‘Mal passado’

Nunca achei que fosse chegar nesse ponto mas sim, estou no tinder. Há tempos não tenho um encontro e, sei lá, achei que talvez fosse uma experiência interessante. Apesar do que possa parecer minha autoestima não é baixa, apenas acredito que ando frequentando os mesmos lugares, com as mesmas pessoas e por isso não tenho conhecido novos rostos para me relacionar. Depois de quinhentos match sem contato, três ou quatro conversas sem resultado e um quase encontro desmarcado em cima da hora, aceitei um date com “Gusta, 20y”.

Coloquei o vestido que sempre uso nessas ocasiões, como nunca tiro fotos em primeiros encontros, ele provavelmente ainda não o viu. Lingerie nova, guardada também pra esses momentos, um pouco de maquiagem pra esconder as olheiras e espinhas e pronto, tudo certo. Apesar da minha preferência em pegar um uber até o restaurante, ele vem (depois de muita insistência) me buscar em casa as vinte horas e vamos jantar.

No horário marcado meu celular vibrou, uma mensagem dele dizendo que estava parado lá embaixo. Fiz um charme e demorei uns 15 minutos alegando que estava terminando de me arrumar. Ao abrir a porta do carro, já fiquei aliviada porque ele era mesmo o cara da foto: moreno, corpo de quem faz horas de academia por dia, olhos escuros, barba por fazer, estava usando um perfume amadeirado muito gostoso e uma camisa xadrez de lenhador.

– Boa noite, senhorita! – riu

– Boa noite! – também ri – Então você é “Gusta, 20y”? – debochei

– Isso! Mais conhecido como Augusto Veiga, muito prazer.

– Prazer, Laura Dias – respondi, cumprimentando-o com um beijo na bochecha.

Seguimos pela avenida principal por alguns minutos. A cidade não é muito grande, então a quantidade de restaurantes também não; Estacionamos no Merlot, que apesar de ser uma sexta a noite, estava praticamente vazio. Pedi uma salada Caprese, pra impressionar, já ele, pediu um bife e enfatizou com o garçom que queria a proteína mal passada. Mesmo com seis pessoas no restaurante todo, eles conseguiram demorar o que pra mim pareceu uma eternidade pra trazer os pratos; Quando o garçom colocou a  comida sobre a mesa, Augusto o chamou de volta.

– Está passado demais, eu pedi mal passado! – exclamou.

– O chef achou que esse ponto seria o suficiente, senhor! Vou pedir que ele refaça, com licença. – retirou o prato e adentrou a cozinha espantado, assim como eu estava.

– Nossa, o bife estava quase vivo! – Comentei rindo, porque não me contive.

– A ideia é essa, quase vivo. Eu gosto realmente mal passado! – ele riu, parecendo não se importar com meu comentário.

O graçom voltou da cozinha com uma chapa de ferro portátil, daquelas em que se cozinha sobre a mesa, e três bifes. Enquanto ele acomodava os itens entre nós, o chef veio atrás com alguns outros ingredientes.

– Boa noite, senhor! – depois dirigiu-se a mim – Boa noite, senhora! – e voltou para Gusta novamente – Lamento o ocorrido. Para evitar um novo engano pedi ao Fredo que trouxesse nossa chapa, para que o senhor pudesse escolher o melhor ponto.

– Ótimo! – respondeu Gusta seco.

O chef então colocou os três bifes na chapa de ferro e deixou que meu crush retirasse a carne quando achasse conveniente, o que não durou nem dois minutos.

– Acho que já é o suficiente, vou me servir!

– Como quiser, senhor! Com licença – o garçom colocou os bifes em um prato, recolheu os utensílios e nos deixou a sós novamente.

– Acho que não faz bem comer um bife com tanto sangue! – adverti.

– Sempre comi desta forma, meu médicos nunca falaram nada.

 


 

Depois de tudo isso, conversamos sobre várias coisas. Ele disse que mora numa outra cidade, veio para trabalho e está no hotel do centro. Me convidou pra dormir lá se quisesse (veja a audácia), mas disse que eu podia ficar na cama de solteiro, pq o colega não veio, riu. Não aceitei, claro, então ele disse que me levaria em casa. Enquanto o manobrista buscava o carro, ele me manteve abraçada bem forte e foi bem gostoso, fora o fato de que ele estava muito quente, de forma que se minha pele estivesse diretamente encostada na dele, eu me queimaria.

Já dentro do carro, senti um cheiro estranho, que não estava ali antes. Sugeri que ele reclamasse com o pessoal do restaurante, mas ele achou melhor não; “deve ser vingança pela coisa toda do bife”, zombou. Conversamos enquanto ele dirigia, até que notei que pegamos o sentido contrário da minha casa e quando o questionei ele disse que me mostraria uma coisa antes.

Fomos até as Rochas, ponto turístico da cidade, pois lá do alto dá pra ver as cidades vizinhas divididas pelos rios que as cercam. Ele desceu do carro eu achei de devia fazer o mesmo, tirei o cinto com calma, ele abriu a porta e eu saí. Mais rápido do que consigo descrever, ele colocou meu corpo de costas pro carro e seus braços estavam a minha volta. Enquanto minha respiração acelerava e eu disse que ele estava me assustando, ele chegou com o rosto perto do meu ouvido:

– Você já viu como a lua está linda hoje?

Então meu pescoço queimou como se estivesse em brasa. Eu gritei o mais alto que eu pude e pelo que pareceram horas, mas não puderam me ouvir.

A queimação então parou e eu não sentia mais nada.

 

 

Imagem retirada de http://azuldesembro.blogspot.com.br/2014_12_01_archive.html

  6 comments for “‘Mal passado’

  1. 26 de junho de 2017 at 17:33

    Ele é um vampiro? .-. Um lobisomem? OMG que tipo de criatura é essa?! Adorei, rs.

    • Fabio Baptista
      27 de junho de 2017 at 11:51

      Oi May 🙂
      Obrigado pelo comentário!
      A ideia é criar essa ambiguidade mesmo. Fico feliz que tenha gostado 🙂

  2. Willian Fernandes
    27 de junho de 2017 at 10:13

    Eu achei o conto bem montado, embora um pouco rápido nas descrições… Não deu pra ficar curtindo a cena entende? E tem umas palavrinhas erradas/faltando, mas quem sou eu pra criticar… :p

    • Fabio Baptista
      27 de junho de 2017 at 11:52

      Oi Willian 🙂
      Vou revisar e me atentar a descrição.
      Obrigado pelo comentário, espero que tenha gostado! 🙂

  3. Lucas Suzigan Nachtigall
    4 de julho de 2017 at 08:26

    Uau! Quite amazing!
    Comecei a ler o conto sem esperar muito, mas caramba! Que “daora”! Muito bom mesmo!
    Acho que só precisaria de uma revisão na primeira parte, onde alguns leves errinhos aparecem.
    Mas está muito bom. Parabéns!

    • Fabio Baptista
      7 de julho de 2017 at 13:41

      Oi, Lucas 🙂
      Muito obrigado pelo comentário, vou me atentar mais na revisão!

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