Pequenas Coisas

As vezes são as pequenas coisas que mudam as vidas das pessoas das formas mais radicais e inesperadas. Não. As vezes não. Sempre. São sempre as pequenas coisas. Os detalhes onde dizem que o diabo se esconde. As coisas grandes são diferentes. Elas são esperadas. São coisas construídas com o tempo. Nada cataclísmico nunca acontece do noite para o dia, ou pelo menos não sem antes dar sinais de que vai acontecer. Não. São realmente as coisas pequenas. Coisas pequenas como um sorriso ou como um desentendimento. Coisas pequenas como um sonho.
E foi assim, as 7:45 de uma manhã de sexta, que a vida de João mudou para sempre. Ou talvez tenha sido um pouco antes. Talvez durante a madrugada, onde, inconscientemente seu subconsciente decidiu não sonhar com o futuro. Onde o destino, o universo, ou o que quer que seja que rege a vida dos homens decidiu levá-lo para o passado que não era necessariamente real, mas era parecido o suficiente para faze-lo se lembrar. E João se lembrou de muitas coisas: um antigo chefe de quem gostava, alguns parentes que não via muito, um lugar há muito esquecido, mas incrivelmente querido, mas, especialmente, se lembrou de olhares. E de sorrisos. E talvez de amor. Lembranças dentro de lembranças. Dores dentro de lembranças. E foi assim que, as 7:45 daquela manhã de sexta, João acordou.
Acordou também com uma angustia muda dentro do peito. Acordou pesado, triste. Levantou-se e, ainda de pijama, andou pela casa. Tudo estava lá, exatamente como ele havia deixado na noite anterior e por um momento João se permitiu invejar os móveis enquanto os tocava, inalterados pela noite. Apenas ele, percebeu com certo pesar, havia mudado. Provavelmente o mesmo aconteceria na rua. Ele passaria pelas mesmas pessoas, daria o mesmo “bom dia” para as pessoas que, provavelmente, seriam as mesmas do dia anterior, ou caso não fossem, caso tivessem sofrido como ele, não lhe contariam nada e seguiriam com suas vidas. Não haveria empatia. Não haveria um ombro amigo. Haveria apenas solidão. A mesma solidão que ele já sentia sozinho. A mesma solidão que já o acompanhava, ainda que de forma mais discreta, há anos.
O pior era que João sabia que esse sentimento tão desagradavelmente potente, diminuiria durante o dia. Sabia que o trabalho iria entorpece-lo. Sabia que abraços o confortariam, ainda que sem saber. Sabia que, enfim, indiferente do que estivesse sentindo naquele momento, a vida inexoravelmente voltaria a seguir seu rumo, e as lembranças oníricas que pesavam agora em seu espirito seria apagadas e voltariam a ser para ele o que de fato já eram para todos os outros. Nada.
Lentamente João abriu sua geladeira. Ouviu mentalmente o aviso, já antigo, de sua mãe dizendo-lhe que não deveria beber de estomago vazio mas o ignorou, afinal de contas, já que tudo iria passar, para que se preocupar não é mesmo? Sentia naquele momento que nada realmente era importante ou verdadeiro. Sentia que tudo era vazio enquanto montava seu drink. O copo largo e baixo sugeria um Whisky, mas ele não gostava do sabor da bebida pura. Talvez, pensou, se sua vida fosse um filme dos anos 80, ele realmente beberia Whisky, on the rocks, como as pessoas costumavam dizer. Mas João não era um ator, então continuou fazendo a bebida, observando como o creme de leite se mesclava ao licor e a vodka.
O primeiro gole desceu rasgando. João sentiu a garganta arder, mas ainda sem desatar o nó que o incomodava. Tomou o segundo gole e foi, de copo em mãos, até o guarda-roupa. Seus olhos passearam pelas camisetas coloridas dobradas ao alcance da mão para as roupas menos usadas e antes mesmo de perceber, João estava lentamente abotoando, na altura do peito, sua camisa branca favorita. Depois, enquanto sentia os braços sendo envolvidos pelo peso do blazer, pensou em como o mesmo já vira dias melhores, mas até ai, ele também já vira dias melhores, então talvez eles combinassem bem. Se recusou a vestir as meias sociais que tanto odiava. Meias de algodão branco com um pequeno furo na ponta do pé esquerdo foram vestida no lugar. Pequenas coisas. João se olhou no espelho. Alinhou a gravata e o cabelo. Retomou o copo e deu alguma atenção para o cachorro, que parecia acompanhá-lo em sua tristeza. Serviu os dois potinhos com ração, verificou a vasilha de água e só então saiu.
Lentamente seus pés o levaram até o fim do corredor e sua mão livre abriu a porta do elevador. Mais um gole. O som metálico e incerto do elevador velho rangendo sob o esforço de leva-lo prédio acima era desconfortável. Um minuto depois João estava no último andar. Com alguma dificuldade afastou o tapume que impedia o acesso ao “salão de festas” em reforma na cobertura do prédio e entrou.
Ao chegar no salão pensou em Ismália* e observou sua própria torre. Pó e tijolos estavam espalhados ao seu redor. O céu estava cinza e o vento frio que entrava pelas aberturas das janelas o fez tremer. Pensou em quanto estava longe do mar, mas decidiu ignorar esse fato. Liberdade poética, foi o que disse a si mesmo. Apoiou o copo em uma pilha de tijolos próximo do que um dia seria uma pia e se aproximou de uma beirada sem proteção. Vacilou. João tinha medo de altura. Mais um passo. Desejou mais um gole, mas sabia que se voltasse para pegar o copo não teria coragem de fazer o necessário. Não teria coragem de não deixar “a vida seguir”. De não deixar aquela dor se tornar sem sentido. Observou o horizonte. “Deuses, como é bonito”. Contemplou o cinza da cidade e fechou os olhos. Lembranças dentro de lembranças. Promessas dentro de lembranças. “Para sempre? Para sempre!”
Eram 8:30 quando os pés de João perderam contato com a beirada do prédio.

*referencia = Ismália é um poema de Alphonsus de Guimarães que você pode ler aqui :
http://www.releituras.com/alphonsus_ismalia.asp

  3 comments for “Pequenas Coisas

  1. 27 de junho de 2017 at 11:18

    Mano, que conto depressivo =( me fez ter vontade de cortar os pulsos, aff. Coitado do cachorro meu… O cachorro, aff. asiuehauise

  2. Fabio Baptista
    27 de junho de 2017 at 13:37

    Angustiante. Adorei o detalhe do cachorro também! 🙂
    Bom trabalho

  3. 26 de julho de 2017 at 16:18

    Achei esse conto perfeito. Uma única ressalva: a quantidade de “ques”. Mas nem vou falar sobre isso agora porque fiquei triste. :'(

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