Quando o navio chegar

Estava debilitado, pousado naquela cama fazia muito tempo. Sua barba já branca ainda tocava o peito, habito que criou desde a juventude. Os cabelos já ralos, brancos também, se estendiam até os ombros. Seu ar já era exaustão, seu corpo magro apresentava as marcas do cansaço acumulado ao longo dos anos.

A família já se reunia ali ao redor para passar a noite, pois sabiam que muito tempo não restava para o velho de boas feições. Ele pouco falava, esboçava sorrisos e pequenas reações, mas seu ar parecia pouco e até mesmo para falar lhe custava muita energia. Sua esposa, companheira de mais de 40 anos, iria passar a noite com ele. Antes de dormir ela decidiu ler uma história, como se faz com as crianças.

Ela lhe olhou com rosto terno, livro maciço pousado no colo. Ele esboçou seu sorriso onde não era possível ver seus dentes, apenas seus longos bigodes se contraindo para os lados. Ela então posicionou os olhos e começou a leitura:

“Eles se encontravam no deck, o navio era gigantesco, apesar de todos saberem que aquele era uma embarcação muito antiga seu aspecto era de algo limpo e novo. Uma senhora de pele pálida tomou a frente e iniciou sua narrativa…”

Nesse instante ela o olhou, ele de olhos arregalados pedia por mais história, e sua esposa continuou:

“Ela então disse:

– Quando o vento parar, e a brisa deixar de soprar, como a a calma que existe no vento antes de um furacão chegar, o mar irá se dividir e o barco irá bater na areia da costa, e ela tremerá, então a maré soará e o vento baterá e a manhã estará se quebrando.

As pessoas no deck nada entenderam, mas continuavam atentas as palavras enigmáticas da senhora a frente.

– Os peixes irão rir enquanto nadam saindo do caminho e as gaivotas também sorrirão e as pedras se levantarão orgulhosas na areia. As palavras que são ditas para confundir o capitão não serão compreendidas pois as correntes do mar terão partido a noite e enterrado tais palavras no fundo do oceano.”

Ela parou mais uma vez para o encarar, seu rosto era sereno, ele olhava para o nada e prestava atenção em cada palavra que ela dizia. Ela se sentiu feliz por isso, retomou o livro e a leitura.

“ Os tripulantes cada vez mais confusos não sabiam como agir diante de tal enxurrada de informações e enigmas apresentados por sua locutora. Ela também não dava espaço para perguntas e retomava seu discurso:

– Uma canção irá se elevar enquanto as principais velas mudam e o barco boiará na costa. O sol irá respeitar cada rosto nesse convés e areias vão rolar por um carpete de ouro para que seus dedos cansados possam pisar. E os sábios aqui presentes irão lembra-te mais uma vez que o mundo todo os assiste.

Ela parou mais uma vez, rostos em dúvida, eles compreendiam aquilo tudo, mas não por completo, se mantinham calados e atentos.”

Ele já estava de olhos fechados, ela deduziu que estava cansado, retomou a leitura, estava quase no final.

“A narradora então tomou uma ultima golfada de ar e continuou seu misterioso discurso:

-Os inimigos vão aparecer com seus olhos pesando de sono e pularão e suas camas pensando que estão sonhando, mas irão se beliscar e saberão que é tudo realidade, assim então erguerão suas mãos dizendo todas as duas exigências e nós gritaremos a bombordo que seus dias estão contados e eles se afogarão em uma onda, e nós teremos paz eterna na hora que o navio chegar.

O navio então atracou em uma linda e pacífica ilha, eles então foram descendo, e de fato aqueles grãos de areia brilhavam como ouro,  e ao chegar na praia ouviram algumas risadas, seriam os peixes? Ou as gaivotas? Ninguém soube responder. Eles analisavam a estranha ilha e quando se deram conta o navio havia partido a locutora também, aos poucos caminharam ilha a dentro e lentamente foram trilhando caminhos que não entendiam, mas que instintivamente lhes daria a paz eterna.”

Ele já dormia com uma expressão serena no rosto, uma paz ímpar. Ela então fechou o pesado volume o beijou na testa e sutilmente disse:

– Descanse em paz, meu amor.

Uma lagrima a correr em seu rosto.

Pela manhã a família derramou seu pranto, apesar da tristeza e do medo da saudade, eles sabiam que era a chegada a hora, ele tomou parte no deck, ele ouviu as instruções e enfim encontrou a paz.

 

(Baseado na canção “When the ship comes in” de Bob Dylan)

Post navigation

  2 comments for “Quando o navio chegar

  1. Will
    2 de agosto de 2017 at 10:37

    Gostei bastante do estilo. Intercalar o texto e a estória, essa parte foi bem feita, e entendi a sua intenção com a musica também, mas acho que as imagens que você passou nas metáforas ficaram meio confusas. Quero dizer, o sentido delas estava claro o tempo todo, mas era imagens difíceis de se ver. Acho que é isso.

  2. 4 de agosto de 2017 at 08:02

    Senti o mesmo que o Willian. Acredito que pelo modo bonito que você escreveu, me senti muito tocada, mas não entendi muita coisa RS foi difícil concretizar o cenário na mente. Deu pra perceber que você tinha uma intenção clara, mas que eu não compreendi.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *