Nosso filho nonato

Meu amor, sei que é zero a chance de você ler esta carta. Não faz mal, trata-se apenas de uma conversa comigo mesma. Você é meu leitor imaginário. Fantasiar que estou falando com você me ajuda a colocar em ordem os pensamentos.

Quem sabe um dia, por simples curiosidade, você lance o meu nome (caso dele ainda se lembre) em uma máquina de busca – et voilà! Descobre este texto. “Tudo é possível neste mundo de maravilhas!” ― já dizia Dona Benta lá no Sítio do Picapau Amarelo na época em que pica-pau não tinha hífen.

Mas, voltando ao assunto, leia ou não leia tanto faz. Nada mudará no universo.

O caso é o seguinte. Estive pensando naquele ditado: “Deus escreve certo por linhas tortas”. Pensando em como isso é verdadeiro. Existem coisas que parecem ser horríveis e são mesmo, porém evitam que outras piores aconteçam.

Exemplo: quando nos separamos foi horrível (para mim), mas talvez tenha sido melhor para todos, inclusive para a sociedade. Motivo? O nosso filho. O nosso filho que não nasceu e nem ao menos foi concebido. O nosso filho nonato.

Não entendeu nada, aposto. Explicarei em detalhes.

Se tivéssemos ficado juntos certamente teríamos tido pelo menos um filho. Por duas razões. Primeira: você é muito vaidoso e tem em alta conta a sua genética. Sem dúvida ia querer um filho para perpetuar essa maravilha que sempre se considerou. Segunda: eu sou saudável e fértil. Minha ginecologista considera verdadeiras obras de arte os meus ultrassons, dada a perfeição que ela enxerga naquelas sombras informes.

O nosso filho seria muito bonito, tenho certeza. Porque você é muito bonito. Cheguei a ver suas fotos de bebê e posso dizer que nunca houve uma criança tão linda. Eu também fui bonitinha quando pequena. Não tenho provas porque todas as fotos sumiram, mas é o que dizem.

Enfim, com toda a probabilidade o nosso nonatinho seria uma graça. Herdaria os nossos olhos claros, a nossa pele boa e os seus cabelos cacheados.

Bonito, saudável, inteligente e rico. Rico sim, porque a profissão que você escolheu é muito lucrativa para quem domina a técnica e tem criatividade. E você, além de bonito, é também inteligente e criativo. Maldito seja. Tanta coisa boa em uma só pessoa chega a ser obsceno. O que te salva são os defeitos, tipo essa irritante imaturidade de criança mimada e a falta de educação que você pratica acreditando ser sofisticado. Não fosse isso, eu não te amaria. Seria apaixonada como sempre fui, mas não lhe teria amor. Quem consegue amar uma criatura perfeita?

Pois então, já que o nonatinho herdaria tanta coisa boa, qual o problema?

O problema é que ele seria psicopata. Sabe quanta infelicidade um psicopata espalha pelo mundo? Muita.

Está chocado, meu amor? Quer que eu te prove? Provarei.

Começando pela minha família. O meu avô paterno, sádico asqueroso, tinha o hábito de espancar os filhos sem motivo nenhum, só para se desestressar. Traumatizou todos e chegou ao fim da vida convicto de que havia sido um bom pai.
Ainda na linhagem paterna há vários casos de mau-caratismo. Imagine a frase: “A que horas vai terminar o enterro? Estou atrasado para um churrasco.” Essa foi proferida por um dos meus primos no velório da própria mãe. Sujeito que ganha muito dinheiro com atividades ilícitas. Não é o único no clã.
No lado materno as pessoas são emocionalmente frias. Não existe afeto entre irmãos, carinho de pais para filhos, lealdade, gratidão e coisas do gênero. Sabe as minhas fotos que sumiram? Desconfio que a minha mãe jogou todas fora. Quando ela se irrita ― o que é frequente ― faz coisas assim. Esconde objetos que sabe serem necessários, como óculos ou chaves. Ou que são sentimentalmente importantes, como presentes e lembranças. Quebra outros “por acidente”, joga fora “sem querer”… Eu poderia ficar aqui listando exemplos e mais exemplos. Além de tudo isso há casos comprovados de pedofilia e prostituição nesse ramo da minha estirpe.

Não fosse o suficiente, alcoolismo e adição a outras drogas aparecem nos dois lados.

Pra você ver, meu amor, sou portadora de genes execráveis que o pobre nonatinho acabaria recebendo em suas adoráveis e rechonchudas células.

Agora você. Que não está muito melhor do que eu, se quer saber. Não conheci muito o seu pessoal, mas sei que a sua mãe criava vinte gatos dentro de casa. Acha isso normal?
Aquela vez que você ficou semanas sem falar comigo, lembra? Não lembra? Mas foi o que aconteceu. Parou de falar comigo sem qualquer justificativa. Quando eu perguntava o que estava acontecendo (nas raras vezes em que conseguia chegar perto o suficiente para fazer perguntas) você respondia que “não era nada”. Depois que passou, veio com a história de que havia sido “apenas uma fase”.

Uma fase o caramba!

Foi quando, após reavaliar todas as suas atitudes estranhas ― muitas, aliás ― compreendi que você tinha problemas mentais. Não bastassem a imaturidade e a falta de educação, você era portador de problemas mentais.

Discorda? Então me diga como se pode considerar mentalmente sã uma pessoa que escreve longos poemas sobre si mesma qualificando-se como um ser divino e predestinado.

E os seus surtos de violência? Eram breves, tão breves que eu ingenuamente tomava como brincadeiras. Porém brincadeiras não deixam marcas roxas nos pulsos. Apertar o pescoço de alguém a ponto de interromper a sua respiração também não é nada engraçado.

Então, amor da minha vida, veja como foi bom não termos tido nenhum filho. Já pensou que estragos irreparáveis poderia fazer um jovem tão belo, tão rico e tão psicopata como ele teria sido?

Melhor que nunca tenha chegado a existir. Nonatinho está lá onde deveria estar, junto com o nosso amor: em lugar nenhum.

  10 comments for “Nosso filho nonato

  1. 5 de julho de 2017 at 09:29

    Oi Zulmira, tudo bem? Poxa, gostei muito do seu conto! Achei ele bem emotivo, deu para sentir muita empatia pelo personagem. Apesar disso, achei exagerado a personagem achar que o parceiro tinha problemas mentais só porque ele sumiu por um tempo, haha.
    Foi uma boa leitura =)

  2. 5 de julho de 2017 at 13:24

    Obrigada, Lídia! <3 Talvez eu devesse ter desenvolvido mais aquela passagem que diz: "Foi quando, após reavaliar todas as suas atitudes estranhas ― muitas, aliás ― compreendi que você tinha problemas mentais." Descrever algumas dessas "atitudes estranhas" para melhor embasar a conclusão da narradora pode ser uma boa ideia. 😉

  3. Adriana Rodriguez
    8 de julho de 2017 at 20:50

    Zulmira gostei do conto… percebi que o amor ainda está aflorado ai dentro… apesar da separação existe algo que sufoca.

    • 9 de julho de 2017 at 13:40

      Obrigada, Adriana! <3 Tenho a mesma impressão. Você sabe que os verdadeiros autores das histórias são os personagens, são eles que ditam ao escritor o que deve ser contado. Ao registrar o que essa personagem me ditou percebi que em nenhum momento ela disse que não gostava mais dele. Ela usa o verbo amar no presente. Enfim, o amor é condição necessária mas não suficiente para a convivência satisfatória. E às vezes "dá ruim"… 🙁

  4. Fabio Baptista
    10 de julho de 2017 at 17:15

    Caraca, Zulmira
    Que português impecável e que história foda. Adorei o desenvolvimento e principalmente o final.
    Sou fã dessa mulher da história!
    Bom trabalho!

    • 25 de julho de 2017 at 18:09

      Obrigada, Fábio. Fico envaidecida quando alguém gosta de um personagem meu. E elogiando o meu português, então! Ganhei o dia e a semana! 😀

  5. Will
    25 de julho de 2017 at 11:45

    Cara Zulmira, eu não sei dizer como me sinto a respeito do seu texto.
    Digo, no começo eu gostei bastante da sua forma descritiva, mas o texto foi ficando mais rápido com o passar das linhas e ao mesmo tempo mais desconexo, no sentido das várias idéias que a personagem apresenta sobre o amado. Entenda que o texto não é desconexo, na verdade, ele faz muito sentido, pensando que a personagem escreve uma carta de desabafo e essas coisas dificilmente são lineares, mas isso me causou certo desconforto… não, desconforto não é a palavra… estou desconcertado, sim, desconcertado! Admito que foi bem escrito, mas não sei descrever como me sinto a respeito dele e acho que isso é uma qualidade muito bacana num texto, então Parabéns, eu acho… rsrsrsrs

  6. 25 de julho de 2017 at 18:37

    Uau! Causar inquietação é melhor do que causar indiferença (acho eu… rsrsrs). Quando essa personagem começou a me ditar a sua história tive a impressão de que ela estava tranquila e confortável, como alguém recostado em uma poltrona segurando uma xícara de chá, olhando de longe e fazendo considerações neutras. Mas depois ela foi se empolgando e acabou até colocando as famílias no meio. Fiquei com pena. Percebi que ela estava tentando se consolar, inventando hipóteses que diminuíssem um pouco a sua infelicidade. Achei patético mas, por isso mesmo, humano. 🙂

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