Quando as Luzes se apagaram

Quando as luzes se apagaram, Júlio, 42 anos, tinha a cabeça toda coberta de shampoo. Não se importou tanto com o escuro, mas sim a água gelada de seu chuveiro elétrico. Esticou o corpo pra fora d’água e fechou um pouco a torneira, de modo que conseguisse por apenas a cabeça debaixo do filete que saía da ducha. Pensou então que pouco importava justo naquele dia tão caprichado banho. Tateou em busca da toalha, enrolou-se e seguiu pra sala. Riu de si mesmo pela preocupação com banho e com cobrir-se. Ninguém o veria mais. Olhou pela janela e constatou que de fato não se tratava de mais um corte por falta de pagamento. Sentou-se na poltrona já poída pelo tempo e esperou.

 

 

Quando se apagaram as luzes, Carla, 27,  já tinha a lanterna empunhada. Irritou-se com si mesma pela demora em se arrumar: agora teria que descer os 12 lances de escada. “Tudo bem, pra baixo todo santo ajuda!”, pensou e riu ao lembrar de sua já falecida avó. A mulher era um conjunto de ditos populares. Era capaz de ter uma conversa completa respondendo sempre com essas expressões. A preferida era: Casa de Ferreiro, Espeto de pau, que repetia constantemente pro genro, quando o pai de Carla, um cheff renomado, servia “roscovo” no jantar.

Olhou pela janela e viu que os amigos já a esperavam. Pegou três cervejas na geladeira e foi em direção à porta. Voltou e pegou as demais. Não sabia se seria um exagero, mas também, qual o sentido de deixar ali? Pensou então em como sua mãe lhe olharia feio naquele momento. Mas o que iam fazer?

Se juntou aos amigos e caminharam em direção ao mar, já com as cervejas abertas.

 

Quando as luzes se apagaram, Vitinho, 7 anos, já estava deitado. Sua mãe terminara de contar 3 vezes sua história preferida. Ao fim, pediu-lhe novamente que contasse outra vez. A mãe disse que ele precisava dormir, que já era tarde. Parecia ter lágrimas nos olhos, mas ele não teve certeza. Pediu então que ela deixasse o abajur aceso, mas justo quando ele quase pegava no sono, a luz apagou-se sozinha. Esticou a mão para reacender a luminária, mas não teve sucesso. Pensou em chamar os pais, mas já sabia o que ouviria: já era grandinho demais pra ter medo de escuro. E talvez fosse mesmo. Virou-se para o outro lado e não levou nem 5 minutos para adormecer

 

 

Quando se apagaram as luzes, Isadora, de 5 anos, sequer percebeu. Ainda não dormia, mas nunca teve medo de escuro, coisa que sempre usava para implicar com Vitor, seu primo mais velho. Gostava também de assustá-lo apagando as luzes e fazendo sons de monstro. Como era bobo aquele menino. Os meninos. Pensou nisso e riu sozinha. Como eram vizinhos, pensou mesmo em pregar-lhe uma peça naquela noite, mas o sono era forte e deixou pra outro dia.

 

Quando as luzes se apagaram, Beta, 52 anos, ficou no quintal observando o céu. Era noite de lua nova. Impressionou-se com a quantidade de estrelas. Que lindo que era! Lembrou-se do gracejo do guia/astronômo (ou seria astrólogo? Sempre confundia e já não tinha porque aprender) quando jovem fizera um passeio noturno no Deserto do Atacama: Em São Paulo nunca veriam tantas estrelas! Como gostaria de poder mostrá-lo que estava errado! Lá estava, o mesmo céu estrelado enfeitando a maior metrópole do país.

 

Lindo foi também o clarão de quando o meteoro se aproximou. Os que duvidavam de mais aquela profecia, talvez sequer tenham tido tempo de entender o que acontecia. Depois, restou apenas a escuridão.

  3 comments for “Quando as Luzes se apagaram

  1. 24 de outubro de 2017 at 19:23

    Adorei o “roscovo”! Achei muito criativo a ideia de juntar as palavras por conta da sonoridade. Achei a técnica de contar histórias de personagens separados, mas inseridos num mesmo contexto, bem legal. O Willian também fez isso no do elevadores, é uma técnica encantadora. Na minha opinião só mostra como todos nós somos iguais perante as adversidades.
    Quanto ao clarão, era um meteoro ou algo mais fantasioso, tipo uma Death Star? Porque se for meteoro eu acredito que as pessoas conseguiriam ver e se desesperar durante os últimos minutos, hehe.
    Aliás, recentemente fui ao cinema assistir a um romance que contava uma história envolvendo um meteoro. Se chama Your name, out no original, Kimi no na ha. Apesar de ser uma animação japonesa, vale muito a pena.
    Continue escrevendo e nos dando a oportunidade de prestigiar seus textos!

  2. Raquel Stern
    25 de outubro de 2017 at 12:51

    haahah adoro “roscovo” também! Mas tenho que admitir que não foi minha essa criatividade, isso ouvi por aí!
    Nesse eu realmente lembrei e pensei no texto do William ainda enquanto escrevia; Gostei muito quando li e bebi um tantinho dessa fonte 😉

    Qunato ao clarão, tinha pensado em meteoro, mas você está certa… daria um tempo de se desesperar. rs. Vou deixar de liberdade poética ou mudar pra Death Star (vou antes pesquisar o que é!).

    Vou ver se consigo ver o filme. Nada contra animações, muito em favor até!

    E muito obrigada. O desafio tem sido muito legal pra mim. Há tempos me prometia voltar a escrever, passar a escrever mais, mas enrolava. Ter prazos e temas ajuda demais! Além de que adoro ler o de vocês.
    Agora mandei um mais leve, que depois de 3 trágicos, o desafio extra até veio “sem mortes!”; Não sei se por culpa minha….rs

    • 27 de outubro de 2017 at 09:46

      Que bom que está gostando do desafio! =D Fico muito feliz de saber disso. Se quiser, temos um grupo no whatsapp e um no facebook também, onde discutimos algumas possibilidades para melhorar o projeto (Como uma publicação independente talvez, divulgação, temas, concursos, etc). Entra lá! https://www.facebook.com/groups/saraurascunhonopapel/

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