O livro maldito

Há meses venho lendo esse livro. Eu não tenho certeza de como ele veio parar em minhas mãos, ou mesmo quem o escreveu e quando. Seu conteúdo é macabro, abominável e repulsivo. Mas agora, em meu atual estado, acho que nele pode estar a minha única salvação.

Tudo o que eu sei é que sofro de uma grave enfermidade. Sinto fortes dores no meu peito e na minha cabeça, e minha visão turva, enquanto eu sinto tonturas e muita fraqueza. Os médicos, mesmo os melhores da região, não conseguiam descobrir a causa da doença ou como curá-la. Tentei vários tratamentos diferentes, mas a doença não aprecia ceder. E enquanto ia de médico em médico, minhas esperanças aos poucos iam se acabando.

Com o fracasso dos médicos, tentei conseguir uma cura por mim mesmo. Comecei a procurar em livros as respostas que os médicos não encontravam. Eu sentia a doença progredindo, e meu desespero me fez mergulhar mais fundo nos livros. E gradualmente fui me isolando do mundo, me dedicando cada vez mais ao meu misterioso enigma. Afastei-me de meus amigos, um por um, e aos poucos minha família começou a me deixar de lado.

Quando dei por mim, passava dias inteiros numa grande biblioteca próxima, onde empregados contratados pelos meus familiares me traziam comida. Às vezes até mesmo dormia lá, passando dias inteiros seguidos sem ver diretamente a luz do Sol, enquanto minhas dores pareciam aumentar. Tornei-me um conhecedor de muitas ciências naturais e da medicina convencional, mas minhas perguntas não pareciam ser respondidas por esses conhecimentos.

E, dos livros convencionais, que pouco ou nada podiam ajudar a me aliviar desse mal que eu trazia comigo, comecei a procurar alternativas não convencionais. De medicinas alternativas, passei a ler também livros sobre artes proibidas, na ânsia de encontrar alguma resposta para o meu problema. Lia com afinco, livro após livro, dia e noite, buscando por respostas. Pedia dinheiro à minha família para que a biblioteca adquirisse mais exemplares, que eu devorava prontamente.

Mas, por mais fundo que eu fosse, eu simplesmente não conseguia encontrar as respostas que eu estava procurando. Até que eu encontrei o livro.

Não consigo explicar como eu cheguei até ele, se é que cheguei. Às vezes penso que, na verdade, ele veio até mim. Minha lembrança mais antiga e lúcida sobre ele é ter acordado um dia, na biblioteca (havia mandado instalar lá minha cama e escrivaninha), e lá estava ele, em cima das minhas coisas! Está lá, de capa dura (couro) e escura e aparência muito antiga, escrito à mão em um dialeto um pouco antigo.

Isso despertou minha curiosidade. Logo comecei a tentar decifrar o conteúdo do misterioso livro. A princípio, foi um pouco difícil: o autor (anônimo, por sinal) escrevia de uma forma muito errática, variando formas de escrita, tempos verbais, conceitos,… Tudo variava e se alternava, erraticamente quase. Era como se fossem vários autores e um ao mesmo tempo. Mas, depois de certo tempo decifrando aquele livro (uma semana ou duas, creio) comecei a me acostumar com aquela escrita, e tive a oportunidade de apreender seu conteúdo. Foi quando tudo mudou de figura.

O livro parecia tratar sobre assuntos arcanos. Magia. Mas de uma forma muito diferente do que eu jamais havia visto. Usava algumas fórmulas complexas, que pareciam ter sido escritas usando alguma lógica que me era totalmente incognoscível. Falava sobre a alteração de estados de consciência, manipulação de memórias, sustentação do corpo pela vontade, se eu entendi corretamente, alguma noção de viagem entre mundos por meio da projeção da vontade (de uma forma muito diferente da projeção astral, que eu já havia lido em alguns livros). Ao mesmo tempo, falava sobre a degeneração da mente na busca de estados mais “perfeitos” de existência, sobre a imposição (ou “corrupção”, como trata o livro) de uma consciência mais poderosa e “perfeita” sobre as outras, destruindo sua individualidade em prol de, se eu entendi corretamente, uma forma mais plena de compreensão da realidade.

Aquilo tudo era perturbador, e sua mera existência era ofensiva a tudo de bom e decente. Aquilo não era como os livros de magia que eu havia lido, inofensivos e um pouco ingênuos demais. Era uma proposta real de como corromper a nossa realidade para criar uma nova percepção, doentia e perturbada, desse mundo.

Mas, por mais repulsivo que fosse aquele livro, eu não consegui parar de ler. Por algum motivo, enquanto eu tentava decifrá-lo, eu senti uma intuição sombria de que devia continuar naquele trabalho. E, quando comecei a ler seu conteúdo, senti minhas dores se distanciando. Não conseguia explicar. Eu sentia meu corpo ficando cada vez mais fraco, mas as dores pareciam adormecer e ceder diante da leitura do livro. E isso me fez continuar a leitura com cada vez mais afinco.

Acho que minhas hipóteses iniciais estavam incorretas. Após boa parte do livro decifrado e compreendido, eu estou reavaliando. Não eram vários autores. Era uma mente só. Uma só mente, talvez fragmentada pelo peso do conhecimento que carregava. Uma mente ao mesmo tempo insana e, talvez, mais lúcida do que qualquer outra que haja viva nesse mundo. E uma mente que passou pela mesma angústia que agora passo.

Agora, eu cheguei a um impasse. Estou terminando de decifrar a fórmula. Mas, para isso, eu preciso traduzir e compreender a chave da mesma. Se eu entendi certo, trata-se uma palavra. Uma palavra cuja compreensão bastará para que todas as promessas do livro se cumpram. Uma palavra que destruirá o mundo como nós conhecemos, e trará uma nova era, a partir de uma compreensão mais profunda e sombria. Uma palavra que poderá me livrar da prisão de meu corpo cada vez mais decrépito rumo à transcendência, mas que poderá, no processo, destruir tudo o que existe. Uma palavra para me salvar. Uma palavra, um novo mundo, uma nova realidade.

Há três dias eu penso nisso. Não durmo a noite, e cada dia como menos. E a cada dia a angústia dessa escolha me consome. Sinto minha doença lentamente fazendo seu caminho de volta, e que talvez eu não consiga resistir muito mais.

O que faço? O devo fazer? Qual caminho escolher?

O que você teria feito em meu lugar?

  3 comments for “O livro maldito

  1. 3 de julho de 2017 at 19:01

    Curti! Falta um pouco de revisão, mas acho que o principal é a ideia. O conto tem a sua cara. Ficou um pouco parecido com aquele primeiro que você me passou, mas não vi problema. Achei os dois bons, e esse se encaixou bem no tema.

  2. Fabio Baptista
    10 de julho de 2017 at 17:07

    Achei o caminho lógico bem diferente, curti bastante.
    Respondendo a pergunta: eu já tava na merda, teria continuado kkkk
    Bom trabalho!

  3. Will
    25 de julho de 2017 at 11:27

    Achei o ritmo interessante, mas meio complicado, e repetitivo em alguns termos. A ideia é muito boa, mas podia ter tido uma revisão mais caprichada, eu acho…

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