O quadro

Carolina desceu da van escolar e correu pelo gramado bem aparado até chegar em casa. Abriu a grande porta de carvalho, se virou para a rua acenando para o motorista e entrou. Ela gostava muito de sua escola, dos colegas e do tio Gu, o motorista da van, mas nada, nada mesmo, superava chegar em casa. Ali era o seu refugio. Seu palácio de princesa onde todos os dias sua mãe, a rainha, lhe contava histórias, onde de noite ela se encontrava com o rei e juntos tinham um belo jantar e, mesmo sabendo que não era realmente uma princesa, era difícil não se sentir como uma quando se morava num lugar que parecia ter saído dos contos de fada. Ali sua vida era mágica. Ali sua vida era segura.
– Mamãe, cheguei!
A pequena princesa de cabelos loiros cacheados esperou a resposta da mãe enquanto passava pela sala de estar. Ela chamou pela mãe mais uma vez, um pouco mais alto, mas ainda assim a resposta não veio. Carolina correu para a cozinha onde geralmente encontrava a mãe/rainha, mas ela também não estava ali. A menina então olhou para fora. Pela janela de vidro vislumbrou boa parte do bosque que havia dentro do condomínio fechado. Nada. Olhou em volta mais uma vez e decidiu continuar procurando. Quem sabe ela não teria se escondido como parte de um jogo? Afinal, sempre tinha alguém em casa.
Lentamente a menina começou a percorrer os corredores da casa. Queria agora inverter o jogo e pegar a mãe de surpresa; ia dar um susto tão grande nela que ela nunca mais ia se esconder. Carolina procurou no banheiro e na lavanderia e nada de encontra-la. Ela estava chegando perto. Sabia disso porque agora só faltava o andar de cima onde a mãe tinha que estar. Ela então subiu as escadas e antes de virar em direção aos quartos notou uma coisa diferente. Algo que a principio não chamaria a atenção de uma pessoa comum, mas para a pequena princesa era extraordinário. A porta do escritório do pai, ou como ela gostava de chamar, a toca do dragão, estava aberta. Ela sabia que não tinha autorização para entrar lá, mas não era sua culpa que a mãe podia estar escondida lá dentro, no meio dos tesouros do pai e, além do mas, a porta estava aberta.
Se aproximando com mais cuidado ainda, Carolina entrou no escritório. Era obvio, até para ela, que não havia ninguém ali, mas como ela poderia ter certeza – disse para si mesma – se não procurasse em TODOS os lugares. A menina então procurou embaixo da mesa e entre os livros sem figuras escritos em línguas que ela ainda não entendia. Procurou atrás da poltrona do pai e então no pequeno lavabo. Quando ela voltou do lavabo para o pequeno escritório Carolina tomou um susto tão grande que não teve como não gritar. O pai dela estava ali.
– Carol? Filha?
– Papai?
– Olá princesinha – respondeu o pai se virando. – Tudo bem com você?
– Tudo… Tudo sim papai – respondeu a menina com receio de estar encrencada.
– Posso saber o que a senhorita está fazendo no meu escritório?
– Eu… eu tava procurando a mamãe. Você sabe onde ela esta?
– Ela… ela foi no mercado meu amor. Ela esqueceu de comprar alguma coisa para o almoço.
– Hum… E o que você está fazendo em casa?
– Eu vim trazer esse quadro novo que eu comprei. Que você achou dele?
Só então a menina notou, ao lado da janela, pouco acima do aparador, o quadro que o pai havia mencionado. Carolina prestou mais atenção no quadro. Geralmente quando chegava um quadro novo em sua casa ele era cheio de cores, animais, figuras geométricas e outras coisas que a mãe dela achava lindas, mas aquele quadro era totalmente diferente disso. Havia um pássaro gigante no céu, todo vermelho, com as asas abertas, e em baixo dele uma pedra também vermelha, mas que parecia brilhar. O resto do quadro eram apenas pessoas guerreando, com muito sangue e mortes.
– Você não acha lindo minha filha?
– A papai. Eu não gostei muito não. Esses homens estão brigando por que?
– Não é uma briga meu amorzinho, é uma guerra. E eles estão guerreando por causa do ovo do dragão.
– O ovo do dragão?
– Sim, esse aqui. – disse o pai enquanto apontava com o dedo para o que a menina tinha pensado ser uma pedra. – Você não quer que eu te conte a história do quadro enquanto a mamãe não chega?
Carolina olhou para os lados um tanto desconfortável. Ela tinha odiado o quadro. Era quase como se ele fosse maligno. Mas, por outro lado, ela adorava uma boa história, e podia ser que sua mãe ainda fosse demorar, então ela acabou balançando a cabeça e indo sentar no colo do pai.

– Tudo começou há muito, muito tempo atras. Naquela época o homem ainda não dominava o fogo, nem falava, nem tinha celular. É isso mesmo, realmente houve um tempo onde o homem não tinha celular, acredite se quiser. E nessa época, as criaturas mais sábias eram o que hoje as pessoas chamam de dragões
– Pera, quer dizer que dragões existiram de verdade?
– Não minha filha. Dragões ainda existem.
Carolina olhou curiosa para o pai. Seria possivel o pai estar falando sério? Ela não queria que fosse uma brincadeira, também não sabia se podia acreditar, mas ainda assim, mesmo contra sua vontade, seus olhinhos brilharam.
– Continuando. Naquela época os dragões eram as criaturas mais majestosas de toda a natureza. Eles dominavam os céus e a terra, e alguns, até o mar. Eles falavam e dominavam o fogo em seus corações e outras tantas magias. E foi nessa época que eles cometeram um erro terrivel. Eles decidiram compartilhar seus conhecimentos com os humanos.
– E por que isso foi tão ruim?
– Porque os humanos não eram tão sábios quanto os dragões. Logo que começaram a aprender os ensinamentos dos dragões eles começaram a usa-los de forma errada. Usavam o que aprenderam não para atingir a paz, mas para dominar uns aos outros. Para ferir.
– E o que os dragões fizeram?
– Vendo o que estava acontecendo, os dragões pararam de ensinar aos homens o que sabiam, mas ai, o erro já tinha sido cometido. Agora os humanos falavam, escreviam, inventavam coisas que nenhum dragão jamais sonhara. Agora eles tinham que ser detidos. E foi o que alguns dos dragões tentaram fazer. Outros, ainda arrependidos e envergonhados de seus erros, apenas desapareceram na natureza.
– É por isso que a gente não tem dragões hoje? Eles ainda estão escondidos?
– Eu já teria terminado a história se você parasse de me interromper.
Carolina não estava acostumada a ver seu pai sendo rude e aquilo a pegou de surpresa. Ela ficou com medo dele, e com mais medo ainda do quadro que parecia ter gostado da reação do pai. Carolina sabia que quadros não possuem sentimentos nem nada do gênero, mas ainda assim, ela podia sentir isso.
– Os homens então – continuou o pai com uma voz mais agressiva. – começaram a caçar os dragões. Alguns ainda mais petulantes decidiram tomar o sangue daquelas nobres criaturas quando as capturavam. Aqueles homens, os que matavam e bebiam o sangue, se tornavam mais fortes e espertos e, alguns poucos, se tornavam capazes até de controlar a magia. Os dragões, que até então estavam lutando com os humanos de igual para igual, passaram a ser cercados e caçados por multidões, todos atras de sua porção do sangue milagroso. Todos querendo poder. E é isso que esse quadro representa. O grande dragão vermelho pintado na parte de cima do quadro era o dragão mais sábio de todos e também o mais poderoso, mas nem toda a sabedoria no mundo podia fazer com que ele entendesse o que estava acontecendo com seus irmãos. Aqueles.. homens… a quem eles haviam ensinado, agora estavam matando-os para tomar seu sangue. O coração do dragão vermelho estava partido, e nas brechas do coração a dor entrou e se transformou em ódio. O ódio ferveu e se transformou em algo mais. O dragão agora não conhecia mais nenhum limite. Ele matava todos os humanos que conseguia. Destruía países inteiros em questão de dias. Ele fazia o que devia ter feito desde o começo e gostava daquilo.
Carolina desceu do colo do pai. Aquele homem já não se parecia mais com o homem que ela chamava de pai. Ele se levantou também, quase sem perceber a menina, apenas chegando mais e mais perto do quadro. O ovo brilhava no quadro e em seus olhos.
– Os homens então se juntaram, e com dois exércitos imensos atacaram o dragão. Veja, é exatamente isso que mostra o quadro. Eles atacaram o dragão e o mataram, e quando beberam seu sangue, a corrupção que havia no dragão se tornou a corrupção deles. Seus primeiros instintos foram o mesmo: morte. Eles atacaram uns aos outros em uma batalha que durou dias até que, no meio do sangue, só os mais fortes se levantaram. A raiva tinha diminuído. Seus corpos agora se adaptavam ao novo poder que vivia dentro deles. Uns ficaram fortes. Outros rápidos. Poucos aprenderam a voar. Mas todos tinham agora o dom da magia. O dom do dragão. Eles sabiam que se os outros humanos soubessem disso eles também seriam caçados então eles decidiram se esconder. Usaram a recém aprendida magia para se disfarçar, para que suas mutações não aparecessem, para que parecessem humanos normais, e assim eles ainda vivem, os herdeiros do dragão, as criaturas mais poderosas de toda a terra, condenados a uma vida de fuga e enganação.
Carolina agora chorava. Ela tremia de medo enquanto o pai gritava a história olhando para o quadro. Seus dedos digitaram desesperadamente o numero da mãe no celular e em seguida a opção chamar. Sim, se sua mãe chegasse, ela saberia o que fazer. O pai agora gritava tão alto que ela já não entendia mais nada. A menina estava discretamente se aproximando da porta quando o pai parou de gritar e olhou para ela com raiva. Por um momento tudo foi silencio, até o toque do celular da mãe da menina ecoar do fim corredor.
Carolina então saiu correndo em direção ao banheiro, mas continuou olhando para trás. Continuou olhando para o pai que agora se movia lentamente e sorria. Por um momento ela não soube dizer o que era aquele sentimento de vazio, até que seu corpo atingiu o chão com força. Ela havia escorregado em algo. Carolina pôs a mão no chão para tenar se levantar e sentiu o chão molhado. Havia algo ali que ela não conseguia enxergar direito. Por um momento ela achou que estava sangrando.
– Sabe filha, usar magia consome muita energia. Energia que só pode ser reposta de uma forma.
Carolina não queria mais ouvir. Não queria saber que o pai estava se aproximando. Ela apertou os olhos na tentativa de enxergar alguma coisa quando o toque do celular da mãe fez com que ela instintivamente virasse a cabeça na direção do som. A porta do banheiro estava aberta. Na parede havia um desenho. Um desenho vermelho. Um desenho feito com sangue.
O dragão foi a ultima coisa que Carolina viu antes de fechar os olhos para sempre.

  6 comments for “O quadro

  1. 30 de julho de 2017 at 23:01

    Acabei de ler. Sem condições de comentar. :'(
    Talvez mais tarde. Talvez amanhã… (sniff)

  2. 31 de julho de 2017 at 21:33

    Eitaaaa, Fullmetal do caralho hahahahah muito bom xD

  3. 31 de julho de 2017 at 21:36

    PS: achei um pouco corrido o conto, mas considerando que eh escrito meio em fábula, não achei ruim.

  4. 31 de julho de 2017 at 21:57

    Tá bom, vou abrir o meu coração. Fiquei revoltada. As descrições são tão primorosas que vi tudo, a casa, os arredores, o escritório, e principalmente o quanto a garotinha era adorável. O que custava salvá-la no último minuto?! Sua mãe poderia ser um anjo que saísse voando pela janela carregando Carolina em seus braços! Fiquei chateada, pronto. 🙁
    Observação: não entendi muito bem a lógica de o pai da menina ter tido esse surto, já que dessa forma ele pôs a descoberto a sua natureza peculiar.

    • Will
      2 de agosto de 2017 at 10:30

      Sinto muito que tenha ficado chateada, mas você sabe, tão bem quanto eu, que não daria para salva-la sem perder o texto…
      Sobre a sua observação, existe uma explicação: como os filhos do dragão conseguem mudar sua aparência, originalmente o pai da menina também havia sido morto e esse novo “pai” era apenas um inimigo disfarçado, mas não consegui explicar isso sem perder o ritmo do texto, portanto deixei sem. Ainda é uma explicação plausível, mas teria de ser imaginada.

      • 2 de agosto de 2017 at 15:59

        Hmmm… entendi… É que fiquei pensando: “como um cara que era legal — mesmo pertencendo a uma antiga estirpe de caçadores de dragões — de repente se revela tão agressivo e nem se importa em deixar milhões de pistas sobre dois crimes terríveis?” Foi mal. Meu cérebro cartesiano às vezes não ajuda em nada. 😉

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