O sonho do fim


Alice Almeida

Mãe (s.f): mulher que deu à luz, que cria ou criou um ou mais filhos
*****

_Mamãe, o que é o céu? – Théo me olhava curioso enquanto eu o vestia.

_É como uma mudança; quando estamos cansados de ficar na Terra, descansamos e vamos morar no céu. – afirmei descontraidamente, passando o braço de meu filho pela segunda manga de seu uniforme novo.

_O papai disse que estava cansado, então ele foi para o céu? – seu olhar curioso, entristeceu-se.

Neguei com a cabeça, antes de sentá-lo novamente sobre a cama. – Não, meu amor. O papai só foi viajar… mas ele volta. – garanti, mesmo sem ter muita certeza.

Andrew era Reservista do Exército, nos deixou para servir ao país quando Theodore completou seu segundo ano de vida e desde então, a única coisa que nosso filho recebia do pai eram mensagens de texto ou chamadas de vídeo no Skype.

Théo havia acabado de comemorar o quinto aniversário e era seu primeiro dia de aula. Então, depois de um inicio de manhã cheio de perguntas, estava na hora de irmos.

_Mas, mamãe… – ele teimava.

_Sem mais, Theodore! – ri, fingindo irritação. Sua gargalhada fazia com que todos os meus dias valessem a pena, por mais frustrantes e difíceis que realmente fossem.

Théo levantou-se apressadamente da cama e pegou sua pequena mochila e um pelúcia que nunca desgrudava, o qual chamava de Andy.

_Andy e eu estamos esperando lá embaixo, mamãe. Não demore. – Theodore, por vezes, tentava imitar minha falsa autoridade em algumas frases que dizia. Era sua característica mais marcante.

_Sim, senhor. – arqueei as sobrancelhas, olhando sua pequena silhueta desaparecer de minhas vistas.

Só precisava apanhar os documentos, as chaves do carro e o controle do portão, para sairmos. O relógio marcava às 7h30, o que nos dava tempo de fazer tudo tranquilamente.

O Outono deixava o tempo nublado e gélido, senti meu corpo arrepiar assim que desci à garagem e entrei na Montana velha. Sinceramente, mesmo depois de seis anos, ainda sentia dificuldade em lidar com aquela traseira imensa.

Movimentos sincronizados. Colocar a chave. Arrumar o retrovisor. Um… dois… três solavancos para abaixar o freio de mão e…

_Andy! – ouvi o grito de Théo e soltei o freio no susto.

_Andrew?! – olhei pelo retrovisor e vi a figura de meu filho no reflexo, sua cara era de um espanto que seria palpável se eu não tivesse desesperada.

O carro deslizou antes que eu tivesse a chance de segurar.

_THEODORE! – gritei. Contudo, um clarão imenso pôs-se à frente de meu filho.

O carro parou e ouvia-se o estrondo. Só podia ser um pesadelo…

…mas infelizmente não era.

*****

Theodore Almeida

Sonhar (v.i): ter pesadelos ou delírios; delirar.
*****

_Papai! – gritei quando o vi. – Você veio para o meu primeiro dia de aula, sabia que viria!

Seu abraço era quente e, depois do de mamãe, era minha definição de aconchego. Papai estava envolvido por uma luz branca imensa.

_Falei que viria, pequeno. – seus dedos bagunçaram meu cabelo.

_Ei! Eu nem sou mais tão pequeno, já estou indo pra escola, papai. – dei a língua. – Mas, agora me deu uma dor aqui… – cocei a cabeça, perto de onde os dedos de papai antes estavam postos. Meu singelo toque provocava dor. Fiz careta e o abraço de meu pai tornou-se mais apertado.

Papai me colocou sentado ao piso da escada e olhei ao redor em busca de algo. _Cadê a mamãe? – minha testa franziu-se.

_Mamãe ficou, querido. – a voz de meu pai era serena e tranquila, muito diferente do tom animador do Skype.

_Mas ela estava tirando o carro, logo ali… – virei bruscamente para apontar, mas além da pequena mancha vermelha no chão, não vi mais nada. Nem mamãe, nem o carro. Meus olhos ameaçaram marejar. – Papai… tá doendo. – funguei.

Meu pai novamente se aproximou, mas dessa vez apenas sentou ao meu lado, passou a mão envolta de meus pequenos ombros e me trouxe junto a si. Minha cabeça dolorida encontrou conforto.

_Papai está cansado, pequeno… – observei-o fechar os olhos gradativamente e notei que os meus pendiam com o mesmo movimento.

Senti uma luz amarelada aproximar-se… seria um raio de sol em pleno outono?

Meu corpo estava cansado demais para saber se era o sol ou uma simples lâmpada muito forte…

*****

Alice Almeida

Culpa (s.f): responsabilidade por dano, mal, desastre causado a outrem.
*****

Os médicos estavam envolta da pequena maca em que Theodore estava deitado. Suas mãos e lábios arroxeados e sua cabeça possuía alguns hematomas.

_Théo? Filho, acorde! – os médicos me contiveram quando suas pequenas pálpebras se movimentaram. Meus olhos eram compostos por lágrimas que ardiam.

_Mamãe… – sua voz antes aguda, estava rouca e fraca.

_Meu pequeno… – suspirei. Os médicos me permitiram toca-lo.

_Mamãe… eu vou pro céu? – suas palavras eram confusas, mas eu as compreendia. Minha resposta veio à tona em forma de lágrimas incessantes, mas com um esforço descomunal, apertei sua frágil mãozinha. – Não diga isso… Você vai ficar aqui com a mamãe. – afirmei, mas a mesma incerteza de hoje cedo acalentava meu coração.

_Sonhei com papai, ele disse que estava cansado. – sua mão afrouxou o toque da minha. – Eu acho que também estou cansado, mamãe…

Toquei seu rosto e acariciei sua testa já um pouco fria.

_Então descansa, meu pequeno…

Vi seus pequenos olhos azuis se fecharem; e tive a certeza de que nunca mais os veria novamente.

  4 comments for “O sonho do fim

  1. rafaela carvalho
    13 de julho de 2017 at 15:59

    Sem palavras apenas …
    Nossa…

  2. 17 de julho de 2017 at 21:44

    Muito triste.
    :'(

  3. 18 de julho de 2017 at 07:49

    Ai credo, precisava ser ela quem atropelava? Agr kkk foi sucinto mas cheio de sentimento. Gostei 🙂

  4. Will
    26 de julho de 2017 at 10:28

    Eita….
    Gostei do texto.
    As passagens ficaram de um bom tamanho, sem nenhuma ser muito maior que a outra, o que fez com que o texto tivesse ritmo. Gostei que você não falou abertamente das coisas como o atropelamento, que só ficou claro pelo contexto… muito inteligente. Apenas um detalhe, ou melhor, dois: primeiramente, quando a criança gritou pelo pai na garagem, eu levei um tempo para entender, porque ela simplesmente gritou o nome do pai e não “pai” ou “papai”, o que seria mais comum. Segundo, Talvez fosse interessante que na parte da criança ela escrevesse/falasse como criança. Acho que o impacto seria maior, mas isso é apenas uma idéia.
    ^^

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