Relógio Suíço

 

Laurel é uma jornalista brilhante. Morena, tem a pele tão branca que chega a ser rosada, tem cerca de 1,75 de altura e olhos verde bem escuros. Mudou para a Suíça aos 12 anos de idade, quando o pai morreu e a mãe precisou ir pra junto da família pra conseguir se sustentar. Aos 17 a mãe então faleceu, e ela ficou com as tias até os 22, quando conseguiu um bom cargo na revista e conseguiu morar sozinha. Hoje tem 29 e chama atenção por ainda ser solteira (o que é raro no seu círculo social).

Sua carreira na revista mais famosa do país já lhe proporcionou diversos prêmios e oportunidades. O mais importante deles é referente a uma das matérias sobre a situação política na Suíça: um dos grandes nomes foi pego e ela é a principal jornalista contrária a ele, o que tem lhe rendido alguns olhares tortos.

Como formadora de opinião ela recebe muitos presentes das marcas, para criar uma boa impressão, então é normal chegar na redação ou em casa e encontrar dezenas de  caixas padrão feitas de papelão marrom e com inúmeras etiquetas brancas. Quando, porém, chegou a redação naquela manhã de segunda – feira, encontrou uma caixa diferente: essa estava no topo da pilha, preta, sem emendas e com um contador digital que marcava regressivamente o prazo de 14 dias, 10 horas e 59 minutos. Tentou inibir a primeira impressão sobre a caixa, mas foi impossível: acabara de receber uma bomba!

Não era novidade que a cabeça dela estava a prêmio, já tinha feito 19 boletins de ocorrência alegando ameaças e perseguições, mas desde o 11º a polícia já não acreditava mais, então ela havia desistido de fazê-lo. Decidiu que não ia pensar nele, tinha uma reunião importante em duas horas, tinha que se preparar. Colocou então a caixa dentro do cofre, porque assim se fosse mesmo a tal bomba, pensou, o cofre protegeria a todos.

A empresa estava num momento difícil. Depois da troca do último presidente, todas as matérias passavam por um pente ultra fino de censura, o que dificultava bastante o trabalho de alguns, incluindo Laurel que sempre teve  liberdade pra dizer o que bem queria. A reunião foi bastante acalorada e mesmo pensando na caixa, ela defendeu alguns de seus pontos:

– Então quer dizer que agora a revista inteira, principalmente minha coluna, vão ter que dizer tudo que o SENHOR pensa?

– Todos tem pontos de vista, Srta. Bongard. O que a senhora faz com eles daquela porta para fora não me interessa, mas aqui dentro precisamos respeitar alguns limites.

– Por exemplo? – indagou, quase esquecendo que estava conversando com seu chefe.

– Criticar o maior nome de nosso país não parece muito lucrativo para nós. – disse o presidente, com tom de deboche.

– O Sr. então sugere fingir que não existe problema?

– Sugiro que faça seu trabalho. Apesar da carreira de respeito que possui, não seria dor de cabeça muito grande conseguir alguém que queira essa vaga.

O silêncio tomou conta do recinto e antes de todos saírem, o presidente finalizou:

– As coisas passaram dos limites aqui. Vou enviar relatórios a todos dizendo o que DEVE ser alterado.

Antes de entrar em sua sala, Laurel resolve ir ao banheiro e na volta, passa pela mesa do colunista de cultura, o jovem Noah:

– Laurel, é…concordo com a sua posição na reunião, o Sr. Boechat as vezes exagera. E, ahn…seu último texto sobre as relações internacionais ficou muito bom! – Interviu Noah, sorrindo.

– Ah, obrigado Noah! Fico feliz que leia meus textos. O seu último foi…ahn…

– O Jogo do Bazel e o recorde que alcançaram. – lembrou-a.

– Verdade. Me desculpe, não tenho tido muito tempo pra ler. – tentou justificar

– Tudo bem, deve ser difícil mesmo. – disse meio cabisbaixo – Bom, boa sorte com Boechat.

– Obrigada! – Assentiu e voltou pra sua sala.

Na verdade ela nunca prestou muita atenção em Noah. Ele tem cerca de 1,68cm de altura, cabelos loiros até o ombro, por vezes preso em rabo de cavalo ou coque; veio do jornal local, sua paixão por futebol e por literatura o fez comentarista e depois conseguiu a vaga de colunista lá. Nos eventos da empresa ele esperava apenas o discurso do presidente e ia embora, nunca foi de se misturar.

Duas semnas depois tudo havia piorado. Saiu uma nova informação sobre o julgamento do político e Laurel teve que escrever tudo de forma subliminar, todos já estavam tensos com as alterações de Boechat e ela quase se esqueceu que tinha uma suposta bomba dentro do cofre, que agora marcava menos de um dia.

Era fechamento, ou seja, todos os diretores ficavam lá até a revista ficar pronta (o que agora era muito mais difícil,graças a peculiaridade do Presidente), o que podia significar “até o meio da madrugada”. Nisso, ela aguardava em sua sala, tomando um chá de camomila e olhando as redes sociais naquela tediosa noite. Depois dos funcionários ‘não diretores’ saírem, Noah parou frente à porta:

– Noite difícil, né?

– Nem me fale. Sabe Deus que horas vou sair daqui. – disse ‘bufando’.

– Boa sorte (riu). Não estou muito melhor que você, tenho que cobrir um evento de basquete daqui algumas horas.

– AI CARAMBA! – ela gritou.

– Que foi? – ele perguntou preocupado.

– NÃO EXPLODIMOS! – ela consultou o relógio, abriu o cofre e pegou a caixa, que agora marcava 12.06 – achei que isso era uma bomba!

– Uma bomba? Sério? – ele riu alto e saindo da sala disse – Achei que já tivesse aberto. Boa noite!

Sem entender nada, apressadamente abriu o pacote, agora isso era possível, graças a uma aba que não estava ali antes. Em meio a vários livros embrulhados, havia um bilhete:

 

“Uma mulher como você talvez nem abra essa caixa ou se dê ao trabalho de ler o bilhete quando ver quem escreveu, mas mesmo assim achei que deveria mandar. Quando eu era criança, essas histórias me fizeram passar a amar a literatura e magicamente me ajudaram num momento difícil. Sei que muito provavelmente uma mulher como você já os leu, mas talvez reler, e em especial, estas edições, te ajudem a passar por mais essa.

Com admiração,

Noah Castellar

 

PS: o contador foi mera formalidade, feliz dia dos namorados! (o jogo é mentira, podemos sair pra jantar, é só me ligar)”

 

Eram manuscritos do Harry Potter.

Post navigation

  6 comments for “Relógio Suíço

  1. 29 de maio de 2017 at 19:57

    Ué, se ela nunca olhou para ele, porque ele está dando um presente de dia dos namorados para ela? Fiquei um pouco confusa rs. Gostei da história de qualquer forma, tem empatia e potencial. Acredito que você possa treinar um pouco sua escrita para mostrar ao invés de descrever. Tinha horas que com poucas palavras você descrevia e simplificava, quando existia bastante potencial para explorar demonstrando a situação com ações, gestos, sentimentos.

    • Fabio Baptista
      30 de maio de 2017 at 12:27

      Porque ele ‘faz papel de trouxa’ hahahah
      É um admirador quase secreto, na real.
      Obrigado pelos toques, vou aprimorar. 🙂

  2. Willian Fernandes
    30 de maio de 2017 at 11:00

    Eu gostei bastante da inversão da expectativa e do desfoque… Digo, a caixa está sim presente e cria um ponto de tensão, mas você conseguiu dar o foco em outra área do conto, o que é bem bacana na minha opinião. Eu trabalharia mais o espaço entre as descrições para o texto ficar mais fluido apenas. ^^

    • Fabio Baptista
      30 de maio de 2017 at 12:25

      Muito obrigado Willian, vou tentar melhorar isso. 🙂

  3. Viviane Farias
    2 de junho de 2017 at 13:24

    Fiquei confusa em algumas partes, por exemplo: antes ele diz que “achava que ela já tinha aberto”, depois, na carta que “não esperava que ela abrisse”. Achei também que ele foi bem figurante, quando na verdade (não sei) talvez não fosse pra ser.
    Mas: descreva mais, foi bem interessante o rumo que se seguiu e, parabéns!

    • Fabio Baptista
      2 de junho de 2017 at 13:37

      Realmente, pensando assim esse primeiro ficou confuso mesmo. Vou me atentar.
      A ideia é que ele parecesse coadjuvante mesmo porque, pra ela, ele era e aí percebemos que pra ele ela não era coadjuvante hahah

      Muito obrigado, vou aprimorar! 🙂

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *