S3

Sete

 

Tudo começou com o barulho do chicote. O som metálico das cordas se rompendo. Markus tocava a guitarra. A luz forte tingida roxa pela folha de gelatina o cegava mas ele não precisava enxergar. Seus dedos deslizavam por metal e madeira com perfeição, arrancando do instrumento sons precisos, quase obscenos. Ele sorria. Não se importava com as manchas que o suor extremo certamente estavam provocando em sua camiseta. Ali ele não era Markus, o gerente de relacionamento com clientes internacionais. Ali ele era Markus, guitarrista. Ali ele era livre.

 

Seis

 

O barulho dos freios de emergência era agudo. Tudo tremia. Aurora pensou na viagem de trem que acabara de fazer. Peru tinha sido o destino escolhido pela maioria da turma e mesmo preferindo ir para a Argentina, a ruiva acabou topando participar do mochilão, e que bom que topara. A viagem fora fantástica e ela tivera os melhores momentos de sua vida com as amigas e com Pablo, um rapaz que elas conheceram no segundo dia nos arredores de Santa Cruz de la Sierra e que a balançou mais que o próprio trem. Lembrando do toque de seus lábios ela se prometeu ligar para ele assim que parasse de tremer.

 

Cinco

 

A pequena Silvia era muito sensível. Apesar de ser muito jovem para entender o que estava acontecendo, no momento que o elevador começou a acelerar, ela começou a chorar. João olhou para sua esposa e para a filha e lembrou do medo que sentiu no dia do parto. Silvia estava com o cordão umbilical enrolado em seu pescoço e foi preciso uma cesariana de emergência para que ela sobrevivesse. Lembrou-se de como a esposa também ficara assustada e a abraçou forte. Acontecesse o que acontecesse, eles estariam juntos.

 

Quatro

 

Tudo o que Tonhão sentiu foi enjoo. Não parava de beber haviam três dias e quase nada parava no estômago. Terminar com Ritinha tinha sido fácil já que ele a pegara com outro na cama do casal. Tonhão inclusive se considerava um cara até muito controlado, tendo em vista que ninguém morrera. O difícil era agora viver sem ela. Tudo o que ele queria era “desver” a traição mas segundo suas experiências prévias isso só acontecia depois de quantidades absurdas de álcool. Ele sentia falta de não ficar enjoado. Sentia falta de uma refeição decente em seu estomago. Sentia falta de Ritinha.

 

Três

 

Andrea ouvia um choro de criança. Era como se ela estivesse novamente em casa. Sem baba, tentando inutilmente fazer o bebe parar de chorar. Ela se ressentia de Geraldo, o pai da criança. Ele não tinha direito à folgas ou férias, – nem mesmo abonos a empresa lhe concedia – então ele “tinha” que trabalhar. A desculpa perfeita para não passar mais tempo com o filho chorão. Ela também preferiria trabalhar à trocar fraldas, se a perguntassem. O choro persistia. Andrea se sentia incompetente como mãe. Desejar se ver longe do filho só porque ele chorava era errado. Ela sabia disso agora. Ela sabia que nunca mais veria o pequeno e era apenas nele que ela conseguia pensar.

 

Dois

 

Giovanna sentia os pés se soltando do chão. A mochila rosa em suas costas já não pesava tanto quanto antes. Era como se o material escolar tivesse sumido. Giovanna fechou os olhos. Sentiu-se de volta a casa do pai, com ele a pegando no colo e dizendo o quanto ela havia crescido desde a última vez que a vira e jogando-a para cima. Ela tentou sorrir com essa lembrança mas não conseguiu.

 

Um

 

Teodoro sabia o que ia acontecer e, mesmo que alguém tivesse tempo de perguntar, ele dificilmente assumiria que queria mesmo é que acabasse logo. Teodoro havia até o momento sido um homem que esperava . Ele esperava que seu casamento durasse mesmo ciente de que nada fazia para tornar essa esperança verdade. Ele esperava por uma promoção depois de cada caso grande que ganhava, mas que nunca vinha. Ele esperava que aquela dor de dente que o incomodava a semanas não fosse um canal, também esperando para ser aberto. Teodoro esperava, e esperava, e agora, com o fim chegando, apenas esperava que fosse indolor.

 

T

 

Alessandro olhava espantado para os números que corriam no painel de espera do elevador. Algo com certeza estava muito errado, afinal aquela “joça” nunca fora tão rápida. Ainda assim xingou quando o elevador passou direto pelo térreo sem abrir as portas. Era esperar muito que o universo lhe ajudasse, ainda mais hoje que ele estava atrasado.  Apertou o botão a sua frente novamente e torceu para que o elevador voltasse logo. Alessandro se achava um sujeito sem sorte.

 

S1

 

O tempo desacelerou. Quase ninguém mais mantinha os pés no chão. A luz interna do elevador falhou pela ultima vez, deixando os passageiros na escuridão.

 

S2

 

Alessandro se afastou das portas do elevador assustado. Ele sentiu o impacto da caixa de metal. Não viu, mas ouviu as hastes internas do elevador se vergando e quebrando. A caixa se deformando enquanto molas e cabos abriam rasgos em sua frágil estrutura. Alessandro ouviu também quando o barulho cessou. Ouviu quando ninguém mais gritou. Ouviu quando tudo acabou.

Alessandro não se sentia mais um sujeito sem sorte.

 

S3

 

 

Teodoro saiu da sala do dentista renovado. Suas dores haviam sumido e sua esposa estava na sala de espera. Mal sabia ela que, saindo dali, os dois iriam para um restaurante caro onde Teodoro anunciaria sua tão sonhada promoção. Finalmente ele não precisaria esperar mais.

 

S3

 

Giovanna caiu no colo do pai. Ela realmente devia estar maior pois o velho quase não conseguiu segura-la. Ela adorava passar um tempo com ele, longe da escola e das preocupações. Sua surpresa foi maior ainda quando, vinda do outro quarto ela ouvira a voz da mãe. Em seu intimo ela sempre soube que os dois voltariam a ficar juntos. Seu sorriso era tão grande quanto a vida.

 

S3

 

Quando a porta se abriu Andrea viu Geraldo brincando com o filho. Ela suspirou de alivio. Finalmente a casa estava limpa e ela descansada. Aquelas férias que Geraldo tirara sem lhe contar foram a melhor surpresa que ela podia ter sonhado. Agora Andrea sentia que tinha uma família. Agora, tudo daria certo.

 

S3

 

O cheiro do feijão despertou Tonhão de seu sono. Ele provavelmente cochilara enquanto esperava Ritinha terminar a comida. O futebol na televisão e a cerveja gelada ao lado da poltrona. Tonhão enfiou a mão no bolso da calça puída e pensou que precisava de roupas novas ou, de repente, de menos trabalho. Ainda assim, Tonhão sorriu ao sentir o fino aro gelado dentro do bolso. Esse era o dia em que pediria Ritinha em casamento.

 

S3

 

João ainda estava abraçado a sua esposa. O milagre da vida os surpreendera. Todo o medo que tiveram se dissipou quando Silvia chorou pela primeira vez. Ele beijou a testa da esposa. Se haviam momentos perfeitos na vida, aquele com certeza era o seu.

 

S3

 

A luz forte do sol do meio dia cegou Aurora. Ela podia jurar que há apenas alguns segundos estava no elevador indo trabalhar, mas agora… Agora Aurora sentia a grama fresca sob seus pés. O ar, mais puro que o da cidade, limpava seus pulmões, e seus dedos se entrelaçavam com os de Pablo. Aurora estava feliz.

 

S3

 

Markus sentiu uma dor forte em suas pernas e quase caiu, mas as mãos do baixista o ampararam. Ele provavelmente se esquecera de beber bastante água antes do show. Com a ajuda do amigo ele se endireitou, tomou um belo gole do copo que estava em cima de uma das caixas de som a sua direita e continuou. Aquele era “O Show” de sua vida.

  5 comments for “S3

  1. 3 de agosto de 2017 at 13:52

    Sem palavras para comentar. Mesmo assim tentarei. Maravilhoso. Sem querer fazer trocadilho (mas já fazendo): impactante. Parabéns. =)

    • 4 de agosto de 2017 at 08:13

      Haueaheuae impactante, ouvi o baterista da banda do Markus fazer o tuduts

    • Will
      8 de agosto de 2017 at 13:52

      Kkkkk…. muito obrigado

  2. 4 de agosto de 2017 at 08:42

    Oi Will,
    Eu sei que não é seu aniversário, mas acho que esse merece um comentário um pouco mais longo. E eu também acordei inspirada.
    Desde o primeiro texto que li no seu blog super antigo, eu admirei muito teu jeito singelo de escrever. Não exagero quando eu digo que um dia quero escrever tão bem quanto você, ser capaz de tocar as pessoas com palavras do mesmo jeito que seus textos me tocam 🙂
    Neste texto, duas coisas me chamaram muita atenção. A ideia da estrutura narrativa em andares de elevador foi muito legal! No início não entendi direito mas quando saca manjasa você solta aquele “Ahhhhhhh” de compreensão. A segunda, e acredito que mais importante, é a construção dos personagens aqui. Me impressionou como você escolheu nomes para todos eles, como conseguiu encaixar tantos em um só conto e como cada um tinha sua personalidade, sua característica, como eram bem construídos e não apenas “mais um fulano que você encontra no elevador”. Enfim, parabéns!
    Um comentário extra: a revisão desse texto ficou melhor que a dos outros rs tá usando o word em português agora é?

    • Will
      8 de agosto de 2017 at 13:55

      Sim, mudei o corretor e tb caprichei na revisão. Eu tb gostei bastante da estrutura do elevador 😉 obrigado

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