O Último Dia

Sempre parado ao lado do portão, olhos atentos, nada lhe passava despercebido. Afinal, faltava apenas uma semana para que completasse 40 anos naquela função. Mas nunca chegaria a completar. Não porque algo lhe aconteceria, ou porque se afastaria por vontade própria – isso nunca! Ali era seu lugar – mas porque aquele era o último dia. Não dele, mas de tudo aquilo. Os olhos chegavam a marejar, mas, se o questionassem, diria ser um cisco.

39 anos, 11 meses e três semanas. O que faria no dia seguinte?

Lembrou-se do seu primeiro dia. Teve um pouco de medo: era grande a responsabilidade. Mas, ao mesmo tempo, era algo que se valia cuidar, proteger. Bom fisionomista que era, lembrava de todo mundo que entrava e saía. Lembrava também os nomes. Imaginava que por isso, nunca tivesse sido substituído. E a idade não lhe piorara a memória não. Pelo contrário: a cada dia aprimorava seu dom.

Achava graça que quando o chamavam de guarda ou de vigia. Se considerava mais um guardião. Seu Zé, Zequinha, Zecão. Gostava de todos. E sabia como cada cara, cada nome e mesmo cada voz lhe chamava.

Agora ouvia era seu Carlos Eduardo. “Zecão! Deixa te dar um abraço!”. Riu sozinho. Seu Carlos que nada, era o Cadu, que ele conhecera quando ainda estava por completar 15 anos. Que peste que era, naquele tempo. Engenheiro formado, agora vinha trazer Vanessinha e Tito. E sempre parava uns minutinhos ali no seu portão. “A gente se conhece há o que? Uns 20 anos?”. É, devia ter por aí. Pra isso sua memória não servia. De toda forma não importava. Tinha tão vivos em si os que agora já passavam dos 50 e os pequeninos que ele lamentava terem tão pouco tempo naquele lugar.

Ele era especial, ouvia de todos. Não achava. Especial era aquilo ali. Mal lembrava de si antes. Um nó apertou na garganta. E quem seria ele no dia seguinte?

Agora era Joana que se aproximava, correndo desde a esquina. Joana e Giulia. Dezoito anos recém completos, quinze passados ali, Grudadas há dez, com uns seis meses de interrupção. Seu Zé lembrou de quando elas brigaram. Nunca soube o porquê. Acha até que nem elas sabiam. Só tinha quase certo que ajudara as pazes. Um comentário aqui, outro ali… Quantas amizades ajudara, quantas vezes fora cupido. Certa vez lhe chamaram até pra padrinho de casamento!

Joana pulou em seu pescoço como se ainda tivesse no pré-escolar. Giulia, sempre mais delicada, lhe fez um cafuné e deu um abraço mais apertado que o normal. Saíram apressadas, queriam ainda estudar pro vestibular de domingo. Tão parecidas e tão diferentes, uma faria veterinária e a outra Cinema, lhe contaram ali. Fazia sentido, pensou. Já estavam há umas seis quadras quando se deram conta que não tinham se despedido. Voltaram numa carreira, com medo de ser tarde demais. Que felicidade dar aquele abraço e que tristeza não ter como encontrá-lo no lugar de sempre no ano seguinte. “Como te acho no Face?”, perguntou Giulia já de smartphone na mão. Ele não tinha. Não era bom dessas coisas de computador, explicou. Mas prometeu que faria.

Já saíam as últimas pessoas. “O último que sair, apague a luz”, costumavam dizer, logo que se escancarou a crise financeira da instituição. E lá vinha seu Teodoro, o professor de História por tantos anos, e há dois também diretor. Fez de tudo, o coitado. Não deu. Parecia ter também uns ciscos nos olhos, notou Zé quando o velho amigo se aproximou. Deram um abraço demorado e sem palavras, que o professor finalizou com seus já famosos três tapões nas costas. Contou de uma escola nova que abriria a poucas quadras dali, de filosofia bem parecida – “igual. Igual não é, mas tem um lindo projeto também” -, que a dona era sua amiga e que adoraria contar com a expertise do famoso Zecão por lá.

Zé riu, agradeceu, e recusou. Ele guardava crianças, adolescentes e aquele sonho. Não se reconheceria num sonho novo.

Se Teodoro apagou as luzes, ele que fechou, pela última vez, aquele portão. Se despediram com um “até amanhã”, não se sabe se por força do hábito ou pela dificuldade do adeus.

  4 comments for “O Último Dia

  1. 26 de novembro de 2017 at 13:18

    Coitado do seu Zeca. 🙁 E de todos os que passaram por essa escola. Muito triste quando uma instituição fecha, principalmente as escolas e os hospitais. Você soube transmitir essa sensação de desalento, Raquel. Principalmente sob o ponto de vista do porteiro-vigia-guardião, que talvez seja a pessoa que mais vai sentir essa perda. Parabéns. 🙂

    • Raquel
      28 de novembro de 2017 at 23:26

      Obrigada, Zulmira!
      Foi inspirado em uma escola Muito querida, que felizmente não chegou a fechar, apesar de ter passado por grande crise e seu “Luís do Portão” trabalha lá até hoje 😉

      • 29 de novembro de 2017 at 21:00

        Ainda bem que houve um final feliz para o seu Zeca da vida real! 🙂 Engraçado que o meu conto para esse desafio também teve a ver com escola. Se tiver um tempinho, dê uma lida. Chama-se “Uma rosa para Daiane”. Como você, me inspirei em situações reais.

        • Raquel Stern
          13 de dezembro de 2017 at 15:28

          Eu vi lá!
          Uma outra perspectiva do mesmo tema! Legal.
          E bonita a homenagem à Daiane.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *