O segredo do Cascão

Este fato é verídico. Aconteceu em um bairro periférico da minha cidade alguns meses após o golpe militar de 1964. Quem contou foi uma testemunha ocular.

Certa manhã bem cedo, no ponto de ônibus em frente à padaria, desceu um homem baixinho, aparentando uns cinquenta anos. Carregava debaixo do braço um objeto embrulhado em jornal.

Entrou na padaria e perguntou se havia alguma pensão naquelas vizinhanças. Responderam que não, mas se estivesse procurando onde morar havia o cortiço do seu Alfredo.

Deram-lhe as indicações e lá se foi o homenzinho alugar um quarto no cortiço.

Naquele dia o seu Alfredo aceitou um novo inquilino e o bairro ganhou uma figura pitoresca.

Como nunca trocava de roupa, deram-lhe o apelido de Cascão. Seu nome verdadeiro ninguém se lembrou de perguntar.

Não tinha fontes de renda visíveis; nunca se soube de onde vinha o dinheiro com o qual sobrevivia. Era muito quieto, a não ser quando se embebedava e dizia uns absurdos desconexos. Que possuía muitas riquezas, que vinha de uma família importante, que guardava um tesouro lá no quartinho. Essas e algumas outras bobagens difíceis de entender.

Os adultos o consideravam retardado mental; as crianças faziam gozações ao vê-lo passar sempre encurvado a olhar para o chão, vestindo o mesmo paletó azul-marinho de todos os dias.

Geralmente permanecia calado diante da algazarra das crianças, mas de vez em quando respondia em um português surpreendentemente correto:

― Vocês não podem me tratar assim. Vocês não me conhecem, não sabem quem eu sou!

Estava enganado. Todo mundo sabia ― ou presumia saber ― que ele não tinha estudos, nem emprego, nem família. Que era maluco e bêbado.

Certo dia, porém, aconteceu um fato estranho.

Parou na frente do cortiço um “Galaxy” azul, carro luxuoso da época. Dele desceram dois homens. Um deles alto, de pele clara e avermelhada; o outro era negro; os dois muito bem vestidos.

Entraram no cortiço e logo saíram em companhia do Cascão.

Os três andaram juntos por certo tempo subindo e descendo a rua lentamente, conversando em língua estrangeira sobre algum assunto que parecia importante. O Cascão falava, gesticulava, e os outros dois prestavam muita atenção.

Finalmente voltaram ao cortiço. Cascão foi lá dentro e saiu carregando um bauzinho debaixo do braço. Entraram todos no carro luxuoso e foram embora.

Desde esse dia, três anos após sua chegada, o Cascão nunca mais foi visto, nem dele se ouviu falar.

  4 comments for “O segredo do Cascão

  1. 31 de julho de 2017 at 21:23

    Eita? RS curioso

    • 31 de julho de 2017 at 21:59

      Aconteceu mesmo. Só acrescentei pequenos detalhes, mas o fato é verídico! 😮

  2. Will
    2 de agosto de 2017 at 10:39

    Gostei, mas é o mais simples dos seus contos. Apesar de manter a linha da realidade, para mim faltou algo. Não é falta de técnica, mas faltou algo. 🙁

    • 2 de agosto de 2017 at 16:19

      Faltou ambição! (rsrsrs) É que eu quis fazer assim mesmo: um retrato tosco de um recorte no tempo, como se fosse uma foto em preto e branco com baixa definição. Se tivesse enriquecido com detalhes visuais e considerações mais fundamentadas, perderia em tosquice e talvez em autenticidade. Isso é uma coisa que gosto de fazer: tentar variar os estilos e a “voz do autor”. 🙂

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