Malditos sejam os pássaros

Aguardei na penumbra, a espreita da minha presa. Os olhos semicerrados refletiam a ira do meu ser. Meus desejos mais primitivos afloravam naquele momento, eu queria, eu precisava, eu era irracional. Minhas mãos tremiam, minha respiração era ofegante e eu permanecia estático e calado.

Ele surgiu na rua, seu andar era solto e a postura folgada, ele descia a rua mexendo com quem quer a passasse perto. Seu porte físico grande amedrontava a maioria das pessoas, ele se aproveitava disso. Eu media cada passo dele, cada vez mais a respiração acelerava.

Parou de frente para mim, ele sabia o que havia feito, seu olhar de deboche misturado com a uma leve embriaguez me deu nos nervos. Eu havia planejado um discurso para recitar, mas na hora as emoções foram mais fortes e eu não pensei, a visão estava meio escurecida pelo ódio, só senti meu punho atingindo seu rosto e o barulho de carne crua sendo amassado.

Diná apareceu na minha casa alguns anos atrás. Ela era uma gata siamesa, gorda, com um olhar frio em seu tom azul mais gélido. Sempre suspeitei que tinha duas famílias, que ia e vinha sempre, mas com o tempo notei que isso não era bem verdade, já que passava muitas horas em casa e nos quartos dormindo.

Uma típica gata de rua, fujona, passeava por todo o bairro. Um felino adora caçar, veja leões e tigres por exemplo, assim sendo, gatos são iguais apenas mudando a escala. Gatos caçam insetos, pássaros e ratos, diferente de leões e tigres, gatos fazem isso por diversão não por necessidade, mas sabemos não é? Velhos hábitos levam muito tempo para morrer.

Me lembro do dia que Diná me trouxe um rato cinza de esgoto. Ela parecia orgulhosa, acho que me entregava como um presente, como quem quer agradecer por toda a receptividade, comida, atenção e carinho. Vendo que não me interessei muito por seu singelo presente resolveu então se divertir com o mesmo, assim, soltava o pobre rato, o bicho fugia e ela se divertia mais um pouco para caça-lo novamente.

Com o passar do tempo Diná foi encontrando outros brinquedos pela vizinhança, inclusive outros gatos, os quais vez ou outra eram seus amantes e rivais. Nesse passeio ela engravidou, e alguns meses depois lá estava sua ninhada de lindos gatinhos. Está para nascer ser mais curioso que Diná, para dar a luz aos pequenos gatos ela usou um velho armário de uma vizinha, e assim diariamente trazia seus 5 filhos em 5 viagens, telhado por telhado até minha casa, mas de noite refazia 5 viagens e dormia na vizinha, isso só durou alguns meses.

Outro brinquedo encontrado por ela foi uma coleção de pássaros. Um vizinho era o detentor de tal coleção ilegal. Pense você encontrar uma sala cheia das coisas mais divertidas no mundo para você, o que faria? Exatamente, Diná fez o mesmo, abriu gaiolas e estripou pássaros e mais pássaros, era de sua natureza, não podia resistir. Até me trouxe alguns de presente, mas também fui contra, assim como o rato. Acho que ela já estava cansada de tentar me presentear.

O soco atingiu sua cara com tanta força que ele cambaleou, mas como eu disse, sua envergadura era muito maior que a minha, era um cara grande. Não tombou, tonteou, levantou e armou um soco, eu desviei, mas não do segundo, a guerra começou. A troncação foi justa, socos atrás de socos, esquivas e o sangue já escorria entre dedos e lábios.

Após alguns minutos de troncação consegui encaixar um certeiro, ninguém tem queixo de aço, seja alto ou baixo, entrou firme e ele tombou para trás. Não havia um juiz para dizer que a luta tinha terminado, eu subi em cima dele e continuei a amassar a carne de sua cara sem piedade, ele nada fazia além de emitir um zumbido bem comum em quem foi knockauteado.

Um dia Diná não voltou, acordei de manhã e ela não estava enrolada em meu cobertor, achei estranho, mas tudo bem, ela era uma gata aventureira. Fui ao banheiro, escovei, desci, tomei meu café e parti para o trabalho. De noite ao chegar, nenhum sinal de Diná, já estava ficando estranho, mas pensei que talvez ela tivesse voltado durante a tarde e eu não a vi por estar fora, e quando a noite começou a cair a mesma não perdeu tempo em partir e curtir sua vida felina.

No outro dia acordei e novamente nenhum sinal de Diná, já estava ficando preocupado. Escovei os dentes, desci, tomei meu café. Estava pronto para partir com a pulga atrás da orelha, desci até a garagem e quando abri o portão lá estava ela, aberta da cabeça ao rabo, um golpe de ódio em uma criatura que nada fazia por mal, apenas por instinto. Alguém matou minha pobre Diná, alguém que me conhecia assassinou minha pobre companheira, e deixou em meu portão para me provocar.

Recolhi seu lindo corpo, já duro, levei para dentro de casa, liguei para o trabalho e avisei que iria faltar. Enterrei-a no jardim, lagrimas escorriam dos meus olhos ao cavar sua cova. Pobre Diná. Sentei-me na sala para refletir quem poderia ter feito isso, então me recordei dos presentes, e os pássaros, malditos sejam os pássaros.

  2 comments for “Malditos sejam os pássaros

  1. Fabio Baptista
    10 de julho de 2017 at 17:22

    Achei muito legal o jeito de escrever, intercalando presente e passado e tudo isso kk
    Gostei bastante.

  2. will
    25 de julho de 2017 at 18:40

    Admito que só entendi perto do final.
    O corte temporal me atrapalhou um pouco, especialmente porque foi longo e porque os trechos tem velocidades diferentes de narração, mas gostei. Queria que tivesse um ultimo corte do personagem fazendo uma cova ao lado da do gato para o assassino(a).

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *