Carta de demissão

São Paulo, 4 de março de 1971

Ao
Chefe do Departamento Pessoal
do
Banco Comercial Bandeirantes
São Paulo – SP

Prezado Senhor:

Escrevo esta carta a fim de comunicar que não aceito a vaga de auxiliar de escritório na seção de contabilidade desse banco. O motivo é que tenho certeza de que não conseguirei me adaptar àquele ambiente de trabalho e muito menos ao chefe da seção acima mencionada.

Depois de passar por todos os testes que me mandaram fazer, que aliás não foram poucos, me levaram para ser entrevistada lá na contabilidade. Já de início não gostei da maneira com que o chefe tratou a menina que foi junto comigo. Ele ficou um tempo examinando, com cara de poucos amigos, a papelada que ela entregou. Nessa hora já deu pra perceber a má vontade. Depois virou para ela e perguntou, de um jeito bem mal educado, por que não tinham aplicado teste de matemática. Ela respondeu com educação, coisa que eu não teria feito porque não admito ser tratada com grosseria.

Não sei exatamente o que ela falou porque naquele momento eu estava pensando em sugerir que me dessem, pra fazer lá mesmo, qualquer teste de matemática, pois desse assunto entendo mais do que ele, tenho certeza. Estudei numa escola muito boa e fui ótima aluna. Só não me dei ao trabalho de dizer nada porque já tinha resolvido que não ia trabalhar com uma pessoa tão antipática e arrogante. Por sinal achei esquisito ele não ter conversado nada comigo. Só fazia perguntas para a funcionária, como se eu nem estivesse presente.

Dito isso, esclareço que não quero nem saber que salário vocês pretendiam me pagar. Sou capaz de arranjar quantos empregos quiser porque esses testes eu tiro de letra. Prefiro escolher uma colocação que me dê o prazer de trabalhar com gente civilizada, mesmo que pague menos. Acredito sinceramente que não existe dinheiro o bastante para compensar o incômodo de conviver todos os dias com a supra citada pessoa.

Solicito encarecidamente a V. Sa. que mostre esta carta a ele.  Quem sabe ele aprenda a tratar melhor os outros vendo que perdeu uma funcionária exemplar, tudo por causa da sua falta de educação.

Tenho pena da menina que foi humilhada. Aposto que ela precisa demais desse emprego pra ter agüentado aquilo sem reagir. Desejo muito boa sorte para ela.

Sem mais, subscrevo-me

Atenciosamente,

Zulmira Carvalheiro

 

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *