Fobia

Era um dia normal, Vera acabava de fechar o sistema e arrumava sua bolsa para sair do trabalho. Ao colocar todos os itens dentro ela se despediu das poucas pessoas que ainda ficariam por lá, saiu pela recepção e apertou o botão do elevador para descer até o térreo.

O escritório ficava em um prédio luxuoso em Alphaville, com 32 andares e diversas empresas e escritórios o elevador trabalhava loucamente nos horários de entrada, almoço e saída, assim Vera esperou.

Eram 6 elevadores ao todo, ela aguardava no meio do corredor pois nunca se sabe qual chegará primeiro, mesmo tendo painéis que indicam em que andares estão. Na hora da saída nada é previsível, e assim ela aguardou. O primeiro da esquerda chegou, mas lotado demais ela nem se animou a entrar. Em seguida o do meio chegou mais vazio, ela então encarou entrar.

Apesar de super tecnológico levava um certo tempo descer do trigésimo andar para o térreo, ainda mais com as paradas constantes quase de andar em andar. Vera aguardava a chegada ao térreo para poder ganhar a rua e tomar seu transporte e finalmente chegar em casa e descansar depois de um dia cheio, e o elevador mantinha a descida constante, foi quando tudo escureceu e os cabos travaram com um estrondo.

Todos arregalaram os olhos preocupados, todos miravam o teto em busca de uma resposta que obviamente não viria dali. Apesar de ser uma situação apavorante, todos mantiveram a calma pois sabiam, ou ao menos imaginavam, que em breve o elevador voltaria a se mover, e assim aguardaram.

Após meio minuto de espera alguns começaram a se preocupar, e os comentários começaram:

– Nossa que demora né?

– Complicado!

– Jajá liberam!

Vera nada disse. Todos aguardavam, já se passava um minuto desde a parada, aqui de fora 60 segundos passa como um piscar de olhos, agora preso lá dentro, a história era outra. O ar já começava a ficar mais carregado já que a troca de respirações o fazia mais quente e não confortável. Alguém então apertou o botão de emergência e entrou em contato com o operador.

– Porra meu, já estamos a mais de minuto aqui, cadê alguém para nos ajudar?

Nenhuma resposta.

– E ai? O que eles disseram?

Perguntou um dos passageiros

– Nada ainda…

Aguardaram mais alguns segundos sem resposta, as pessoas do fundo começavam a arregalar os olhos em sinal de desespero. Alguém então se pronunciou.

– Desliga e liga novamente, deve ter dado algum erro.

E o procedimento foi adotado, sem nenhum resultado novamente. Os celulares não funcionavam dentro da caixa de aço. Vera ainda se mantinha quase calma, até o momento que as luzes se apagaram de vez, não apenas ela mas todos os passageiros gritaram de desespero.

– Caralho e agora?

Gritou um homem

– Calma porra, jajá alguém libera…

– Calma o cacete, essa merda não funciona, estamos fodidos!

– Gritar não vai resolver nada

– Cala sua boca

Por estar razoavelmente cheio, escuro e sem espaço não era possível saber quem dizia as frases, apenas escuta-las e a direção de onde vinham. Apesar de trabalharem no mesmo prédio todas aquelas 12, 14 pessoas eram perfeitos estranhos. Alguém então se exaltou.

– Vamos abrir essa porta, que se dane.

Alguém empurrou todos e passou para a frente, as mulheres começaram a gritar

– Para! Você é louco? Vamos todos morrer.

– Cala a boca, se for pra morrer eu que não vou morrer aqui!

Ele começou a tentar abrir a porta, mas o aço maciço era quase impossível de ser movimentado. Um novo empurrão e mais alguém passou para a frente e começou a lutar com o homem que tentava abrir as portas.

– Sai dai seu filho da puta, larga essa porta.

– Me larga seu infeliz, me deixa nos salvar

– Salvar? Você vai nos levar a morte certa.

– Se você não parar de me empurrar com certeza irá ter uma morte certa

– O que? Está me ameaçando?

– Isso mesmo porra, me solta!

A luta então começou, os dois trocavam socos curtos e todos apenas ouviam os sons pois não era possível enxergar nada no escuro. Depois de alguns estalos de pele com pele e respirações ofegantes ouviu-se um click, e em seguida um tiro.

Os ouvidos de Vera zuniam, ela estava assustada, mas após o tiro achou que estava morta pois todos os sons eram abafados, seus tímpanos assoviavam. Ela chorava e as lagrimas escorriam por seu rosto.

– Parem por favor!

Gritou ela.

– O que aconteceu?

Perguntou um outro homem.

– Quem atirou?

– Fui eu.

– Eu quem?

– Não interessa, sou policial, se continuarem a brigar atiro para valer, esse foi no teto mas o próximo não será.

Um silêncio tomou conta do elevador, todos assustados. Alguém ainda tentou ligar novamente, mas sem resposta desistiu. Esperaram mais alguns minutos e nem sinal da manutenção. Mais alguns segundos de inquietação e as brigas continuaram novamente.

Vera sentia seu coração palpitando desde a briga, com o tiro entrou em pânico, já não sentia as mãos, estavam geladas como um defunto. Em seguida foi sentido tudo se esvaindo, e o medo tomando conta de si. Após a briga se reiniciar ela se agachou e chorava. Nessa hora veio o click novamente e com ele diversos tiros, ela só conseguiu berrar.

– NÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃOOOOOOOOOO.

 

– Pulso estável, ela está abrindo os olhos….

Ao redor de Vera uma equipe de paramédicos do SAMU a seguravam, ela ainda não entendia o que acontecia, só se lembra de ouvir tiros. Ao lado um homem dava detalhes do que havia ocorrido.

– Sim, o elevador parou no vigésimo quarto andar e ela entrou em pânico, passou a gritar até desmaiar, alguns minutos depois as portas foram liberadas e ela foi trazida aqui para baixo pelos enfermeiros do prédio, eles ligaram para a família, eles informaram que ela é claustrofóbica.

No dia seguinte ela fez questão de pegar o mesmo elevador que usara no episódio do dia anterior, e incrivelmente não havia nenhuma marca de tiro ou mancha de sangue ao redor, teria tudo sido fruto de sua mente?

  2 comments for “Fobia

  1. Will
    9 de agosto de 2017 at 19:45

    Olá!
    Achei a idéia bem interessante e até surpreendente (por algum motivo fiquei esperando o elevador cair). A sacada do policial foi muito boa. Fique em duvida se realmente pessoas com esse tipo de fobia conseguem experienciar esse tipo de “ilusão”, você fez alguma pesquisa? Só uma dica, tome cuidado com as repetições, principalmente dos elementos de ligação das frases ok?

  2. 10 de agosto de 2017 at 09:14

    Gostei muito da ideia do policial também! Achei uma sacada diferente, e toda a questão de ser coisa da cabeça dela foi bem legal. Também fiquei na dúvida do Willian, de saber se as pessoas sofrem alucinações quando tem problemas de fobia. Talvez sofram, mas acho que não seria dese jeito. De qualquer forma, isso não me incomodou na leitura de forma alguma.
    O que me incomodou um pouco foram os últimos dois parágrafos, que foram um tanto sucintos demais. Você poderia ter explorado melhor, descrito melhor a claustrofobia dela, sem precisar dizer com todas as palavras que a família esclareceu o que ela tinha via telefone.
    A exploração do lugar no dia seguinte também poderia ser melhor comentada =) pareceu que você quis acabar o conto rápido, sabe? rs
    Mas gostei bastante! \o

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