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Quando Carolina chegou no bar, viu de longe Fernanda e Débora conversando animadamente. Mesmo à distância, conseguia perceber que o álcool começava a fazer seu efeito. Débs, em geral contida, ria e gesticulava bastante. Já Nanda estava com as bochechas rosadas, como sempre ficava depois de 3 ou 4 copos. Em dez anos de convivência com a primeira, 17 com a segunda – ignorando aqueles seis meses em que não se falavam na 5a série… – conhecia aquelas duas como ninguém.

Depois que terminaram a escola, passou a vê-las muito menos que gostaria. Foi quando, em seu aniversário dois meses antes, prometeram reservar um dia por mês, ao menos, para estarem juntas, só elas.

Se irritou consigo mesma: dos dois encontros, se atrasara 1 em 100% deles. Presa no trabalho, de novo. Assim passava menos tempo reunida naquele trio cheio de histórias e, embora soubesse que seria ridículo admitir, morria de inveja delas já terem conversado mais, de estarem mais próximas entre elas e ficar um tanto de lado.

Grande bobagem! Quando a viram, a alegria saltou dos olhos das duas: agora sim estavam completas. Depois da rápida justificativa do atraso, por um pepino urgente que, agora que as duas ironizavam, entendia que no fundo não faria nenhuma diferença resolver aquela pendenga na segunda-feira e, mais uma vez, prometeu que confrontaria o chefe sobre aquelas exigências absurdas – embora todas soubessem que ela não o faria.

Carolina Gomes, 25 anos, era trainee numa agência de publicidade e, embora “literalmente” tirassem seu coro, jurava amar seu trabalho.

Chegaram 3 chopes, o 6o de Débora, que era famosa no grupo por beber rápido “uma esponja!”, o 4o de Fernanda e o 1o de Carol. Quis saber o que tinha perdido e de que riam tanto. Riram então dela: não adiantava Carolina tentar disfarçar: sabiam que ela não suportava perder nada, que o ciúme que nunca tivera dos namorados sobrava todinho pras melhores amigas.

Débora falou primeiro. Tinha a notícia mais bombástica: pedira demissão e em um mês poria a mochila nas costas planejando passar ao menos 6 meses viajando pela América Latina. Carol ficou por um momento sem fala. Taí uma coisa que nunca tinha imaginado. A amiga sempre fora bem preocupada com estabilidade. Por fim perguntou “E Matias? Vai também?”. A amiga explicou que o namorado não tinha entendido muito bem tanta mudança. Foi um babaca mesmo. “Então,” – e falou isso com uma leveza que deixou as outras duas, que sempre tiveram suas diferenças com o rapaz, irradiando felicidade – “terminei com ele. Pronto, livre. 10 anos depois solteira, 8 anos depois desempregada, e não podia estar mais animada”. Contou animadamente dos planos de viagem.

Trocaram os chopes por Mojitos.

Sobre o fim do relacionamento, Carol pensou se a amiga não sentiria falta em breve do embuste. Mas agora era dar força. “Ahh que bom Débs. Leva um tempo normalmente, mas daqui a pouco você conhece alguém. Ou vários alguéns, que também não precisa se amarrar correndo, né?”.

Fernanda soltou uma risada alta. Era justo este o assunto quando Carolina chegara. Débora tinha conhecido esse cara, professor de Ioga. Chamava Gabriel, tinha uns 30 e era fantástico na cama. Uma pouco hippie, ams sabe que estava amando? Ela estava tentando não projetar nada, embora ele fosse fantástico. E lindo. “Põe aí ele no facebook pra gente ver a cara!”, pediu Fernanda. Débora contou que estava na verdade desesperada com isso. Tentou achar, mas tinham 1542 Gabriés Pereira! Bom, mas era isso, estava feliz, curtindo isso e talvez, ciumenta como era, melhor fosse não ver o face. Débora, 26 anos, ex-advogada Jr. da Maia e Robertson e, pela primeira vez em sua vida de adulta, solteira.

Fernanda contou então suas novidades. Não tinha nada tão bombástico como a amiga. Mas estava numa pesquisa incrível no trabalho. Então tinha sido promovida. Fazia inclusive questão de pagar aquele chopp. E os mojitos e o que viesse. Sempre fora a mais apertada de grana e queria agradecer a força das amigas em todos esses anos. Amorosamente? Continuava com o carinha sem facebook de quem falara na reunião anterior. Sim, Diego. Engenheiro. Jeito sério, mas divertido. Que horror que era! “Mas não vamos conhecê-lo pessoalmente então, para avaliar?”, perhuntou Débora, já altinha. “Então… ele prometeu vir hoje. Pedi que viesse mais tarde, que tínhamos que ter umas 3h juntas só nós…”.

“Hmm então tá quase!”, disse Carol olhando o relógio. Se irritou mais por ter perdido o tempinho só com as duas. Tinha algumas coisas pra contar. Não queria falar de trabalho. Nem exatamente de amor. Não tinha a menor vontade de entrar num relacionamento depois do caos que fora Rodrigo. Mas também não queria mais falar dele. Só que estava agoniada. Conhecera um cara legal há duas semanas. Não lembrava nem o nome. Sabia que era paraquedista. Ou algo assim. Estava muito bêbada. Estavam. Esqueceram da camisinha. A pílula ela não estava tomando… medo danado de trombose, botaria logo um DIU. E enquanto isso camisinha. Mas é, aquela noite, esqueceu. E a menstruação, sempre tão regulada, estava 5 dias atrasada.

 

Foi nessa hora que Fred chegou no bar. Viu aquela menina de longe: como estava linda! Pensou que precisa desfazer toda a história que inventou… mas não sabia como fazer sem perdê-la. Também era cedo pra tudo isso. Uma relação séria, ele. Será? Não se conheciam tanto assim. Hoje conheceria suas melhoress amigas. Passo importante. Vacilou por um instante. Mas respirou e andou decidido na direção dela. Foi quando viu Carol e Débora. Imediatamente deu meia volta e saiu suando pela rua.

Frederico, 32 anos, era roteirista, mas, mais que criar seus personagens no papel, gostava de inventar pessoas na vida real. Só nestes último mês fora Engenheiro civil, professor de Ioga – embora não tivesse qualquer flexibilidade – e instrutor de asa delta.

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