O bosque

 

A minha mãe não acredita quando eu falo, talvez você também não, mas eu viajo para um outro mundo quando durmo. Não to falando de sonhos, quer dizer, são sonhos porque preciso dormir para chegar lá, mas é muito real.

Começou por volta dos treze anos de idade, depois de uma viagem que fiz com a minha família para uma trilha; eles tem espírito aventureiro, então um dia me “arrastaram” para essa tal de trilha aí. O lugar era muito bonito de fato, águas azuis quase transparentes, cachoeiras e grutas que  parecem esculpidas eram o prêmio para quem conseguisse chegar ao final da trilha. Enquanto todos os adultos estavam deslumbrados com a paisagem, eu e meus primos decidimos brincar de esconde-esconde, então entrei em uma das cavernas para me esconder e acabei dormindo.

No sonho, gritava por alguém na caverna e então encontrei, tateando as paredes, uma pedra solta; fiz força, empurrei e a pedra revelou uma estreita passagem, como entrada de cachorros nas portas, entrei. A luz que entrava quase me cegou, tapei o máximo que consegui com a mão, mas era difícil; por fim, quando cheguei ao outro lado, fiquei boquiaberto com o que vi: um bosque, tinha o tamanho de uns dez campos de futebol, cercado de montanhas, árvores coloridas, brisa com aroma de caramelo, animais exóticos e lá na frente, um garoto da minha idade, com cabelo de mechas azuis e roxas e pele rosada.

Voltei correndo por onde entrei e tive um flash de como tinha chegado ali, fui até o resto da minha que já me procurava desesperadamente. Levei umas palmadas e fiquei de castigo por um bom tempo. Uns dois meses depois, estava ansioso para uma apresentação da escola e fui dormir cedo; assim que adormeci foi como se passasse por aquele túnel outra vez: tudo ao redor se transformou no bosque e eu cai no chão de barriga para cima e ali fiquei. Comecei a ser balançado de um lado para outro por aquele garoto do cabelo esquisito:

– ACORDA! – Não era português, mas eu o entendi como se fosse.

– ME SOLTA, quem é você? O que você quer?

-Hey hey, garotinho! Se acalme. Meu nome é Tip, sou um netano.

– Um o quê?

– Ne-ta-no. Assim chamamos os que tem pele rosada por aqui.

– Ah, existem mais! – soltei um riso.

-Sim e não entendi a graça! – disse um pouco irritado.

– O que eu tô fazendo aqui?

– Se você não sabe, muito menos eu! – debochou – mas acho que posso te ajudar com isso, por aqui. – apontou a trilha a direita e seguimos – Se você caiu aqui, provavelmente tem alguma missão a cumprir. Se for isso, o oráculo vai poder dizer.

Entramos em uma caverna na base de uma das montanhas, lá dentro as paredes eram de pedras coloridas e havia concentrações de água, sendo que na última e maior delas, havia um polvo que tinha três vezes o tamanho do meu pai, tão colorido quanto as paredes, mas com olhos negros e profundos e pele cheia de cicatrizes em alto-relevo. Quando entramos, a coisa abriu os olhos e pediu com um barulho alto, que consegui entender:

– A senha?

– Macieira. – respondeu Tip.

– Muito bem! Entre na água.

– É com você garoto – Tip disse olhando para mim.

-Eu não vou entrar na água com essa coisa – disse assutado.

Oráculo se zangou e começou a fazer barulhos cada vez mais altos, até que Tip me empurrou pra dentro d’água. Fora o barulho que eu fiz pra emergir, tudo estava em silêncio; Tip parecia paralizado e a criatura agora era completamente preta e começou a falar, agora na minha língua:

– Ora ora, saudações jovem Bartho.

– Como vocÊ sabe meu nome?

– Você é uma lenda por aqui. Não achei que o veria tão cedo, jovem criança. Digamos que essas terras precisam da sua ajuda, da ajuda de um coração bom, porque quando Aquele se levantar, não haverá mais circulação e nem ar pra respirar; eles só tem você. Que a mãe natureza te ajude, filho.

– Mas o quê??? – e antes que eu terminasse, tudo voltou as cores a minha volta e Tip se mexia de novo.

– E então, que foi que falou? – perguntou

– Algo sobre ar e circulação e… Aquele??

– AQUELE? – gritou espantado e logo em seguida tapou a boca como se tivesse falado um palavrão.

– É alguma coisa assim, por que?

– Dizem que vive no vulcão. É uma criatura extremamente mágica e instável; dizem que tem a força de dois deuses e que é maior que as colinas. Mas nossa geração nunca o viu, só sabemos dos relatos dos antepassados.

– EU VOU DAR É O FORA DAQUI, CHEGA DESSA LOUCURA!

Saí correndo e voltei para onde seria o túnel para o mundo real, mas ele estava bloqueado. Bati na parede com toda força que tinha, na esperança de abrir e de repente estava de volta na minha cama. Porém não era meu quarto, em volta da minha cama, o que costumava ser minha casa, agora era um monte de entulho e preso à cabeceira da cama estava o avental da minha mãe e um bilhete escrito com carvão:

 

“Volte a dormir”.

  4 comments for “O bosque

  1. 13 de junho de 2017 at 20:06

    Eeeeita, alguém também estava inspirado, hahaha. Poxa, Fábio, meus parabéns! De longe você foi o que mais evoluiu aqui, cara. Teu texto ta muito bom é a história ta bem construída. Acho que eu só desmembraria algumas frases que possuem muitas vírgulas e colocaria alguns pontosx porque parece ficar muito corrido, mas adorei a história. Parece até que tu tava jogando RPG

    • Fabio Baptista
      14 de junho de 2017 at 09:52

      Oi May!
      Muito obrigado! haha 🙂

  2. Will
    14 de junho de 2017 at 14:00

    Meu comentário não vai ser tão efusivo como o da May, mas ainda assim vou comentar.
    Eu achei o começo do texto e o final do primeiro sonho meio confusos . Não sei se foi intencional, para já brincar com a ideia dos sonhos, mas eu fiquei meio perdido. Entretanto tudo foi esquecido quando cheguei ao final. Que final é esse??? Excelente encerramento na minha opinião mas se vc não me contar o resto da história perde um amigo… kkkkk… Parabéns.

  3. Lucas Suzigan Nachtigall
    24 de junho de 2017 at 13:09

    Cara, que conto gostoso de ler. Meus parabéns! Me prendeu a atenção e foi me levando pela história naquele clima nostálgico de década de 90. O final foi muito bom. Gostei muito.

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