O Conto Depois do Ponto

A mãe já fechava o livro da Branca de Neve, contado pela quarta vez só aquela semana, enquanto dizia a frase final: “E Foram Felizes para Sempre…”. Deu um beijo na testa da filha. “Boa noite, Luluca”.

Mas Luiza estava com os olhos quase arregalados, de tão acordada. E franzia a testa, o que Cátia já sabia muito bem o que significava. Até sentou-se de volta. “Que foi, filhota?”.

“O que é ser feliz pra sempre?”

Por essa ela não esperava. Já lera tantas vezes essa história pra ela! Fora as fases da Cinderela e a da Bela Adormecida… Uma frase tão repetida, que Luiza já narrava em uníssono com a mãe. E agora, sem nenhuma explicação, resolvia contestar. Estaria voltando à idade dos porquês?

“Acabaram as confusões para a princesa e o príncipe… sem mais problemas com bruxa malvada! Agora eles casaram e vão podem viver tranquilos e felizes…”

“Para sempre.”. Completa a filha.

Isso, “Felizes pra sempre”.

Deu um outro beijo na filha e foi em direção ao interruptor.

“Mas o que você faz quando é feliz pra sempre?”.

“Só coisas felizes. Sem mais bruxa, dragão, lobo mau, maçã envenenada.”.

“Mas mãe… o que são essas coisas felizes?”.  

Luiza parecia mesmo intrigada. Mas Cátia estava exausta e sabia que se desse corda a conversa podia render. Apagou a luz.

“Filha, amanhã a gente lê outra história e conversa mais. Já passou da sua hora de dormir. E da minha…”.

 

Saiu do quarto se divertindo com a pergunta da filha. Taí uma coisa que não era comum questionar! O que pombas faziam a princesa e o príncipe encantado nessa felicidade eterna? Lembrou-se de “O Fantástico Mistério de Feiurinha”, de Pedro Bandeira. Vinte e cinco anos depois do “felizes pra sempre” estavam lá, todas fazendo bodas de prata – menos a Chapeuzinho Vermelho que ficou sem príncipe encantado – grávidas de sei lá qual filho. Seria isso o misterioso futuro feliz dos contos de fada? Seria mesmo difícil explicar pra filha algo que nem pra ela fazia sentido. Por sorte, dificilmente a filha voltaria àquele assunto. Por via das dúvidas, o livro da noite seguinte não seria um conto de fadas.

 

Cátia entrou no quarto tão logo Douglas terminou de secar o cabelo da filha, já com “Marcelo, Marmelo, Martelo” de Ruth Rocha, em punho. Sentou-se ao lado de Luiza, fez um cafuné e abriu o livro. Mas não conseguiu ler nem a primeira palavra.

“Mãe, eu não vou querer casar.”.

E essa agora? Cátia riu.

“Filhota, é meio cedo pra você se preocupar com isso, não? Falta tempo pra crescer, namorar e aí decidir se quer casar ou não.”.

“Mas eu já decidi. Não quero ser feliz pra sempre. Então, quando o príncipe encantado aparecer, não vou casar com ele!”.

A mãe segurou o riso. Era isso então? Ao mesmo tempo que se divertiu, se arrependeu de não ter insistido com o marido pra torcar as funções aquele dia: se ela tivesse ficado com o banho, queria só assistir ele resolvendo essa pendenga. Pediu que a filha explicasse.

“É que as histórias das princesas são muito legais. Tem um monte de aventuras. E aí depois do fim do conto de fadas não acontece mais nada? Num sei, elas devem ficar bem entediadas.”.

Cátia também nunca tinha pensado nisso.

“Mas filha, elas correm muitos riscos. Lembra? Tem bruxa, lobo…”.

“Ah mãe, mas elas são as principais da história. Sempre se salvam! Eu também sou princesa, que papai me disse. Então prefiro fugir de dragão, de lobo mau e do caçador… aposto que ela preferem também!”.

E a conversa rendeu… tanto que o livro – o preferido de Cátia – nem lido foi. E ela prometeu pra filha que no dia seguinte levaria o da Feiurinha pra começar a ler. Teve certeza que a filha gostaria, mas também que não ficaria mais aliviada com o feliz pra sempre.

Luiza achou que a mãe tinha sorte de não ter casado com um príncipe encantado, mas com seu pai, analista de sistemas. E decretou: vocês nunca vão ser felizes pra sempre! E isso era tão bom!

 

Foi numa sexta à noite que Cátia terminou de contar a história da aventura das princesas para evitar que a princesa Feurinha deixasse de existir. Estava pronta pra conversar com a filha o tempo que fosse, embarcar nas suas fantasias. Mas, para sua surpresa, Luiza deu o beijo de boa noite na mãe imediatamente. Disse que estava com muito, muito sono.

Cátia saiu do quarto um pouco decepcionada. A filha não teria gostado?

Mas não era nada disso. Luiza tinha gostado. Bastante até. Ficou feliz da vida que tinham conseguido salvar a Feiurinha e também que as princesas tinham vivido aquela aventura depois do fim de seus contos. Ficava aliviada… talvez pudesse então ser feliz para sempre. Ainda achava que não ia querer casar – meninos eram um saco! -, “mas nunca se sabe o dia de amanhã”, sempre dizia sua vó. Precisava então conhecer as princesas, para ter certeza.

Então, assim que a mãe saiu, sentou-se e acendeu o abajur. Pediu um caderninho e escreveu uma carta endereçada ao lacaio das princesas. Ficou envergonhada de não lembrar o nome, mas a mãe havia levado o livro. Tudo bem. Sr. Lacaio teria que funcionar.

 

Sr. Lacaio,

Meu nome é Luiza Figueiroa Rocha e sou uma princesa.

Eu não moro ainda num castelo. Moro na Rua dos Quatis número 10.

É uma casa lilás, que é minha cor preferida.

Vossê pode vim me buscar?

É muito importante: preciso falar com as outras princesas.

Bejo.

Ps: não conta pros pais, tá?

Só tinha um probleminha: não sabia como mandar a carta. Não sabia o endereço, então o ideal mesmo era se tivesse uma pomba pra levar. Ou uma coruja, tipo do Harry Potter. Foi até a janela e ficou esperando qualquer ave que pudesse levar seu recado. Pensou com toda a força na pomba, pra que ela viesse rápido. Até chamou, mas baixinho pra mãe não ir ver o que acontecia… Mas que demorado! Resolveu sentar na cama: ela veria a ave e levantaria na hora. Mas o tempo passou, passou e nada. Foi se encostando, se aconchegando, até que, sem perceber, caiu no sono com a carta nas mãos.

 

Acordou de susto, no meio da madrugada. E se a pomba já tivesse passado por lá? E a carta que agora ela não achava? Procurou entre os lençóis, debaixo da cama e até dentro do travesseiro. Nada. Pôs as mãos na cabeça. E foi então que achou a pena da pomba! Sorriu de orelha a orelha: tinha dado certo. Agora era questão de tempo até o lacaio vir lhe buscar. Sentou-se na cama e pôs-se a sacudir as pernas ritmadamente, como fazia sempre que estava ansiosa.

Por sorte, não levou nem um minuto até que duas mãos aparecessem no parapeito de sua janela. Normalmente se assustaria, mas tava justo esperando visita! Mas quase perdeu o ar quando surgiram em seguida um cabelo preto como ébano e uma pele branca como a neve. Não conseguiu falar nada. Mais dois pares de mãos e surgem inconfundíveis Cinderela e Aurora, vulgo Bela Adormecida.

“Você deve ser a princesa Luiza Figueiroa Rocha, do reino dos Quatis”. Luiza só conseguiu balançar a cabeça afirmativamente. “Muito prazer! Eu sou a Branca de Neve encantado e elas são as senhoras..”

“… Cinderela e Bela Adormecida! Eu sei! Sei tudinho de vocês, escuto sempre as histórias!”.

“Desculpa que não viemos todas. Mas sua carta parecia bem urgente e só deu tempo mesmo foi de acordar a Bela”, explicou-se Cinderela.

Bela ainda bocejava. “Mas nos conte, princesa, o que precisava tanto falar com a gente?”

Luiza assumiu um tom grave. “É sobre o fim.”

“O fim?!” Perguntaram em uníssono. Afinal estavam vivendo felizes para sempre. Não tinham que se preocupar com o fim.

“É. O fim dos contos de fada.”

“O que tem de errado? A gente casa com o príncipe e é feliz pra sempre!”.

“Depois nada de bruxa, de maçã envenenada, de perder sapatinho, de espetar o dedo, de dragão? Nada de nada?”

“Naaaada! Depois é só tranquilidade! Não precisa se preocupar.”

“Mas é justamente isso que me preocupa”, disse Luluca.

Diante da cara de interrogação das três, ela continuou: “é que a vida de vocês era tão agitada, tão cheia de aventura! Adoro as histórias! Às vezes dá um pouco de medo, mas até um medinho bom! E quero muito que chegue a hora das minhas aventuras também. Mas o que não quero é casar pra ser feliz pra sempre, pra não acontecer mais nada!” e mais baixo “e porque meninos são bobocas!”.

As três riem. “Depois os meninos ficam menos bobocas. Prometemos. As meninas também. Todos somos bobocas às vezes…”, disse Bela.

“Sobre as aventuras, ainda temos aventuras depois do felizes pra sempre! São outras, diferentes, dão menos medo. Mas são aventuras também!”, explicou Branca.

Cinderela ficou um tempo pensativa… sentiu saudades dos seus tempos de carruagem de abóbora. Mas achou melhor corroborar as amigas e tranquilizar a princesinha, que ainda tinha tanto o que passar antes do felizes para sempre.

Luiza ficou um pouco mais tranquila. Ainda que não totalmente convencida. Mas o sono, aquele que perdera com a ansiedade, voltava com toda força. As princesas, que já tinham experiências com seus próprios filhos, entenderam do que ela precisava. “Quer ouvir uma história?”. Ela logo se aconchegou na cama e, no que parecia um sonho, ouviu as princesas cada uma contando seu próprio conto de fadas. Em algumas partes quis corrigir – sua mãe contava tão melhor! -, mas só escutou. E não sabe bem quando dormiu.

Acordou bem mais leve e, apesar da expectativa da mãe, nunca retomou o assunto. Mas pensou muitas vezes no fim do seu conto de fada.

Não foi muito depois de deixar de achar os meninos um  saco que entendeu que não existia príncipe encantado. E sabe que achou até bom isso? Ela mesma, não era afinal uma princesa, descobriu. Tornou-se bióloga marinha e casou-se com um mergulhador. Quantas aventuras juntos! E viveram às vezes felizes, às vezes tristes, até os 84 anos dele.

  

  4 comments for “O Conto Depois do Ponto

  1. Will
    6 de outubro de 2017 at 01:39

    “até os 84 anos dele” foi quase uma ameaça… kkkk… brincadeiras a parte, as princesas virem foi muito legal. A forma como a criança entendeu a coisa, e como vc bolou a ideia em si foram ótimas. Adorei.

    • Raquel Stern
      7 de outubro de 2017 at 00:04

      hahahaha a inveja da longevidade! rs
      Que bom que gostou! Nesse pus mais diálogo que normalmente, foi um desafio.

      Agora, taí um exemplo de conto que não me veio ideia bacana pro título!

  2. 6 de outubro de 2017 at 22:17

    Que interessante, Raquel! A sua Maria Luíza é ao mesmo tempo madura e infantil. É capaz de um questionamento tão complexo como “o que é ser feliz para sempre?”, é capaz de decidir que não quer isso para ela, mas também consegue elaborar um sonho tão lindo, típico de uma criança que está aproveitando plenamente a sua infância. Porque foi um sonho, não foi?! (Ou não?!) 😮

    • Raquel Stern
      7 de outubro de 2017 at 00:06

      Obrigada Zulmira!
      Amei o comentário =)

      Será que foi um sonho? Deixo pra cada um… (mas acho que foi =P)

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