sem vida, que faltava um toque de humanidade em todos aqueles produtos industrializados. Ela tinha uma alma poética em meio à uma selva de metal, e isso era o que Rita mais admirava nela.

Desistiu do chá. Abraçou suavemente o corpo adormecido de sua esposa, sentindo seu perfume suave. Suspendeu e carregou Susie até o sofá da sala, onde havia adormecido anteriormente. Podia ter feito isso através da cadeira, que tinha ferramentas suficientes para evitar o esforço, mas nada substituiria o toque e o carinho daquele gesto.

Pousou suavemente a morena no sofá, ajeitando seus cabelos do jeito que ela ficasse mais confortável. Jogou algumas almofadas no chão e sentou-se, admirando a beleza de Susie. Aquela com certeza era a mulher de sua vida. Deixou que os olhos percorressem as curvas da amada, enquanto lembrava de cada momento que tiveram juntas. Inclinou-se e a beijou suavemente, como num conto de fadas. Só que, diferente das histórias, Susie não acordaria com um simples beijo.

Rita virou a cabeça de Susie suavemente e afastou os cabelos da parte de trás da nuca, deixando visível a entrada do cabo de dados. Pegou seu notebook e conectou o fio entre máquina e corpo.

Acessou o programa de backup onde os dados da memória de Susie estavam armazenados. Uma janela com um alerta de compromisso atrasado piscou na tela, mostrando o último backup que deveria ter sido feito há cinco horas atrás.

Rita mordeu o lábio, irritada por ter dormido demais. Aquela era a hora do dia em que Susie mais costumava ter convulsões, e para ajudar, ela também perderia informações importantes sobre os últimos dias, já que o backup não havia sido feito. Tudo porque Rita havia caído no sono.

Digitou seu login e sua senha no programa. Ao invés da típica tela inicial, uma mensagem em vermelho apareceu, avisando que a conta do armazenamento em nuvem não havia sido paga. Pelo terceiro mês seguido. Rita sabia muito bem o que aquilo significava, mas a mensagem também continha a explicação.

Os backups realizados nos últimos meses com pagamento em atraso seriam suspensos até que a dívida fosse quitada. Rita socou a mesa com força, não se importando se aquele seria o décimo mouse que ela quebraria.

Estava cansada, frustrada. Trabalhava feito uma condenada nos últimos tempo, dormia mal para fazer horas extras, mas nada adiantava. Não importa o quanto trabalhasse, o quanto se esforçasse, ela não ganhava o suficiente para arcar com os custos do tratamento e manutenção da doença de Susie.

A doença de Susie… Era tudo sobre isso nos últimos anos. Ela tentava não pensar nisso, para não ser cruel, mas estava saturada daquela doença. Os momentos românticos foram substituídos por experiências traumáticas. Rita sentia que havia deixado de ser esposa para virar tecno-enfermeira. Sabia que não era culpa de Susie, e se odiava ao pensar isso, mas também não podia evitar a frustração.

O último backup disponível constava de três meses atrás. Susie perderia três meses inteiros de sua “vida”. Por um momento, a mente cruel de Rita ironizou, achando que ela mal sentiria falta de todo o sofrimento que passaram durante aquele tempo. Mas também, não se lembraria dos pequenos momentos felizes que obtiveram com muito esforço em conjunto. Será que aquilo já não significava que Susie estava morrendo aos poucos?

Ela clicou e arrastou os arquivos de backup, transferindo os dados para a memória de Susie. Externamente, nada parecia acontecer. Pela tela do notebook, uma barra verde de percentagem avançava demoradamente, indicando 20 minutos para o término da tarefa.

Rita abraçou as pernas e enterrou o rosto nos joelhos magros. Permitiu-se chorar um pouco, escondidinha, enquanto Susie ainda estava dormindo. Só um pouquinho.

O choro silencioso tornou-se desespero e soluços rapidamente. Em sua mente, ela pedia ajuda. Pedia socorro para um Deus que ela não sabia se acreditava, e se envergonhava disso. Pedia que aquele sofrimento acabasse, e ao mesmo tempo pedia desculpas por desejar coisas tão horríveis.

Aos poucos, o desabafo foi se acalmando e ela adormeceu novamente.

 

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Susie acordou com aquela sensação horrível. Aquela sensação de apagão, de que piscara os olhos e fora transportada para outro mundo. Levantou-se e sentiu a resistência de algo vindo de seu pescoço. O cabo de dados estava conectado entre seu pescoço e o notebook, ao lado do sofá.

Desconectou o cabo e viu Rita ali, sentada no chão, com almofadas ao seu redor. Ela dormia abraçada em seus joelhos, e seus olhos não disfarçavam as lágrimas que haviam acabado de sair. Ela parecia diferente. Estava bem mais magra, e com olheiras enormes. Parecia cansada.

Não apenas Rita. Sua sala também parecia diferente. Percebia que alguns móveis mudaram de posição. Havia algumas telas de pintura sua faltando, e outros apetrechos tecnológicos novos que ela não fazia ideia para que serviam. Ficou um pouco irritada.

Sua alma artística odiava toda aquela invasão tecnológica em sua casa, e ela gostava de colocar suas pinturas para dar um ar mais natural para o ambiente. No entanto, obras de arte feitas à mão eram muito valiosas nos dias atuais, e ela entendia que sua situação financeira não era das melhores. Presumiu que provavelmente vendera os quadros para pagar seus tratamentos.

Espero que tenha sido uma decisão minha”, pensou ela, buscando algum conforto em pensar que não fora Rita que vendera as obras.

Viu o porta-retratos caído no chão, com o vidro trincado. A foto das duas sorrido mostrava um semblante há muito desaparecido. O coração de Rita se apertou ao notar a diferença mais acentuada ainda do que Rita era antes e como estava agora.

Susie sentou-se ao lado da esposa no chão e pousou a mão suavemente sobre suas costas, para não assustá-la ao acordar. Rita abriu os olhos suavemente, sentindo os cílios grudarem com os resquícios das lágrimas. Sorriu melancolicamente ao ver que a esposa estava acordada e aparentemente bem.

– Nós brigamos? – Susie perguntou, mostrando o retrato quebrado.

Rita pegou a foto com a mão e acenou negativamente. Também não gostava de ver a diferença que existia entre o antes e o depois do casal. Mas gostava de ver aquela foto. Lhe trazia boas lembranças. Do começo. De quando Susie ainda era saudável.

– Você só apagou… – Rita sussurrou. – Acabei pegando no sono e acho que você quis preparar um chá pra gente enquanto isso… A xícara quebrou… E eu perdi o backup… De novo…

Os pensamentos vinham desordenados, assim como seus sentimentos. O cansaço também ajudava, e ela queria… Não, ela precisava de um ombro amigo para desabafar.

– Desculpa. Desculpa, eu perdi o backup. Era a última xícara. Desculpa. – ela falava enquanto tentava conter as lágrimas de voltar a cair.

Susie se entristeceu. Em sua concepção, ainda restavam um par ou dois de xícaras artesanais. Não eram bonitas (pelo contrário, pareciam bem desleixadas), mas eram um dos últimos objetos com toque humano naquela casa. Nem ela própria era totalmente humana, com aquele maldito chip implantado. Mas sabe-se lá quanto tempo haveria se passado desde a última memória registrada em seus dados.

Sentiu um vazio, uma solidão. Sentiu-se culpada. Não era justo fazer Rita passar por tudo aquilo sozinha. Estava tudo errado, não foi com aquilo com o que ela concordara ao aceitar o implante do chip.

– Rita… já chega. – Susie sussurrou, suavemente. Seus olhos marejados fitaram a esposa com amor. Aproximou-se, envolvendo-a num forte abraço.

– Isso tudo não é natural. Eu já devia ter partido. Já devia ter te esquecido. Já chega. Por favor, viva a sua vida. Não posso mais te ver desse jeito. Não posso mais viver desse jeito.

Rita mal conseguia respirar com o que Susie estava dizendo. Susie era uma cabeça dura, e Rita sabia que nada do que dissesse adiantaria. Ela sabia que ambas estavam no limite, e estavam adiando este limite ao máximo que podiam. Mais do que podiam. O fato de amarem uma à outra só fazia com que se machucassem mais ainda.

Susie odiava ser uma ciborgue da tecnologia. Odiava com todas as suas forças ter de se render àquilo para sobreviver. Sua alma artística e tradicional morria aos poucos ao se ver substituída por fios e dados. Já haviam discutido aquilo diversas vezes, e Rita entendia que aquele era o fim.

Beijaram-se apaixonadamente e se abraçaram apertado pelo que pareceu ser uma eternidade. Quando teve coragem, Susie reconectou o cabo em seu pescoço e o levou até o notebook. Lançou um último olhar para Rita, e pela primeira vez em muito tempo, sorriu de modo sincero e aliviado.

– Eu te amo.

Susie clicou no botão de deletar, e o processo se iniciou aos poucos. Conforme a barra de processamento ia se completando, o olhar de Susie ia se perdendo na eternidade até ficar totalmente estático.

E assim, num simples clique de botão, todas as memórias se Susie foram apagadas. Não havia mais nenhum backup capaz de trazê-la de volta. Rita retirou o cabo do pescoço de Susie pela última vez.

Eu também te amo”, pensou.

Aproximou-se do ouvido de sua amada esposa, e acariciou seus cabelos cacheados.

Desculpe por não ter aguentado mais”.

Era sua voz que estava programada para dar um fim em tudo aquilo.

– Desligar.

Os olhos de Susie se fecharam suavemente e seu corpo falecido adormeceu sem respiração no colo de Rita.

  4 comments for “Backup

  1. 22 de julho de 2017 at 16:28

    Texto envolvente e comovedor. Uma circunstância dramática que acontece na vida de muitas pessoas:
    a contradição entre o desejo da presença do ser amado, e a dor de vê-lo sofrer sem esperanças de recuperação. Os recursos tecnológicos que aparecem no texto são bastante criativos. Sugiro a substituição das palavras “sob” (debaixo de) por “sobre” (em cima de). Parabéns pela delicadeza ao retratar cenas tão impactantes.

    • 23 de julho de 2017 at 17:19

      Oi Zulmira! Muito obrigada pelo comentário! Vou editar e revisar a ortografia conforme voê sugeriu =) Que bom que gostou x3

  2. Will
    27 de julho de 2017 at 15:28

    Eu vou cortar os seus pulsos! Não pago internet pra me deprimir não. Caraca. Que decisão difícil. Eu não sei se seria capaz de fazer o que a personagem fez. E vc reclama do cachorro do meu conto que só ficou sozinho…. te falar viu…. mas muito bom. Como você percebeu, deixei o seu por último porque eu estava lendo no trem e ele pareceu maior mas quando li ele talvez tenha sido até mais rápido do que os outros. Ele flui bem. A medida entre descrição e ação ficou muito boa. Já te ouvi dizer que você vê os outros evoluindo e que você não sente tanto isso mas apesar de ser triste pra porra, esse foi o seu melhor texto até agora (na minha opinião) então, parabéns Li.

    • 27 de julho de 2017 at 15:33

      OWHNNN obrigada *o* que comentário lindo!
      Cadê seus contos novos pra eu poder comentar assim também, hein? E realmente, a galera aqui tá meio mórbida né.

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