Café Amargo

Reza a lenda que existem lugares aos quais não se pode simplesmente chegar. Lugares perdidos entre o tempo e o espaço, sem endereço ou formas certas. Lugares sem regras, construídos por forças antigas, onde apenas os sonhos, a necessidade ou a morte podem nos abrir a porta. Entre os poucos que os conhecem de verdade, esses lugares são chamados de Essenciais. Um deles é um parque, construído pelo amor. Outro é um esconderijo, feito pelo medo. E um desses lugares é conhecido apenas como “O Café”

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Os passos de Maria eram incertos. Ela avançava pela rua dividida entre a vontade de continuar e a de sair correndo. A chuva a apertava dentro do guarda chuva azul com bolinhas brancas da mãe e minusculas gotas de chuva atrapalhavam sua visão se apoiando nas lentes dos óculos toda vez que um vento mais forte soprava. Tudo parecia indicar que ela realmente devia voltar para casa e esquecer essa loucura toda. Afinal, ela tinha até uma justificativa pronta, uma mensagem de texto já escrita, apenas esperando para ser enviada: “Desculpe, eu estava bêbada, não deveria ter mandado aquelas mensagens, e muito menos marcado de te encontrar” mas, mesmo não sendo de todo mentira, agora que ela já tinha marcado e estava sóbria, teria coragem de sair correndo de novo? Será que devia fugir de novo?
Passo a passo ela respondia as perguntas que criara para si mesma. Passo a passo ela deixava uma esperança, que jamais assumiria ter, crescer. Passo a passo ela dizia a si mesma que tudo aquilo era besteira e que ele não estaria lá. E ainda assim ela continuava. Molhada e com frio, assustada demais com o que sabia que ia acontecer e, ao mesmo tempo, completamente incapaz de se convencer a parar.
Subitamente a vidraça externa do café entrara em seu campo de visão e não foi preciso muito esforço para descobrir que ele estava lá. Um calafrio percorreu todo o seu corpo e ela parou por alguns instantes para observa-lo. Sentado ao lado da vidraça, com um pequeno vaso de flores campestres separando-o do assento vazio do outro lado da mesa. O assento dela. Por apenas um instante ela observou o cachecol cinza que ele tinha à anos combinando com o casaco preto e com o cabelo bagunçado. Ele sorria para um livro aberto a sua frente, totalmente alheio a sua presença. Ela invejou a aparente calma que ele transmitia e pensou que ainda podia ir embora, “como sempre fizera”. Ainda assim, foi com um passo decidido, que ironicamente acertou uma poça de água, que ela continuou seu caminho.
Antonio levantou a cabeça quando o sino acima da porta ecoou pelo estabelecimento. O lugar era grande o suficiente para, mesmo lotado, dispersar o som das conversas e ainda assim destacar o som claro do sino. Seu olhar logo encontrou Maria. Ela tentava desastradamente fechar o guarda chuva afim de coloca-lo no guarda volumes ao lado da porta. Os mesmos cabelos negros, a mesma pele pálida, o mesmo jeito de se irritar quando tentava fazer algo que claramente não estava dando certo. Ele a olhou até o momento que ela olhou de volta. Ela sorriu meio sem jeito enquanto corava. Ele se esqueceu de respirar, mas não do quanto a achava linda.
Antonio se levantou enquanto Maria chegava mais perto e agora foi a vez dele de sentir o calafrio. Ela fez a melhor cara de pôquer que conseguiu mas o vermelho no rosto não se dissipou por completo.
– Oi.
– Oi. Você esta linda sabia?
Ela não respondeu o elogio.
– Demorei?
– Não muito. Para falar a verdade eu nem notei, eu estava…
– Lendo. Eu percebi. Algo interessante?
– Tem trechos interessantes. Você quer beber algo?
– Um café. Grande.
– Legal, vou pegar dois então. Já volto.
Maria se sentou e olhou em volta. O café estava relativamente cheio mas ainda assim era aconchegante, bem diferente da rua fria e vazia de onde saíra. Pensou em como isso também podia se aplicar a ela. Não que sua vida fosse necessariamente fria, nem tampouco solitária, mas sempre lhe faltara algo, que de vez em quando a fazia beber. Sempre faltara aquele algo a mais, ou aquele alguém a mais. Ele sempre faltara. Mas ali, naquele momento, ignorando tudo o que já sabia e tudo o que estava prevendo que iria acontecer, ela estava feliz. Não que ela fosse demonstrar isso, é claro. Olhou por cima da mesa em direção ao livro. Ele estava lendo poesias. Isso simplesmente não era justo.
– Pronto. Dois cafés grandes.
– Obrigada.
– Imagina, não foi nada. É bom te ver.
– É mesmo?
– É mesmo. É sempre bom te ver. Mesmo que demore tanto.
– Você que não vem atras.
– Maria… Você sabe que…
– Sim, eu sei. Desculpa. Mas você também não facilita.
– O que você queria? Que eu fingisse que eu não te conheço? Que desaparecesse da face da Terra?
– É, é isso que eu mesmo que eu queria. Queria nem ter te conhecido.
– Você tem certeza disso?
– As vezes sim.
Maria olhou para o café e decidiu tomar um gole sabendo que essa era a pior desculpa possível para evitar falar. O silencio pesava entre os dois. Ela queria falar tantas coisas, mas nada do que planejara em sua cabeça acontecera. As palavras iam e vinham em sua garganta. Palavras que rasgavam. Palavras que não saiam. Já ele, odiava aquilo tudo. Odiava como tudo tinha que ser sim ou não, junto ou separado. Odiava as regras que as pessoas inventaram para se amar.
– Era isso que você tanto queria me dizer?
– Sim… Não. Você sabe que não.
– Mas disse.
– Caralho Antonio, o que você queria? Que eu ficasse feliz com o fato de você ter casado? Ou que eu fosse na cerimonia para parar o padre?
– Eu queria que você tivesse sentido esse amor todo quando eu também te amava.
-Quer dizer então que você não me ama mais?
Outro silencio. Agora foi a vez dele de evitar falar. Bem no fundo ela sabia a resposta, e da mesma forma ele sabia que existiam certas coisas que não podiam mais serem ditas entre eles. Coisas que, embora claras, não podiam ser assumidas. Não mais.
– Você não devia me perguntar essas coisas.
– Eu sei.
Antonio riu para disfarçar o nervosismo. Um riso curto, seco, e completamente ineficaz. Não sabia como continuar a conversa, embora soubesse que queria. Tomou um gole de seu café e então continuou:
– Isso não devia ser tão difícil não é?
– Isso o que Antonio?
– Isso. A gente.
– É. Não devia. Não devia mesmo. Porque você não me ignora? Porque não foge de mim quando eu tento falar com você?
– Porque eu não consigo. Mais do que isso, porque eu não quero.
– Isso não é muito inteligente da sua parte.
– Então talvez eu não seja muito inteligente mesmo.
Risos. Sinceros dessa vez. Antonio esticou a mão por cima da mesa. Maria copiou o gesto e encontrou a mão dele ao lado do vaso de flores. Seus dedos se roçaram e se entrelaçaram em um toque suave. Um toque que transmitia muito mais do que realmente era. Nenhum dos dois levantou os olhos. As palavras saíram sussurradas, como um segredo só dos dois. Como uma oração.
– Eu te amo. – disse ela.
– Eu sei. Também te amo. Se eu pudesse…
– Eu sei…
Uma garçonete, com um bule de café na mão se aproximou e completou a xícara dos dois. Sem jeito por estar ali, no meio do que, até para quem estava de longe, era claramente um momento sentimental, perguntou:
– Como está o café?
E ambos responderam “Amargo”

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Dizem que em algum lugar entre o tempo e o espaço existe um Café construído pelo Arrependimento. Uns relatam ser um restaurante luxuoso e enorme, outros dizem que é mais como um pequeno casebre com cadeiras do lado de fora, mas todos que o conhecem sabem que lá encontramos aquilo que perdemos de mais valioso. Um lugar para se arrepender. Um lugar para se expiar os pecados. Um lugar para se esvaziar das culpas e só sair quando bebermos até a última gota.

  3 comments for “Café Amargo

  1. 20 de setembro de 2017 at 08:22

    Hum, não sei se gostei. O ritmo da escrita está ótimo, mas acho que não criei empatia com o enredo haha. Não com a idéia do café em si, mas com a do casal. btw, sua escrita também está evoluindo!

  2. 25 de setembro de 2017 at 20:51

    Eu amei, simplesmente amei o primeiro parágrafo. <3 Dá pra imaginar dezenas de histórias a partir desse primeiro parágrafo. No entanto não entendi muito bem o último. Achei o diálogo um tanto banal, dada a importância da ocasião. Tenho a mesma opinião da Lídia quanto ao ritmo da escrita: muito bom. E as descrições são envolventes. Garçonete completando as xícaras de café? Esse lugar deve ficar nos Estados Unidos. 😉

  3. Fabio Baptista
    17 de novembro de 2017 at 18:32

    Will <3 Eu amei a sua descrição e o seu ritmo de escrito. Por um segundo me senti como um dos dois, sentado lá e passando por tudo isso, mexeu com minhas experiências kkk Fiquei com vontade de ler mais. Bom trabalho <3

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