Escolhas

 

Os dedos de Liana estavam congelando. Ficar sozinha em uma rua deserta, a esta hora da noite, com certeza não era muito esperto de sua parte. Olhava fixamente o chão, pensando em desistir a qualquer momento. Queria virar as costas e ir embora, mas sabia que não podia. E lá estava ela, novamente. Na frente daquele maldito bar. Até quando isso ia durar?

Seus pensamentos foram interrompidos pelo som de seu celular. O número não constava um nome gravado, mas ela sabia quem era. Suspirou, observando melancolicamente o ar evaporar de sua boca. Girou a maçaneta devagar e entrou no bar, com o coração pesando.

O bar à meia-luz encontrava-se tão silencioso quanto a noite. As cadeiras estavam bagunçadas e o cheiro de cerveja no chão invadiu suas narinas. Liana prontamente viu o barman solitário, Gaspar, com o telefone na mão. Ele fitou a menina com aquele olhar de piedade. Aquele olhar que ela sempre odiava.

Gaspar desligou o telefone e no instante seguinte o celular de Liana parou de tocar. O olhar da menina percorreu lentamente pelo bar. Encontrou Saul debruçado sobre uma mesa no fundo do salão, e seus olhos marejaram. A menina mordeu os lábios, numa vã esperança de que a dor da mordida fizesse a dor de seu coração desaparecer.

Com passadas furiosas, Liana caminhou até o homem e uma lágrima teimosa escapou de seus olhos. Pegou um copo de uma mesa qualquer, onde ainda havia algum tipo de bebida restante. Seu coração bateu acelerado, com medo da reação do homem, mas já estava farta daquilo. Jogou o líquido num impulso em cima de Saul, e rapidamente se afastou quando viu que a fera acordava.

– Caralho! Vai se foder, sua filha da puta! – ele gritou, avançando em direção à menina.

Liana encolheu os ombros, segurando a respiração. Viu Gaspar se adiantando para ajudá-la, mas não houve necessidade: o homem cedeu, perdendo o equilíbrio e caindo de volta na cadeira. Cansado, ele voltou a fechar os olhos como se nada tivesse acontecido.

Vê-lo naquela situação miserável fez seu coração arder em chamas. Liana pegou a garrafa de cerveja que Saul estava bebendo e a lançou com fúria no chão. O estilhaçar do vidro fez o homem acordar num pulo e se encolher.

– Não! Você vá se foder! Não acredito que está fazendo isso de novo, pai! – Liana desistiu de conter as lágrimas e fitava intensamente o homem. Que ele visse toda a tristeza que havia na menina. Esperava que em algum lugar, ele sentisse vergonha do que fazia.

– Menina atrevida, cale a boca. – Saul disse, com a voz visivelmente tremida. – Você não sabe pelo que passei.

– Não, você que não sabe pelo que eu estou passando.

Seu pai riu com desdém. A risada perfurou o coração de Liana como mil facadas. Respirou profundamente e limpou o rosto. Não derramaria nenhuma lágrima a mais por aquele homem.

– Pois bem. Enquanto o senhor não se internar em uma clínica de reabilitação, eu não permitirei sua entrada em meu casamento.

Saul arregalou os olhos e sentiu a cabeça doer com a confusão que se estabeleceu em seus pensamentos.

– Enviei o convite pelo correio. Você não abriu suas correspondências, não é? – ela disse, olhando o pai com nojo. – Ridículo…

Saul olhou para os cacos de vidro no chão, evitando contato com a filha. Ficaram em silêncio pelo que pareceu ser uma eternidade. Foi a vez de Liana rir com desdém.

A garota se virou em direção ao balcão do barman. A passarela de cacos de vidro era a sinfonia de sua decepção. Deixou uma nota de cinquenta reais e anotou o endereço do pai em um guardanapo para que o barman pudesse chamar um táxi.

Abriu a porta do bar e, sem se virar, deu o último aviso antes de sair.

– Você tem até o fim do ano.

Liana fechou a porta, deixando o pai e o barman sozinhos naquela fria noite.

 

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Ainda era cedo. Gaspar estava organizando o estoque quando a porta do bar se abriu, revelando os primeiros clientes da noite.

Liana acenou para o barman, com um sorriso de ponta a ponta. Saul entrou em seguida, fechando a porta atrás de si. Sua postura estava ereta e mais confiante, apesar do olhar duvidoso sobre o local.

– Dois shots de tequila, por favor! – Liana disse.

– Um shot e uma água. – seu pai respondeu.

Ainda havia vergonha no olhar de Saul, mas o coração de Liana se encheu de orgulho ao ouvir o pedido do pai. Ambos sentaram na bancada enquanto aguardavam Gaspar separar as bebidas. Liana balançando os pés que não alcançavam o chão e Saul batucando na bancada.

– Ainda é cedo para bebidas, não acha, mocinha? – Gaspar disse. Mal havia dado o horário das pessoas saírem de seus trabalhos. Não havia uma alma no bar, fazendo de Gaspar o barman particular dos dois.

– Hoje é minha despedida de solteiro, Gaspar. – Liana sorria com o semblante mais brilhante do que nunca. Era estranho ver a moça feliz desse jeito, e isso aquecia o peito do barman como se fosse contagioso. – Podemos nos dar ao luxo, pelo menos hoje. Está tudo muito lindo, e o vestido custou meus rins mas eu não tinha como escolher outro. Ah, e a banda! Nossa, que som sensacional, você tem que ver…

Liana começava a tagarelar, enquanto o barman colocava as bebidas no balcão. A garota virou seu shot de uma vez, fechando os olhos enquanto sentia o líquido descer queimando pela garganta.

– Mais um! – ela disse, e voltou a tagarelar animadamente. – A lua de mel, então, vai ser o máximo! Ofereceram umas ilhas do Caribe, mas ele sabe que eu odeio o calor. Então decidimos visitar uns castelos magníficos na Europa! Vou te enviar um monte de presentes!

Saul mal tocara sua água. Seu olhar admirado pertencia a sua filha. Com o cotovelo encostado no balcão e a mão no queixo, ele sorria de um jeito bobo que só um pai poderia fazer. Gaspar não pode deixar de sorrir também, vendo aquela cena atípica. Parecia que o espírito de natal já havia chegado ali.

Aos poucos os clientes do bar iam chegando. Olhares confusos eram lançados em direção a Saul. Alguns poucos chegavam a lhe cumprimentar e parabeniza-lo por sua sobriedade. Outros raros insensatos lhe ofereciam um drink para comemorar, mas ele logo recusava. Suas respostas eram sempre breves. Tudo o que ele queria era passar um tempo com a filha.

O bar ficava cada vez mais agitado e barulhento. Garrafas vazias de cerveja se acumulavam nas mesas. Liana já estava em seu quarto shot e seu rosto estava extremamente corado. Saul levantou-se e pagou a conta para Gaspar, que não conteve o sorriso de satisfação ao ver a postura do homem.

Saul passou o braço da filha em seu pescoço para ajudá-la a se equilibrar, e ambos saíram do bar, aguardando o táxi para ir embora.

– Desculpa, né… hoje sou eu que estou caída… Aff, olha meu estado. – ela disse, meio sonolenta.

– Não. Sou eu que te devo desculpas. –  Saul abaixou o olhar. Tinha medo de perder sua criança, e ao mesmo tempo, estava orgulhoso de ver o quanto ela tinha crescido.

– Eu espero que ele te traga felicidade, de modo que eu nunca fiz por você. – ele disse. A menina sorriu para o pai e o abraçou apertado.

O táxi encostou na calçada e ambos entraram. Liana encostou a cabeça no ombro do pai. Não era muito diferente de como fazia quando ela era uma pequena criança.

– Mamãe estaria orgulhosa de você… – ela sussurrou antes de adormecer.

 

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Gaspar já havia recolhido e lavado todos os copos de bebida. Revirou a última cadeira em cima da mesa e estralou as costas. Fitou o chão, fazendo uma careta. Queria voltar logo para casa, mas ainda faltava passar um pano limpo no salão.

Ouviu a maçaneta girar. A porta trancada impediu o visitante de entrar. Ele tocou a campainha. Gaspar soltou um longo suspiro e percorreu o olhar pelo bar, buscando qualquer objeto que alguém pudesse ter esquecido. Por fim, se dirigiu a porta.

Destrancou-a e ficou surpreso ao ver Saul. Não o via há meses e estava com uma expressão horrível. Os olhos estavam avermelhados e cabisbaixos, e o cabelo despenteado. Trazia consigo um jornal em suas mãos.

– Saul… nós já fechamos por hoje. – Gaspar disse.

– Por favor… – a voz de Saul mal saia de sua garganta, e seus olhos logo começaram a brilhar com as lágrimas que se acumulavam.

Saul sentia o coração apertado. Um desespero gigante lhe apertava a garganta, como alguém querendo lhe enforcar. Aquela agonia torturava seu ser. Não conseguia falar. Entregou o jornal nas mãos de Gaspar e entrou no bar mesmo assim. Sentou-se na bancada e colocou as mãos sob os olhos, tentando esconder as lágrimas que deslizavam por suas bochechas.

Gaspar estava sem palavras, sem entender o que estava acontecendo. Trancou a porta atrás de si e dirigiu-se ao balcão, enquanto lia o jornal que Saul lhe entregara. A manchete sobre os escândalos na política não lhe dava pista alguma sobre o que acontecera. Continuou a ler as matérias secundárias e reconheceu a foto de Liana em uma delas.

“Casal sofre acidente de carro a caminho da lua-de-mel”. O jornal fora publicado a duas semanas atrás. O barman suspirou, deixando o jornal na bancada. Sentou-se ao lado de Saul, sem encontrar as palavras que lhe dessem conforto suficiente.

“Merda”, era tudo o que Gaspar conseguia pensar. Aquele homem já havia passado por maus bocados. Havia lutado tanto… Ele não merecia. Gaspar queria gritar contra o mundo e esbofetear a cara de quem era responsável por escrever essas tais “linhas do destino”. Era tudo muito injusto.

Saul ergueu o braço e pegou dois copos de shot e a primeira bebida que encontrou do outro lado do balcão. Serviu as duas. Sua mão tremia e ele tentava conter os soluços. Gaspar abaixou o olhar.

Ficaram fitando os copos por um longo período, em silêncio. Gaspar colocou a mão sob o ombro de Saul, dando um forte aperto.

– Cara… estou aqui para o que você precisar. – Gaspar disse. Olhou para sua bebida. – Não acho que ela se orgulharia disto, mas… A decisão é sua.

O barman jogou sua bebida na pia e virou seu copo de ponta cabeça em cima do balcão. Levantou-se e caminhou para os fundos do salão. Começou a passar o rodo com pano lentamente, sentindo a melancolia invadir seu peito. Esperando que a meia-luz do bar disfarçasse as lágrimas que eventualmente também lhe escapavam.

Saul segurou o copo em suas mãos trêmulas.

  2 comments for “Escolhas

  1. Fabio Baptista
    21 de junho de 2017 at 10:36

    Confesso que quando li que ele tinha parado de beber, pensei “não é possível que vai acabar aí” kkkk
    Me surpreendi, muito legal 🙂

  2. Willian Fernandes
    23 de junho de 2017 at 15:26

    achei muito curto. Claro, é um conto e talz, e ficou muito bom, mas eu gostaria se tivesse mais corpo. O “parou de beber” foi muito mágico sabe? Mas gostei do final aberto. Agora quero beber… valeu…. kkkkk

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