Quarto Branco

A sala é clara, muito clara, tão branca quanto o infinito, aliás é impossível enxergar o final dela. Ao chegar lá todos tem expressão de perdido e tentam entender o que está acontecendo. Após entrarem eles andam até o centro, e lá ela vem, calmamente deslizando pelo chão, vestida de cetim, o tecido cai levemente sob seu corpo.

E assim também foi com ele, chegou, perdido, procurando e tentando entender. Levou mais tempo que o normal para chegar ao centro da sala, e ela se aproximou, pálida, cabelos e olhos negros, o fitava de forma séria mas não ameaçadora. Ele então a perguntou:

– Olá?

– Oi João.

– Como você sabe o meu nome?

– Eu sei o nome de tudo que vive.

– Ah sim… Que lugar é esse?

– Aqui? Acho que ninguém nunca nomeou esse lugar, eu diria que é o nada.

– Nada?

– É, acho que esse seria um bom nome.

– E quem é você?

– Eu? Sou sua ultima companhia.

– Ultima?

– Sim, depois daqui não existe mais nada.

– Mas eu achei que aqui fosse o nada…

– Aqui é onde ele se inicia.

– Entendi, eu morri?

– Ainda não.

– Como assim?

– Em breve eu te explico.

– Tem outro jeito?

– Não, só pode ser assim.

– Fazer o que… eu não me lembro se terminei meu whisky…

– Eu não seria tão desagradável assim…

– Terminei?

– Claro, todos merecem um último gole.

– Ah que bom, me sinto melhor sabendo disso. Apaguei o cigarro no cinzeiro?

– Sim, também esperei por isso.

– Ufa, não quero parecer descuidado e causar um incendido, quem sabe a morte de alguém…

– Sim, não é justo levar quem não está no dia certo.

– O que nós estamos fazendo aqui?

– Oras, não é claro? Conversando!

– Isso eu sei, mas para que?

– Eu preciso saber se devo.

– Deve o que?

– Te beijar!

João cora levemente.

– Me beijar? Você me acha bonito é?

– Isso não vem ao caso…

– Eu beijaria a senhorita, toda bem vestida, olhos bonitos…

– A questão é, se eu devo te beijar.

– Aproveite, pois eu ainda não conheci a mulher da minha vida, vai que é você…

– Você não ia querer que eu fosse a mulher da sua “vida”.

– Ixi, tão ruim assim?

– Não diria ruim, mas sim breve.

– Entendi, bom então decide ai, você é quem sabe.

– Sim, acredito que é dada a hora.

– Hora de quê?

– De partir.

– Para onde?

– Já falei, para o nada.

– É verdade, já disse.

Nessa hora ela o beija, seu beijo tem o gosto de séculos, a mente de João rodopia por toda a sua vida, ele sente cada acontecimento passar como um furacão diante dos seus olhos, sensações, cheiros, lugares, pessoas, tudo de uma vez.

E aqui jaz João, morto em sua poltrona em um pequeno quarto alugado no centro da cidade. Homem de hábitos solitários e calado. Não deixou nada e nem ninguém. Ao seu lado foram encontrados uma garrafa de whisky pela metade, um copo vazio e um cinzeiro com alguns cigarros apagados. Morreu de parada cardíaca, não sofreu, foi rápido e partiu. Assim como todos os homens ele nasceu e morreu sozinho, do pó veio e ao pó retornará.

  4 comments for “Quarto Branco

  1. 17 de julho de 2017 at 19:13

    João demorou para entender quem era a moça. Deveria ter aproveitado a relutância dela e negado o beijo. Quem sabe ainda estaria em seu quarto, tomando o seu whisky… 😉

  2. 18 de julho de 2017 at 07:56

    Muito bom! A morte parece ser uma figura doce no seu conto, e o João chega a ser cômico por não entender o que está acontecendo RS.

  3. Fabio Baptista
    18 de julho de 2017 at 09:54

    João super ingênuo kkkk
    Só queria umas “bitocas”

  4. Will
    26 de julho de 2017 at 13:17

    Achei bem interessante a ideia de João não perceber, pelo menos não de verdade, o que estava acontecendo. Era o único jeito do personagem agir normalmente naquela situação e você não ter que ficar explicando ou convencendo o personagem da verdade, o que costuma ser bem chato. Conto curto e eficiente. Muito bom.

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