O cheiro da cidade

                Enquanto o barco cruzava o Rio Prata ele apenas alimentava as lembranças, dois anos atrás estivera ali e havia sido a melhor semana da sua vida. Que vontade de andar todas aquelas ruas novamente, que vontade de ver os prédios coloniais e sentir gostos e sabores únicos. Mas deveria ter calma, ainda faltavam 2 horas de viagem à barco.

A primeira vez que pisou naquela cidade estava nervoso, era a primeira vez que viajava sozinho. Chegou em seu albergue ainda assustado, era tarde já, deitou na cama e não conseguiu dormir, estava ansioso, queria correr a cidade logo. Apesar de toda a ansiedade conseguiu pegar no sono e descansar um pouco.

O albergue era uma grande construção colonial, bem no centro do bairro mais boêmio da cidade. Suas portas e janelas tinham proporções colossais e os quartos em sua maioria eram compartilhados. Por sorte, ou por falta de atenção, o dele era sozinho. Uma cama antiga, de madeira maciça e um espelho com uma moldura de madeira com um acabamento artesanal fantástico. Havia uma sacada só para ele, durante aquela madrugada ele levantava, abria a porta, checava as ruas, sentia o vento e o cheiro da cidade e voltava a tentar dormir.

Ao acordar cedo tomou um banho e partiu. Nunca havia sentido um frio tão intenso, o vento cortava seu rosto e suas roupas não eram próprias para aquele clima, isso lhe custava dores nos ossos. Apesar de todo o revés possível ele estava animado. O primeiro dia caminhou sozinho até cansar, subiu e desceu a capital, tirou fotos e experimentou comidas distintas. Já no fim da tarde voltou para o albergue, um banho quente o ajudaria a prosseguir.

Lá chegando encontrou alguém e fez amizade, depois de umas cervejas decidiram ir para um pub, e assim mais pessoas no albergue aderiram ao grupo, todos foram se divertir. O pub tinha um estilo inglês e estava cheio, taças de chopp e muita música. No fundo havia uma área para fumantes onde passou o tempo conversando e bebendo, a coisa ia tão bem que nem viu que a madrugada acelerou de forma incrível e já era quase hora de fechar as portas, resolveram ir para outro pub, indicação de um alemão maluco que conheceram.

O próximo pub estava eufórico, os sons vinham de todos os lados, ele já bêbado não entendia quase nada, apenas mandava mais uma cerveja para dentro. Conversou com pessoas locais e compartilhou até a comida de um outro bêbado. Se perdeu de seus ricem conhecidos e perdido ficou na noite, sempre a tomar uma cerveja. Lá pelas cinco da manhã resolveu voltar para o albergue, hora de dormir.

Subir a rua sozinho foi muito difícil, mas com muito esforço ele chegou na recepção, pegou a chave do quarto, subiu e dormiu como uma pedra. Acordou com pancadas na porta, e gritos por um apelido que ganhara na noite anterior, levantou assustado e era um dos novos amigos o chamando para o café da manhã.

O próximo dia foi frenético, novos amigos, todos turistas descobrindo uma nova cidade. Sorrisos e piadas, fatos em comum, pessoas novas, ruas novas, um mundo novo. Havia um festival colombiano, com música, comida e dança, todos se divertiram. Havia uma feira gigantesca, com comida, roupas e souvenires, e apesar do frio insuportável todos caminharam calmamente entre as barracas e transeuntes.

E muitos outros fatos aconteceram naquela semana, como por exemplo conhecer um padre que tinha um carro e oferecia uma carona para um passeio de barco no rio mais bonito daquele país. O acaso estava do seu lado e ele aproveitava cada minuto de suas novas experiencias, sempre de bom humor e um sorriso estampado no rosto.

Ele sonhou com tudo isso enquanto o barco se aproximava do porto, foi acordado por um funcionário, lá estava ele novamente, aquela cidade, aquelas ruas. Desceu animado, já engatou na subida rumo a seu novo albergue, infelizmente o da última vez não estava disponível. E foi caminhando, ao longo da avenida notou que não parecia mais a mesma coisa, menos pessoas, menos sorrisos, menos alegria.

A progressão das ruas foi trazendo monotonia e desânimo, ele subia o bairro até seu destino e não sentia o ânimo do passado. Entrou na recepção e tudo só piorou, o lugar nem se comparava ao romântico albergue da última vez. Coisas velhas e mal cuidadas além de descaso dos funcionários o fizeram desejar não estar ali, ao menos não naquele albergue. Decidiu sair e ver a rua, quem sabe se animaria.

Foi passear, e nada era como um dia foi. Tudo tão monótono, tudo tão parado. Andou o dia inteiro, não porque queria conhecer a cidade, pois já a conhecia, mas sim buscando aquele sentimento, aquele sorriso frouxo e largo de outra época, mas não o pode encontrar. Os dias se arrastaram na capital, tentou visitar lugares diferentes da última vez, mas mesmo assim seus dias não foram tão felizes, mal podia esperar para voltar para casa logo.

  3 comments for “O cheiro da cidade

  1. Will
    18 de agosto de 2017 at 12:12

    Achei que faltou algo, se me permite dizer. O texto tem ritmo, especialmente quando o personagem estava feliz, dá vontade de continuar lendo e passar por cima de um ou dois detalhes, mas o final ficou, ao meu ver, sem um porque, entende? Talvez se houvesse um tudo se encaixaria melhor, não sei.

  2. 28 de agosto de 2017 at 12:29

    Oi Wallace, tudo bom? Desculpe pela demora. Havia lido o conto há muito tempo, mas só agora consegui um tempinho para comentar.
    Concordo com o Willian. O começo do conto teve um ritmo bem legal, mas depois perdeu a graça. O final pareceu ficar sem sentido. Não sei se foi intencional, mas se foi, não pareceu. Ficou com a impressão de que o autor não sabia o que fazer com a história e quis terminar rápido.
    Não digo que as histórias não possam terminar com finais abertos. Mas acredito que poderia ser melhor elaborada.

  3. 28 de agosto de 2017 at 21:10

    Eu gostei do conto e na minha opinião só faltou uma finalização, que poderia ser uma reflexão do protagonista sobre os motivos de ele se sentir tão diferente em comparação com a primeira vez. Por exemplo, por não ter encontrado as mesmas pessoas, ou porque o ambiente da cidade estava depressivo devido a problemas locais, ou porque ele mesmo viera carregando preocupações que não tinha na ocasião da primeira visita. Lembrei agora do romance “A luneta mágica” do Joaquim Manuel de Macedo, em que o protagonista via o mundo — ou terrível ou maravilhoso — de acordo com os poderes dos óculos mágicos que usava. Talvez a cidade não estivesse diferente, mas o visitante sim, e seria interessante vê-lo divagar sobre isso.

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