Mau agouro

Eduardo afastou os olhos do monitor e bocejou. Estralou o pescoço de um lado para o outro e se espreguiçou na cadeira de seu escritório. Seus ombros doíam de ficar inclinado e sua cabeça começava a latejar.

O vento entrou pela janela, balançando as cortinas e revelando que o sol há muito tempo já se fora. Seu olhar se perdeu por um momento, admirando a luz do luar. Sentiu sua barriga roncar. Olhou para o relógio no monitor de seu computador, e constatou que além do almoço, também havia perdido o jantar.

Apesar dos protestos de seu estômago, Eduardo não tinha fome. Não queria comer. O vazio de sua barriga não se comparava ao vazio em sua alma. Parar um minuto para mastigar qualquer coisa dava abertura para sua mente voltar naquele assunto. E apesar de estar sempre o evitando, não havia um momento em que Eduardo não pensava nele.

Decidiu encerrar o trabalho pela noite. Tirou os fones e sentiu o silêncio penetrar seus ouvidos com um zunido agudo. Parecia que ele era a última pessoa acordada em todo o bairro. Desligou o computador e levantou-se, estralando as costas.

Dirigiu-se até a janela para fechá-la. Antes que pudesse encostar no trinco, deu um pulo de susto ao ouvir o pio de uma coruja ao seu ouvido. Olhou para trás com o coração na garganta, buscando a origem do som.

Nada. Não havia nenhuma ave no local. Tudo estava silencioso. Observou o seu escritório lentamente, e balançou a cabeça. Se tivesse entrado uma coruja pela janela, ele teria visto.

“Devo estar imaginando coisas”, ele pensou. Fechou a janela e por um momento, teve a sensação de que alguém lhe observava. Um calafrio lhe percorreu pela nuca.

A sensação incômoda foi afastada pelo segundo roncar de sua barriga. “Ok, acho que esse é meu limite”, pensou Eduardo. Deu meia volta e fechou a porta do escritório, apagando a luz ao sair.

Andou pelo corredor de sua casa e parou em frente à suíte de casal. Observou a silhueta de sua esposa deitada na cama. Sua respiração era tão lenta e inaudível que era necessário um longo momento para perceber que ela ainda estava viva.

– Yasmin, meu amor… – Eduardo disse, baixinho. Não houve resposta.

– Vou comer alguma coisa. Quer que eu traga algo para você?

Silêncio. Yasmin parecia estar em seu décimo sono, pois não movera um músculo sequer. Eduardo encostou no batente da porta e cruzou os braços, admirando-a com o coração apertado.

Ela estava tão diferente…. Havia emagrecido muito. Dormia por horas e, quando acordava, não fazia muito além de fitar a paisagem na janela. Eduardo achava que ela não devia ter largado o trabalho, que era importante manter sua mente focada em algo. Mas também não sabia como consolar a mulher, de modo que não teve como repreender quando ela lhe deu a notícia.

Suspirou, emocionalmente cansado. Com passadas lentas, deu as costas e dirigiu-se até a cozinha. A tristeza em seu coração parecia agarrar seus tornozelos, deixando cada passo mais difícil. Começou a descer as escadas, quando ouviu outro pio vindo de seu quarto.

Ele parou por um momento, nos primeiros degraus. Dali, conseguia ter uma visão parcial tanto do andar de cima quanto do térreo de sua casa. Apenas o luar brilhava pela porta de sua suíte, e o resto da casa permanecia no breu.

– Yasmin…? – Eduardo disse, imaginando se a esposa teria acordado. Não houve resposta.

“Meu deus, eu preciso descansar”, pensou consigo mesmo. Olhou para os degraus da escada mal iluminada. Lembrou-se de que precisava colocar um ponto de iluminação, como havia prometido para Yasmin. Afinal, seria muito perigoso se algo acontecesse…

Seu coração apertou ao lembrar-se o motivo que originara a conversa. Tudo, absolutamente tudo o fazia lembrar daquilo. Desceu as escadas, guiado cegamente pelo tatear do corrimão, e acendeu as luzes do hall de entrada.

A luminosidade invadiu seus olhos de um jeito incômodo, fazendo sua cabeça latejar ainda mais. Virou à esquerda e acendeu a luz da cozinha. Viu um borrão passar na frente da janela, mas ignorou, achando que era sua visão se acostumando com o lugar.

Abriu a geladeira e fez um sanduíche para si mesmo. Seu celular apitou duas vezes, indicando o fim da bateria. Conectou-o na tomada da parede e o sinal verde de carregamento brilhou na tela do aparelho.

Tirou um caneco do armário e o encheu de água. Colocou em cima do fogão e o acendeu para fazer um chá. As chamas azuis do fogão dançavam em sintonia com o movimento circular da água no caneco. Observava hipnotizado, como se nunca houvesse notado nada tão interessante na vida.

Sentiu um calafrio percorrer pelas costas. A sensação de ser observado retornava. Tinha certeza que alguém, atrás de si, olhava atentamente todos os seus movimentos. Seu coração bateu acelerado, sem saber se era seguro olhar para trás. Um misto de dúvida e paranoia invadiu seu corpo, mas o medo fez com que suas pernas congelassem.

A coruja piou novamente e, num reflexo, Eduardo virou-se para procurar a maldita ave. Mas tudo o que viu foi Yasmin, postada a um palmo de sua face, silenciosa. Deu um pulo para trás, soltando um berro de susto.

O som foi seguido de um uivo agonizante quando Eduardo encostou o braço na caneca quente, derrubando a água no fogão. O fogo se apagou num suspiro e Eduardo rapidamente colocou o braço embaixo da torneira.

– Mas que droga, Yasmin! Você me assustou… – ele disse, enquanto cerrava os dentes sentindo a água arder em sua queimadura.

– Você ouviu ela, não ouviu? – disse Yasmin.

– Ouviu quem? – Eduardo respondeu, irritado.

– Brenda.

– Mas o qu…

– Você ainda não consegue vê-la, mas já pode ouvi-la, não? – perguntou a mulher, com um sorriso alienado. – Eu esperei tanto pra poder te contar…

Eduardo fechou a torneira e colocou as mãos no ombro da esposa, com o coração dolorido. As palavras engasgavam em sua garganta. Se perguntava se o trauma fora tanto a ponto de enlouquecer Yasmin, fazendo-a imaginar coisas.

– Querida… Brenda se foi. – ele envolveu a amada num forte abraço, segurando o choro. Tinha de ser forte por ela. – Eu sei o quanto você deseja que ela ainda estivesse conosco, mas ela se foi, e temos que aceitar…

Yasmin se desvencilhou dos braços do marido, com a expressão incrédula.

– Não! Você não entende. Nossa filha virou um anjo, eu juro!

O olhar fanático da mulher assustava Eduardo, que não sabia como lidar com a situação. Estava cansado, e a vida não lhe dava trégua.

– Eu te mostro, se você quiser. – Yasmin pegou na mão do esposo, ansiosa para lhe mostrar seu segredo. Eduardo só pensava em finalizar o assunto e deitar-se para um merecido descanso.

– Tudo bem, meu amor. Me mostre, então. – ele disse.

Teria que provar para ela. Dizer-lhe que o tão esperado bebê não havia sobrevivido. Ver o rosto de sua amada acabar-se em lágrimas de novo. Aquilo doía em seu peito, e tinha medo de estar perdendo sua esposa para a insanidade também. Tinha medo de ficar sozinho.

Yasmin pegou o marido pela mão, e o guiou pelo corredor da casa. Pegou seu agasalho e o molho de chaves, e destrancou a porta.

O casal saiu pelas ruas no meio da madrugada. Yasmin andava apressada e feliz por finalmente mostrar ao marido o segredo que guardava há tanto tempo. Eduardo tentava acompanhar o ritmo da esposa, sentindo o cansaço lhe pesar cem quilos no corpo.

Andaram por cerca de três quarteirões até chegar na beira da estrada intermunicipal. Yasmin parou. Ali era o fim.

– Viu, meu amor. Não há nada aqui. – Eduardo disse.

– Você não vê? Ali! – ela apontou para a floresta no outro lado da estrada, onde árvores cresciam sem limites há anos.

Ficaram um tempo observando, mas nada acontecia. Eduardo balançou a cabeça negativamente. A expressão de Yasmin não escondia sua decepção.

– Acho que você ainda não está preparado, então… – ela disse, desanimada. – Vamos voltar pra casa.

– Vamos. – Eduardo disse melancólico. Deram meia volta e o homem segurou o ombro da esposa, trazendo-a para perto de si num meio-abraço consolador.

A coruja chamou novamente, com um piado agourento que ecoou pela noite. Involuntariamente, Eduardo virou a cabeça.

O movimento despertou uma espécie de êxtase em Yasmin. A mulher livrou-se dos braços do homem, num pulo de felicidade.

– Eu sabia! Você ouviu, você ouviu! Venha, eu te mostro nossa Brenda. – Yasmin sorria como não havia feito em meses. Era um sorriso sincero e… ensandecido. Eduardo abriu a boca para protestar, mas a garota já estava correndo para a floresta.

Antes que Yasmin pudesse alcançar seu destino, um carro em alta velocidade atravessou o horizonte sem aviso. O barulho traumatizante do choque de seu corpo contra o veículo ecoou pela noite.

Yasmin voou metros à frente, como se fosse um simples boneco de pano. Tudo pareceu girar em câmera lenta. Eduardo demorou alguns segundos até entender o que acontecia. Soltou um urro de desespero e correu até a amada.

Agachou-se ao lado do corpo de Yasmin, com os membros retorcidos em direções brutais e o olhar apagado, distante. O sangue quente escorria por alguma ferida que Eduardo não conseguia encontrar, dado ao estrago que o impacto havia feito.

O homem uivava em direção aos céus, desolado, enquanto sentia lágrimas encharcarem seu rosto. O carro havia desaparecido, não deixando indícios de que um dia existira. Exceto pelo corpo inanimado da mulher.

Eduardo tateou os bolsos da calça. Precisava chamar alguém. Bombeiro, ambulância, polícia, o Papa… Qualquer um que pudesse salvar sua amiga, sua amada, seu porto seguro. Lembrou-se do celular carregando na cozinha de casa.

Cuidadosamente pousou o corpo de Yasmin de volta no asfalto, e correu em disparada até sua casa. O caminho pareceu menor do que realmente era. Esqueceu o cansaço, a tristeza, tudo, já que sua mente só conseguia pensar em uma coisa: salvar Yasmin.

Suas mãos tremiam ao chegar em casa. Demorou várias tentativas e grasnados de frustração até conseguir encaixar a chave no buraco da fechadura. Girou a maçaneta e em cinco passos estava na cozinha, com o celular na mão.

Puxou o cabo para retirar o carregador da tomada e ouviu um estalo. Estava tão preocupado que mal sentira o cheiro de gás que impregnava a cozinha. Viu as chamas se acenderem em labaredas hipnotizantes, como se tudo ocorresse em câmera lenta.

Em seus últimos momentos, teve um breve deslumbre de uma coruja branca observando-o pelas chamas da janela da cozinha. Como um último desejo, quis que a coruja fosse mesmo Brenda. Desejou que ele, Yasmin e Brenda se reencontrassem no paraíso.

A casa ardeu em chamas sob o luar, enquanto o piar de uma coruja qualquer ressoou ao longe.

  4 comments for “Mau agouro

  1. Fabio Baptista
    26 de junho de 2017 at 16:46

    Acho maravilhoso, aliás uma das coisas que mais admiro em JK, quando uma história é escrita inicialmente dando detalhes que são comuns mas que depois tem um puta significado, os pontos se ligam sabe, Adorei. 🙂

    • 26 de junho de 2017 at 17:03

      Nossa Fabio, muito obrigada pelo comentário =( Só recebi umas críticas até agora. Elas foram construtivas, mas me deixaram meio na bad, hehe. É bom saber que tem algo positivo pelo menos.

  2. Willian Fernandes
    27 de junho de 2017 at 10:26

    Eu sabia!!! Eu sabia que a casa ia pegar fogo. Do momento que a água apagou o fogo eu sabia que ia dar merda… mas não fazia idéia do resto… kkkk…. muito bom. Muito bom mesmo. A estória tem um bom ritmo e é bem detalhada, e os detalhes criam o final, o que mostra que você pensou bem o conto. Gostei bastante Van. ^^

    • 27 de junho de 2017 at 11:04

      Droga! Tentei não ser óbvia, haha. =) que bom que curtiu

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