O homem do terno preto

[TRIGGER WARNING]
O conto abaixo contém cenas que podem despertar desconforto e/ou outras fortes emoções latentes.

Luíza estava com os braços em volta de si mesma. Ela estava com frio e estava sozinha, mas acima de tudo, Luíza estava com sono, e era por isso que sorria. Luíza sorria porque sabia que iria vê-lo, e foi pensando nele que fechou seus olhos.
Luíza sentiu, mais do que viu, o branco do quarto se dissolver ao redor dela. Lentamente outras formas tomaram corpo. Primeiro os braços. Aqueles braços longos e esguios que ela aprendera a gostar tanto. Depois o corpo, também esguio, envolto em um terno preto impecável. Por fim o rosto, ou o lugar que deveria haver um rosto, mas que, no caso dele, era apenas uma forma indefinida, lisa, branca, mas profundamente expressiva para quem soubesse como olhar.
– Eu senti saudades.
A cabeça branca se inclinou para o lado. Ela estendeu seu braço na direção do homem de terno que replicou o gesto, e então, entrelaçando seus dedos eles começaram a andar e, enquanto andavam, mais e mais o quarto abandonava aquele branco sem vida e começava a tomar forma em torno deles.
– Sabe, eles não me entendem como você. As pessoas lá fora.
O homem de terno continuou calado. A sua volta agora existia um quarto. O quarto de Luíza. Não o quarto onde ela dormia agora, mas o quarto de quando ela era pequena. O seu primeiro quarto. Paredes rosas contrastavam com o homem de terno quando ela soltou sua mão e se atirou na cama.
– Você se lembra desse quarto? Foi aqui que eu te vi pela primeira vez. Você ficava parado ai, assim como esta agora. Me observando. Me vendo dormir. No começo foi bem assustador, é verdade, mas depois…
Ela não terminou a frase. O homem de terno preto começou a andar pelo quarto e Luíza começou a segui-lo. Ele agora segurava uma pequena caixinha de musica, de aparência bem antiga. As paredes começaram a parecer borradas. Provavelmente aquilo era só uma impressão. Seus olhos estavam pesados e ela os esfregou, forçando o sono a ir embora e deixa-la aproveitar um pouco mais de seu tempo com ele.
-… Depois você apareceu de novo. E de novo. E foi assim que eu descobri que você gostava de mim. Foi assim que eu descobri que eu gostava de você. Você era o único que prestava atenção. O único que me olhava. Que me via.
A caixinha emitiu um som metálico e finalmente começou a tocar. O homem de terno a deixou sob a comoda e começou, muito lentamente a se aproximar da cama. Agora não só as paredes, como também os quadros perdiam definição mais rapidamente. A musica incomodava Luíza. Aos poucos, pequenos animais começaram a sair de debaixo de sua cama. Alguns sem olhos, outros com as bocas costuradas. Alguns com mutilações maiores.
– Você se lembra deles? Se lembra dos nossos filhos de mentirinha? Ah, não me olhe assim. Você sabe que eu queria ter filhos de verdade com você, mas eu era muito nova. Naquela época eu só podia fazer aquilo com uma pessoa.
O homem de terno continuava chegando perto de Luíza. A menina agora começava a tremer. Ele estava indo embora. Embora estivesse se aproximando, ele estava indo embora. E quando o homem de terno ia embora coisas ruins aconteciam. As paredes ainda estavam borradas, mas ela conseguia ver as manchas vermelhas.
– Já pedi para não me olhar assim. Eu… eu não tinha opção. Eu falei com ela, mas ela não acreditava em você. Ela apenas se preocupava com os malditos bichos. Ela não me ouvia quando eu contava a verdade sobre ele até que…
Luíza sentiu a cama crescer embaixo de seu corpo. Sentiu o tecido ficando úmido. Sentiu o sangue em seu corpo. O homem de terno se parecia cada vez mais com… ele. Os animais mortos se reunião a seus pés.
– Não meu amor. Não me deixe. Não de novo. – gritou desesperada.
Luíza percebeu que chorava. Apertou forte os olhos e esfregou as mãos no rosto tentando se livrar das lágrimas.
– O que foi Luíza? – soou uma voz rouca.
Ela não precisou abrir os olhos. Ela conhecia aquela parte de cor. Ainda assim, era como se ela visse, mesmo pelos olhos fechados, os animais mortos chegando mais perto. Ela sentia o corpo dele se aproximando. O cheiro do álcool. O homem de terno tinha ido embora. Luíza pensou no que aconteceria a seguir e tremeu. Pensou em depois. Pensou nos padres que iriam julga-la. Pensou nos médicos que iriam dopa-la. Pensou em todas as consequências. E então ela sentiu o toque. Ela sentiu a mão que segurava seu tornozelo e começava a subir por sua perna tremula.
– Shhhh Luzinha… Você sabe que meninas grandes não choram não é?
Luíza desviava o rosto mas não conseguia evitar que os lábios dele tocassem suas lágrimas. Esticou uma das mãos e sentiu o metal frio da tesoura de costura da mãe. Sentiu seus dedos segurando-a com força. Tremeu. Fodam-se as consequências. Luíza sussurrou
– Sei sim… papai.

Luíza estava com os braços em volta de si mesma. Ela estava com frio mas não estava sozinha. No canto do quarto branco acolchoado havia um homem alto, de braços esguios vestindo um terno preto. Um homem sem rosto que observava enquanto Luíza gargalhava e gritava.

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  5 comments for “O homem do terno preto

  1. VANESSA MAYUMI SATSUMA
    23 de junho de 2017 at 20:02

    Pesadaaaaao. E mamilos. Tipo, será que isso se encaixaria como estupro nas regras? Porque não é una apologia. Eu considero uma crítica. Tipo violência contra mulher no entretenimento. Alguns dizem que mostrar incentiva, mas não mostra e não é cegar? Tantantammmm

  2. Lucas Suzigan Nachtigall
    24 de junho de 2017 at 02:45

    Comentando e respondendo o comentário da Will/May/Vanessa:
    Puts. Gostei pra caramba. Cara, que ideia daora. Bem dosada e desenvolvida. Só tenho uma crítica leve: alguns detalhezinhos do português, em especial as vírgulas e acentos, que poderiam deixar o texto um pouco mais fluído. Mas meu, você tá de parabéns. Depois do segundo parágrafo, o conto me prendeu atenção e a curiosidade.
    Sobre o comentário da Vanessa/Will/May/Ela ali: Entendi seu raciocínio e sua questão. Acho que o conto dele não se enquadra. A cena não está exatamente explícita, mas muito dela está implícita no desenvolvimento do conto. É do tipo ” pesado”, mas não do tipo “conto erótico”. Acho que poderíamos deixar um aviso (como o que ele escreveu ali em cima) avisando de cenas pesadas, mas não vejo necessidade de removê-lo do site, sendo que não há exatamente uma cena explícita de sexo (mas sim referências à). Podíamos fazer um selo “+16” ou algo assim… O que viria a calhar quando o tema “Morte no Elevador” fosse escolhido, umas vez que invariavelmente haverão mortes, possivelmente de formas pesadas.

    • 24 de junho de 2017 at 02:49

      Ah, sim, claro, não quis dizer que vou tirar do site. Só estou falando que existem pessoas muito sensíveis que considerariam esse tema um taboo, entende? rs

      • Lucas Suzigan Nachtigall
        24 de junho de 2017 at 02:50

        Por isso eu comentei: a gente podia fazer um “selo” pra esse tipo de coisa, pra ficar mais claro que o conto é mais pesado e deveria ser lido com certa discrição.

  3. Fabio Baptista
    26 de junho de 2017 at 16:36

    Meeeeu que medo que me deu!!!
    Adoro ficar com essa “indignação” gostosa com o final dos contos!
    Show, man! 🙂

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