Refúgio

 

O L’Amitié é o meu lugar favorito no mundo; ele fica na avenida principal da cidade, tem uma cafeteria-bar no subsolo, à nível da rua uma loja de souvenires e no mezanino um excelente restaurante. Quando estou feliz ou tenho algo a comemorar, sugiro um delicioso jantar, Caponata, um divino Fettuccine ao molho branco com brócolis gratinado, algo da carta de vinhos para acompanhar e, se ainda houver espaço, um Pettit Gateau ou uma Panna Cotta. Quando estou mais introspectiva ou um pouco abaixo do meu nível normal de felicidade, me desloco para o café e tomo um Mocha Caramelo com Donuts cheios de açúcar; eles adoçam a minha vida um pouco, depois passo na lojinha e compro uma caneca nova para minha coleção: já são 132 de vários estilos e lugares, delicada e metodicamente posicionadas nas prateleiras brancas que coloquei no quarto do apartamento que uso para trabalhar às vezes.

Tudo isso para entender o quanto me importo com as pequenas coisas. No meu trabalho também é tudo pensado: Sou formada em Publicidade e Propaganda e sou proprietária e Diretora de Arte de uma agência de médio porte; já sabia o que queria aos 15 anos e nunca duvidei disso, não importava o que dissessem. Consegui um estágio aos 19 e precisei mudar de cidade, o que veio a calhar com o fato de que eu odiava meu padrasto e queria a todo custo sair de casa. Fiz uma pequena mala e fui morar em Curitiba por 2 anos, até que percebi que tinha (modéstia à parte), muito potencial sendo desperdiçado como funcionária; juntei minhas economias e voltei para abrir uma coisa minha. Acho que fiz bem. Hoje aos 27 tudo vai bem, fiz uma pós-graduação e tenho situação financeira bem aceitável. Claro que no começo, sozinha, trabalhei como uma condenada, mas depois com os clientes bons que chegaram, consegui formar uma equipe e hoje trabalho bem menos.

Já com a vida amorosa é só tragédia. Arthur, meu último namorado, com quem fiquei por 3 anos, de repente descobriu que não éramos compatíveis. Terminou nosso namoro sem me explicar mais nada, num telefonema e desde então não o vi mais. Com Marcelo e Renan foi quase a mesma coisa. Tudo lindo por um tempo, até que eles chegavam a conclusão de que não estávamos em sintonia, não os culpo.

Virginiana que sou, não demoro muito para superar a fossa, não me orgulho disso, mas pelo menos a minha vida segue, sabe!? Não posso reclamar da minha vida sexual e das minhas ficadas, quando estou a fim até consigo ser feliz por uma noite ou duas, o motivo da insatisfação é com o tal do amor mesmo. Isso eu tenho em comum com o Celso, meu melhor amigo, ele foi tão infeliz nos relacionamentos quanto eu e, vez ou outra, fazemos piada com a nossa situação.

Numa dessas vezes fomos jantar. Celso é formado em moda e tinha assinado um contrato para ser Co-stylist da Helô Rocha, me ligou aos berros para contar e fomos comemorar no andar de cima do L’Amitié. Enquanto degustávamos algumas bruschettas e a segunda taça de vinho tinto, entrou um rapaz que parou o restaurante: Negro, barba por fazer, lindos olhos caramelo, camisa e paletó.

– Dá uma olhada nesse cara! – me cutucou Celso, boquiaberto.

– Parece que todo mundo tá dando uma olhada! – ri.

– Pena que ele tá olhando pra você!

– Que nada! Ele deve achar que somos um casal – afirmei.

Hello, né querida! Dá pra ver a quilômetros que eu e você somos mais irmãs que namorados – bufou.

Seguimos falando sobre a vida e não hesitei em pedir a sobremesa, já que fazia certo tempo que não ia lá. Quando decidimos encerrar e Celso fez as honras de pedir a conta, o garçom trouxe o recibo junto a um vinho embalado para presente e um cartão.

– Pediram pra que eu entregasse à senhora, madame. O carro já está a sua espera. Tenha uma excelente ida pra casa. – completou.

Li o cartão.

“Espero que o próximo vinho possamos tomar juntos. Enzo Freitas.”

Sob a assinatura estava o telefone dele. Guardei o cartão no bolso, entramos no carro e fui pra casa dormir com um grande sorriso no rosto.

Eu mandei mensagem, chegamos até a sair algumas vezes e foi maravilhoso, mas não acho que seja do meu feitio encontros casuais: é o que ele queria. Depois de 5 ou 6 vezes, achei que podia tomar o próximo vinho sozinha. Só achei mesmo. Uma noite qualquer, durante uma das raras vezes que decidi cozinhar minha própria comida, meu celular vibra no avental e tenho que pausar a voz da Mallu Magalhães para atender:

-Pronto?

– Oi, tudo bem? – disse a voz familiar do outro lado.

– Arthur! Tudo….ai, droga! – Xinguei, porque cortei o dedo ao lembrar daquele imbecil. – Por aqui está tudo bem e por aí?

– Ah, mais ou menos né!? Como sempre – riu.

-É, talvez – ri.

– Você vai à festa da Marina, imagino.

– Acho que vou sim – Marina era uma amiga em comum nossa, que não era o tipo de pessoa a quem se podia dizer não.  Ela sempre fazia festas todas pomposas em seus aniversários e fazia de tudo para que todo o mundo fosse. – Não é como se eu tivesse muita escolha, você sabe – ri.

– É verdade – riu – Legal.

Conversamos um pouco sobre a vida, nada muito interessante e quando vi já o tinha convidado para jantar. Cerca de uma hora depois ele tocou a campainha com duas garrafas na mão: uma do meu vinho favorito, outra de uísque. Ao final do jantar ele tocou no assunto:

– Como estamos depois de tudo isso?

– Como o seu uísque, Arthur: On the Rocks. – respondi.

Ele riu e tudo que eu queria era enfiar o garfo de carne no pescoço dele, mas me contive em ficar de cara amarrada. Levantei para levar os pratos na pia, quando virei ele me puxou para seus braços e me beijou.

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Enquanto eu me vestia, ele acendeu um cigarro e encheu duas taças com o vinho que tinha trazido.

– Comprei no L’Amitié, porque sei que você adora. Um último brinde – Me entregou uma das taças e ergueu a outra para que se tocassem – À você e todo o seu charme.

– Último brinde, que mórbido – debochei

– A gente nunca sabe – ele riu.

Terminamos a garrafa e pegamos no sono. Quando acordei ele não estava mais na cama, nem no chuveiro, tampouco atendeu o celular, ou voltou para casa e ainda meu carro não estava na garagem. O café da manhã estava sobre a mesa e junto a ele mais duas garrafas de vinho igual ao dia anterior e, em um guardanapo. Nele, uma lista de tarefas riscadas sendo a última, ainda com tinta fresca “tomar uma última taça de vinho com Margot”.

 

Peguei o celular no bolso do meu robe e liguei para o 190, mas acho que demorei demais para acordar.

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  5 comments for “Refúgio

  1. 21 de junho de 2017 at 23:59

    Eu gostei do conto, mas achei que o Enzo e o Artur não tinham muita ligação. Contar sobre os dois foi interessante, mas em nenhum momento eles se complementam.

  2. Fabio Baptista
    22 de junho de 2017 at 16:04

    Oi, May 🙂

    Obrigado pelo comentário!

  3. Willian Fernandes
    23 de junho de 2017 at 15:38

    Eu fiquei com fome lendo sobre o restaurante. Acho vc muito atento quando descreve as coisas. Sempre fico com vontade de algo. Enfim, gostei do texto. Levando em consideração o tema e as limitações, gostei bastante do trabalho, embora tenha ficado curioso com o porque aconteceu o que aconteceu com o Arthur. Ele parecia legal.

    • Fabio Baptista
      26 de junho de 2017 at 16:52

      Oi Willian.
      O macarrão era o favorito dela, assim como é o meu! hahaha Fico feliz que eu tenha conseguido transmitir a sensação.
      Triste mesmo o que houve com o Arthur. Ele, como em alguns outros casos, é o tipo de pessoa que é amável visto de fora, mas que te deixa pra baixo e só te procura quando precisa. Ao mesmo tempo, ele era uma pessoa que precisava de ajuda e ninguém pode ou quis dar.

      Muito obrigado pelo comentário 🙂

  4. Rafaela Carvalho
    13 de julho de 2017 at 16:21

    Sabe esse e um texto muito real,
    pois quantas pessoas não vem atrás de você quando não estão bem e não consegue explicar o que esta acontecendo ou não aceitam ajuda.

    Amei esse Conto.

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