O Dia em que Felisberta não morreu

Diana ganhou Felisberta quando fez seis anos. Não era bem o que tinha pedido: a menina queria mesmo um cachorro como seu primo Vitor; um gato, como a coleguinha Julia; ou servia um hamster como o vizinho Cadu. Mas a mãe tinha pavor de cachorro por uma mordida no queixo, de gato por um arranhão nas costas, e de ratos, hmmm, simplesmente por serem ratos. Além disso, era alérgica que só ela. Sabia que não poderia ceder, mas nem por isso deixava de ficar com o coração partido ao sentir a mágoa da filha, nem um pouco sensível à sua condição. Por que SÓ ELA não tinha um bichinho de estimação? – repetia Diana aos prantos pela casa. Foi depois de três horas consecutivas ouvindo a ladainha da sobrinha que tia Ruth pensou em Felisberta como solução. Não era gato, hamster nem cachorro. Mas se enquadrava no categoria bichinho. Ou bichão. Enfim, poderia servir.

Se a sugestão tivesse vindo na primeira vez que Diana mencionou seu desejo, Tereza teria recusado. Era só uma pirraça, não duraria muito. Ela precisava aprender a ouvir não. Mas já eram quase dois meses de pentelhação e ela o marido já beiravam a loucura… Tinham oferecido patins, boneca que falava 100 frases e até um videogame igual do primo André. Levaram à praia, ao jardim botânico e ao parque. Mas ela manteve a cara amarrada. Estava irredutível.

Felisberta havia sido herdada involuntariamente por Ruth um ano antes, quando falecera sua vizinha de frente na vila. Eram bastante amigas e os filhos de dona Odete fizeram questão que a ave ficasse com Ruth. “Mamãe ficaria tão feliz!!”, diziam com a voz (forçadamente?) embargada. Desconfiava que aquela gentileza nada mais era do que uma forma de se livrarem do animal sem serem julgados, tamanho era o carinho da mãe por Felisberta, mas Ruth não teve como dizer não. Também, como criariam uma ave daquele tamanho no apartamentos minúsculos da Zona Sul em que preferiram morar?! Era o melhor mesmo: de tantas tardes jogando conversa fora com dona Odete, já sabia todos os detalhes da criação da bichana. E era tão linda! Se deu conta que realmente sentiria falta se os herdeiros legais a houvessem levado.

Logo que Diana viu seu presente, pôs uma tromba enorme. Que graça tinha passarinho?! “Mas Felisberta não é um passarinho”, se apressou em dizer Ruth. “E o que é?”, perguntou Diana. Os adultos se entreolharam. Afinal, o que era Felisberta? Ainda que gaguejasse, foi o pai que respondeu: “É uma… uma águia”.

Não demorou para que a menina esquecesse toda a birra e se encantasse pela ave. Não conhecia ninguém que tivesse uma ÁGUIA! Não podia esperar para contar pra todo mundo! E não era uma águia qualquer: Felisberta tinha penas brilhantes e era dourada e vermelha, suas cores preferidas! Seriam melhores amigas, concluiu.

Tereza e Saulo mal acreditavam na felicidade da menina! Não sabiam nem como agradecer a Ruth. Não precisava. A tia sentiria falta de seus papos com Felisberta – a ave substituíra D. Odete nas aos fins de tarde, embora bem mais calada que a amiga -, mas ver a sobrinha daquela forma, compensava. Antes de voltar pra casa, passou as instruções de cuidados, fez um afago em Felisberta, um cafuné em Diana e prometeu que viria logo visitá-la. Não se sabe se falava com a sobrinha ou com a ave.  

Todos os dias quando chegava da aula, Diana sentava no quintal e ficava horas a fio com Felisberta. A mãe olhava de longe, encantada. A ave dava piruetas, animada. A filha tagarelava, como de costume. Por várias vezes abraçava os pais e lhes dava beijos babados, agradecendo o melhor presente da vida. Levara os amiguinhos pra conhecerem Se divertiram todos juntos, mas por fim preferia quando ficavam só as duas. Diana invejava a capacidade de voar da amiga e a confessava ao pé do ouvido. Felisberta não podia contar, mas tudo o que queria era poder falar.

Já se iam três anos de convivência, quando Diana chegou saltitante em casa naquela tarde de fevereiro. Não podia esperar pra mostrar pra Felisberta o desenho que tinha feito das duas na aula de artes. Mas a amiga não a recebeu como de costume. A menina chamou, chamou e por fim encontrou a ave cabisbaixa, atrás do canteiro. Parecia até menos colorida. Entrou gritando em casa. Tereza ligou pra Ruth: nunca vira Felisberta assim. Correu pra casa da irmã, com um veterinário a tiracolo.

Humberto examinou-a. Clinicamente parecia bem. Mas afinal, que ave era aquela? Nunca vira igual. “Uma águia, oras”, respondeu Tereza preocupada e impaciente. Cochichou com a irmã: aquele veterinário parecia novo demais. Capaz nem formado fosse. Sequer podia reconhecer uma águia! Ruth ignorou: conhecia bem a irmã, gostava mesmo era de reclamar. Humberto nem escutou. Seguia encucado com a ave: podia até lembrar, mas não achava que fosse uma águia. Tirou algumas fotos, colheu material para análise laboratorial e pediu que observassem bem a águia e lhe relatassem tudo. “Quantos anos tem Felisberta?”, perguntou por último, enquanto preenchia a ficha da paciente. Houve um momento de silêncio. Ruth fazia contas. “Hmm pelas histórias de Dona Odete, ao menos cinquenta.”. “Cinquenta?!”, assustou-se Humberto. Não havia espécie de águia que vivesse tanto. “Mas já era crescida quando chegou ao sítio. Ninguém sabia de onde tinha surgido, muito menos a idade…”, completou Ruth.

Diana chorou muito a noite toda. Na manhã seguinte não foi à aula: não se sentia bem. Tereza e Saulo não costumavam dar moleza com escola, mas nunca tinham visto a filha tão tristonha. Pediram pra vizinha que a olhasse, deixaram estrogonofe pronto – a comida preferida da Didica deles – e saíram com o coração na mão.

Felisberta seguia estranha, mas não tão fraca quanto na véspera. Estava na verdade mais ativa que nunca. Voava pra um canto e outro, construindo no alto da grade algo parecido com um ninho. Quando viu que Diana a observava, quieta como nunca, interrompeu a atividade e pousou ao seu lado. Os olhos da menina estava inchados e as lágrimas ainda molhavam seu rosto. Felisberta abraçou a amiga com suas asas. Não podia ir sem realizar o maior sonho de Diana. Enfiou-se como pôde por baixo das pernas da menina, que primeiro se assustou: ela já estava pesadinha, o pai sempre lhe falava quando pedia colo. Mas Felisberta era impressionantemente forte e a tirou do chão como pluma. Realizou então também seu próprio sonho e, no dia em que Diana voou, Felisberta falou. Enquanto sobrevoavam a cidade, contou pra menina toda a sua história e que longa que era! Não sabia contar os anos como os humanos, então não soube dizer certinho, mas garantiu ter visto as caravelas dos portugueses atracando.

A menina se divertia como nunca! Que bom que não ganhara um cachorrinho, pensou. Fazia o esforço para guardar tudinho na memória: Felisberta já lhe havia dito que precisava manter segredo. E na verdade nem precisava pedir. Diana sabia que aquilo era uma coisa só delas duas.

Pousaram no exato momento em que dona Fabiana chamava Diana aos gritos para o almoço. A menina pediu um instantinho. As lágrimas iam substituindo o sorrisão: sabia que era uma despedida. Felisberta precisava ir, já perdia novamente a força. Fez um último afago na pequena e sussurrou pra ela seu verdadeiro nome.

Foi tão belo o espetáculo quando a ave sumiu por entre as chamas, que o choro cessou e, com as cinzas, renasceu seu sorriso.

Os pais se preocuparam ao não verem Felisberta empoleirada quando entraram no quintal. Mas se surpreenderam mesmo foi com a filha saindo aos saltos de dentro da casa, com um sorrisão de orelha a orelha. Antes que pudessem perguntar qualquer coisa, a filha lhes apresentou seu novo bichinho: uma pequena “águia” que vinha voando atrás dela, tão colorida que trazia consigo todas as cores do arco-íris. Fénix seria seu nome.   

  4 comments for “O Dia em que Felisberta não morreu

  1. 4 de outubro de 2017 at 15:23

    O que mais me impressionou neste conto foi a criatividade. Que ideia incrível! Parabéns. 🙂

    • Raquel
      6 de outubro de 2017 at 17:58

      Obrigada Zulmira!

  2. Will
    6 de outubro de 2017 at 00:59

    Simplesmente adorei o titulo. A ideia também é muito boa. Tem uma pegada infantil que deixa a leitura mais gostosa… Um bom trabalho. Tem uns dois trechos que acho que acabaram saindo algumas palavras a mais, vale a pena dar uma olhada depois, mas gostei bastante!

    • Raquel
      6 de outubro de 2017 at 17:57

      Obrigada Will!
      Vou fazer uma revisão! Fiquei feliz com o título também. Costumo ter dificuldade pra encontrar, mas este foi um conto que comecei pelo nome 🙂

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