A Liberdade de Claudia

Cláudia ansiara por aquele dia durante os últimos cinco anos. Se primeiro achou que aquilo não duraria, chegou também a pensar que nunca sairia dali. O tempo todo pensava no que poderia fazer – no que poderia voltar a fazer – quando estivesse livre, mas agora, que deixava pra trás aqueles portões, novamente de posse de seus pertences, sentia-se totalmente perdida.

Liberdade, enfim. O que ela faria? Como seria sua vida? Como retomar tudo de onde parara? Se pegou cantarolando um antigo pagode, sucesso em sua juventude. Riu de si mesma, mais ainda quando no horizonte reparou nas luzes do fim de tarde. Sorriu como há muito não fazia e como pouco voltaria a fazer. O que faria com a tão sonhada liberdade? De repente, foi tomada pelo medo.

Não foi direto para casa, embora soubesse que sua irmã lhe esperava com sua refeição favorita. Precisou caminhar. Pensar. Estava livre. Inocentada. Nunca tivera culpa, repetiu tantas vezes isso, desde a fatídica noite. Ela estava dormindo quando tudo acontecera. Sempre cuidava da pequena Junia quando a vizinha trabalhava pela noite. Nunca faria nada contra sua querida Juju. Mesmo se não gostasse! Que monstruosidade seria! E logo ela, que era incapaz de machucar uma mosca. Sentiu raiva de terem tido coragem de acusá-la. Cinco anos perdidos na sua vida. Sentiu novamente o ódio que tantas vezes sentira na cadeia. Respirou fundo e tratou de afastar esses pensamentos. Tomou o rumo de casa.

Foi ótimo ser recebida por Dinorá. E como cozinhava bem sua irmã! Bobó. Nossa! Ficou feliz ao dar-se conta que aquela coisa que chamavam de comida na Penitenciária Feminina de Santa Maria do Oeste não faria mais parte de seu cotidiano. Conheceu seu sobrinho mais novo, Lucca, de dois anos. Maria Clara, a filha mais velha de Dinorá, estava tão mudada! Faria nove anos na semana seguinte. Cláudia tinha recebido fotos acompanhando o crescimento de seu xodó durante todo o período de reclusão, mas ao vivo era bem diferente. E difícil foi sentir que era agora uma estranha para a sobrinha. Mas isso o tempo resolveria. Cada dia de uma vez, pensou. E resolveu que já no dia seguinte procuraria emprego. Aos poucos recuperaria sua vida.

Dormiu no quarto de hóspedes. Apesar de ser a sua casa, em sua ausência decidiram que o melhor era Dinorá se mudar pra lá. A  irmã e o marido passavam por um aperto financeiro e não tinham como arcar com o aumento exorbitante que teriam no aluguel do apartamento. Foi Cláudia que sugeriu, mesmo achando que voltaria logo. Poderiam ficar o tempo que fosse. Desde que se separara, achava mesmo a casa grande demais para ela sozinha. Ainda economizariam em combustível, já que ficava a duas quadra da escolinha de Maria Clara e cinco do escritório que o casal dividia. Agora parecia um pouco estranho, mas não tinha pressa pra resolverem. Não sabia mesmo se conseguiria voltar a morar ali, onde tudo acontecera.

Acordou no meio da noite, banhada em suor. Isso era bastante raro em sua vida. Sempre teve um sono tranquilo. Nada de insônia, sobressaltos, pesadelos. Era raro lembrar-se de qualquer tipo de sonho. Dormia pesado e relaxada, em qualquer lugar. Nem mesmo na cadeia dormir fora um problema. Mas agora, ali, na sua própria casa, estava com os olhos arregalados e o coração acelerado. Estava de novo Juninha ensanguentada sobre seu tapete felpudo. Soube logo ser um sonho: a casa estava organizada como antes, e a primeira coisa que tinha reparado ao entrar na sala pela tarde, fora justamente o tanto de mudanças que a irmã fizera no espaço. Normalmente isso a irritaria, mas nesse caso achou até bom. Parecia um outro lugar e tudo que ela não precisava era ficar todo tempo se lembrando daquela noite. Quando se deu conta que sonhava, tentou acordar. Falou pra multidão que a cercava – entre os pais da criança, outros conhecidos e muitos dos estranhos que marcaram presença insultando-a na porta da delegacia quando foi levada – que sabia não ser real. Mas eles diziam que não eram um sonho, mas sim sua consciência.

Sentada na dura cama que costumava oferecer aos visitantes – sentiu-se mal por nunca ter colocado algo melhor ali – tentou mais uma vez se lembrar daquela noite. Tinha contado histórias para a menina até ela mesma cair no sono, como acontecia às vezes. Junia a acordou e pediu que ligasse a TV. Viram um desenho de um jacaré rosa que era amigo de um tamanduá. Lembrava perfeitamente de explicar que aquele bicho comia formigas, para preocupação de Juju: um bicho daquele tamanho teria que comer muuuuitas formigas pra matar a fome! E se acabassem? Conversaram mais um pouco e fez cafuné até que a menina apagasse. Não reparou quando ela mesma caiu no sono. Depois, tudo muito confuso, como repetiam ao acusá-la. Não lembrava bem da ordem das coisas, quanto tempo levou pra pedir ajuda, como não acordou antes com gritaria – que depois alguns vizinhos disseram ter escutado – ou com o arrombamento da porta. Sim, a porta tava arrombada. Tinham sido invasores, era tão óbvio. Mas porque insistiam em acusá-la? Só porque quase nada de valor tinha sido levado? Só porque não conseguiam entender a razão da violência contra uma criança de três anos para um roubo tão bobo? Ela não tinha essas respostas, eles que tinham que achar o culpado, era o trabalho deles! Quando socorreram a menina, quase sem vida, ela disse o nome de Cláudia. A acusação teve coragem de usar isso contra ela, dizendo que Junia tinha horror no olhar e supondo que estava avisando quem a tinha atacado. A defesa reagiu: só podia ser um pedido de ajuda, elas eram muito apegadas.

Foi até a janela e puxou a pesada cortina. Já amanhecia. Resolveu fazer um carinho para a família e comprar um café reforçado na padaria. Se surpreendeu quando viu que no lugar tinha uma loja de lingerie. Cinco anos… as coisas mudam. Pensou onde estaria seu João e mesmo se ainda seria vivo. Soube depois que tinha fechado quatro meses após sua prisão. O simpático capixaba não acreditou por nenhum momento que Claudinha, de suas melhores clientes, poderia fazer algo como aquilo e a defendia sempre que ouvia os comentários maldosos. Lançaram então uma campanha de boicote e picharam por várias vezes coisas terríveis em sua fachada. Ele não mudava seu discurso e na mesma medida em que os ataques aumentavam, o movimento diminuía. Então, sem qualquer aviso, fechou a padaria e mudou-se. Ninguém sabia para onde.

O jeito foi comprar na padaria de rede, que ficava algumas quadras rua abaixo. Encontrou alguns conhecidos no trajeto. Como estava envelhecida dona Fátima da ótica! Acenou efusivamente – tanto que não entendeu bem o porque, nem sabia que gostava tanto assim da vizinha! Mas como era bom revê-la! De resposta teve um tchauzinho tímido da senhora que voltou-se imediatamente de volta para o cliente, evitando reencontrar o olhar de Cláudia. Ou talvez tenha sido só impressão. Fato é que ninguém parecia feliz em tê-la de volta ao bairro, como comentou mais tarde com Dinorá.

Apesar de a irmã e o genro terem a garantido que era coisa da cabeça dela, a cisma não passava. Reparava nos olhares, nos passos mais apressados quando a viam, nas conversas que mudavam quando se aproximava. Trabalho também não estava fácil: o caso tinha tido muito destaque na imprensa à época e sua absolvição não merecera mais que uma notinha de canto de página. Não estava sendo fácil. Entendeu que, se não devia mais nada para a justiça, tampouco estava livre de outro tipo de condenação.

O mais difícil foi quando, dias depois de voltar, quis visitar Junia. Que alívio que foi dia em que Dinorá a avisara que a menina saíra do coma. Junto com a felicidade de ter a pequena bem – os médicos garantiam que não teria nenhuma sequela – aguardou ansiosamente que ela contasse o que tinha acontecido. Então estaria livre. Mas a menina não disse uma palavra. Nem sobre isso, nem sobre nada. E nesse silêncio seguia mesmo cinco anos depois. O trauma, diziam. Cláudia teve um de seus momentos de ódio no dia: mimavam muito aquela menina; ela tinha que entender que precisava falar, que a vida de outra pessoa dependia disso. A vida de Cláudia. Com o passar do tempo, teve pena. E agora, de volta, só queria dar-lhe um abraço. Mas quando apareceu à porta, foi enxotada por Esther, mãe de Junia. Não lhe interessava que tinham a inocentado. Nunca tinham achado nenhum outro suspeito. Então só tinha como direcionar a raiva pelo seu sofrimento, pelo silêncio . pelo isolamento da filha, à Cláudia. Enquanto se afastava, viu Junia observando-a pela janela. Quando os olhares se encontraram, pensou ver nos olhos da menina horror, tal tinha dito a acusação.

Como chorou aquele dia. E ficou tão confusa. Queria muito lembrar das coisas. O passo-a-passo desde que acordou e não tinha mais a menina ao seu lado. Tinha bebido um pouco aquele dia, só pra esquecer um problema do trabalho, mas talvez a amnésia fosse por conta do Uísque. A menina ensanguentada no chão. Mas não tinha sido ela. Mas só estavam as duas! Quem tinha sido? Tinham invadido, só podia ser. A quantidade de garrafas na casa foi usado contra ela no julgamento. Reparou que a irmã tinha sumido com todas. E como queria, como precisava beber.

Então começaram as cartas anônimas. Ameaças. Acusações. Diziam ter ouvido ela gritar com a menina. Em outras, insinuavam que a menina já tinha medo dela, que tinham tentado avisar Esther. Mentiras! Ou não seriam? Viu o medo no olhar de Junia. De repente já não tinha certeza se tinha acordado na cama sem Junia. Lembrou dela em pé observando a menina sangrar. Paralisada sem pedir ajuda. Demorou a pedir porque achou que a menina já estava morta. Ou ela que queria que estivesse? Esther sempre fora tão arrogante. Sentiu raiva por ter sido tão mal tratada, quando só queria rever Junia, de quem tinha cuidado tanto. Teve até vontade de correr e contar do ardente caso que manteve por 10 anos com o marido da vizinha. Agora ex-marido, não resistiram à situação com a filha. Mas ele não procurou Cláudia depois, como ela sonhou tanto. Parece que se casou com a secretária. Que clichê! Tinha quem dissesse, maldosamente, que Cláudia gostava de cuidar das crianças dos outros sempre que podia, por não poder engravidar e que nutria certa raiva pelas mães. Que qualquer dia fugiria com uma das e criaria como se dela fosse. Bobagem. Só não gostava mesmo de Esther, mulherzinha fútil e esnobe.

Mas por que pensava em tudo isso agora? Uma coisa não tinha nada com outra. Apesar de não gostar de Esther, nunca sequer deixara isso evidente. Tanto que cuidava de Juju. E com todo o carinho, como se fosse sua. Nunca faria mal a Esther. Muito menos a criança. Começou a responder carta por carta. Não sabia de quem eram. Se vinham de uma ou de várias pessoas. Mais deixaria na praça central antes de ir embora. Sim, precisa ir embora. Ali, nunca seria livre.

Releu as cartas antes de sair. Achou confusas. E achou bobagem. Não devia satisfação àquela gente. Escreveu apenas uma, para a irmã. Agradecendo, pedindo desculpas, explicando que não podia ficar, que precisa ir. Não sabia pra onde, mas um dia avisaria.

Foi uma cidade no interior do Uruguai que escolheu para refazer a vida. E estava gostando bastante. Ali ninguém a conhecia, não sabiam ou não lembravam do caso, e Cláudia podia ser quem quisesse. Que era ela mesma, antes de todo o ocorrido. Às vezes quase esquecia que tinha estado presa e todo o pesadelo real que vivera. Tinha ainda um bom dinheiro na poupança, mas não duraria pra sempre. E precisava de distrações. Começou a trabalhar de babá para uma família simpática, donos da mercearia da cidade. Aprendia espanhol com as crianças e ensinava português, em ritmo de brincadeira. Dava notícias pra irmã, embora dissesse que ainda precisava de um tempinho só ela. Aos poucos voltava a sorrir.

Um dia jogava bola com los niños no quintal e dona Mercedes adentrou transtornada. Falava tão rápido o espanhol ao mesmo tempo que arrastava as crianças pra dentro, que Cláudia não entendeu nada. Foi atrás, mas a porta estava trancada. Resolveu ir pra casa. No dia seguinte entenderia. Quem explicou foi Don Carlos, quando foi a sua casa acertar o último dia de trabalho e pedir que ela não chegasse mais nem perto de sua família: uma amiga brasileira a reconhecera em uma foto e contara toda a história. Não adiantou Cláudia dizer que era inocente. Inclusive que a justiça tinha decidido pela absolvição. Ele concordava que não podia ver nela uma assassina, mas também não tinham mais coragem de deixar os filhos com ela e sua esposa estava especialmente perturbada.

Nessa noite, voltou a ter aquele pesadelo. Agora ouvia Junia pedindo que ela parasse. Ela dizia pra menina que não era ela fazendo aquilo. Mas via então que só estavam as duas. Olhava pra porta intacta. Via a ela mesma forçando a porta, escondendo algumas jóias. Sentada na cama, não sabia mais se eram lembranças ou um sonho ruim. Ela era inocente. O juiz disse. Ele se convenceu. Mas agora já não convencia tanto a si mesma.

No dia seguinte deixou o Uruguai. Resolveu ir pra uma cidade grande. Na metrópole passaria despercebida, em meio ao mar de gente. E se convenceria novamente de sua inocência. Incapaz de machucar uma mosca, repetiram os mais próximos ao longo do julgamento. Escolheu São Paulo.

Por um momento se sentiu melhor, uma paz que nunca soube que o caos poderia trazer. Quis ver o pôr-do-sol do topo de um arranha-céu, como certa vez lhe recomendaram. Ali se sentiria parte daquele grande conjunto de desconhecidos. Seria só na multidão. E anônima. Só quando olhou a cidade do alto, entendeu o que fora fazer ali. Sabia que não adiantava fugir a vida toda, que a própria mente a perseguia. Talvez estivesse ficando doida. Talvez estivesse lembrando que era muito pior que doida. E ela achando que sair da cadeia a significaria liberdade.

Foi enquanto passava pelo 15o andar, com o corpo tomando velocidade a medida em que se aproximava do chão, que por fim sentiu-se livre.

  2 comments for “A Liberdade de Claudia

  1. 24 de outubro de 2017 at 19:16

    Oi, tudo bom? Achei o conto muito bom, principalmente a dualidade entre saber ou não saber se foi ela quem cometeu o crime. No entanto achei o final um pouco exagerado, rs. Talvez não tenha sido tão impactante por conta do texto que o Willian escreveu no primeiro desafio que é parecido. Mas isso é minha opinião pessoal, e não isenta sua habilidade em manusear tão bem as palavras.
    De correção, só achei um no comecinho do texto. “Sorriu como a muito…”, Seria “sorriu como há muito”, de havia muito tempo.
    Parabéns pelos ótimos textos!

    • Raquel Stern
      25 de outubro de 2017 at 12:41

      Eita! Que vergonha desse “a” x “há”! Corrigindo agora mesmo!

      Não tinha pensado diretamente no texto do Will, mas devia estar no subconsciente! Agora que você falou, lembrei que li e certamente influenciou. Esse texto e um filme em que trabalhei, que falava de um Homem recém saído da prisão.

      Muito obrigada pelo comentário!

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