Saudosa Letargia

Às minhas olheiras, fiéis companheiras…

Trilha Sonora

Letargia
 (s.f.) é a perda temporária ou completa da sensibilidade e do movimento por causa fisiológica ainda não identificada, levando o indivíduo a um estado mórbido em que as funções vitais estão atenuadas de tal forma que parece estarem suspensas, dando ao corpo a aparência de morte.

PURGATÓRIO
Sempre se inicia com um singelo ruído de fundo. A mente clama por uma trégua, breve que seja, enquanto o subconsciente negocia com o próprio sono. A respiração torna-se pesada, em largas bufadas de suspiros etílicos, e os olhos inchados não mais filtram a meia luz. A cabeça passa a pender para o lado, ao passo em que o corpo se assenta na poltrona rija.

O ruído desbrava minha mente, e se molda em minha sede do impossível. Nos dias bons, ouço risadas. Nos dias ruins, enxergo semblantes, e logo percebo que sou cativo de minhas próprias escolhas. Entretanto, na maior parte dos dias, me encontro no limbo. Um estado da irrealidade localizado no vértice da fatiga, entre a consciência e a inconsciência, onde chamo por memórias que nem sempre me atendem. E, quando atendem, zombam de minha própria imbecilidade.

Luto contra minha própria ansiedade para que não me impeça de visita-la. O sono se faz presente, e traz consigo a esperança, sádica, pronta para me torturar. Antes, a esperança de acordar e saber que tudo não passou de um sonho. Agora, a esperança de vê-la novamente em um de meus poucos sonhos e, com um pouco de sorte, sentir novamente o aroma que se traduz em amor. Estes são os dias bons.

Ah, os dias bons. O ruído torna-se absoluto, e consigo enxerga-la ao fundo. Ela, bonita, e nossos quatro pequenos, todos sorridentes e eufóricos, frutos de nosso amor. Às vezes, ouço também o barulho da praia, sinto a brisa tocar minhas canelas desnudas, e até mesmo o sol, um pouco morno, banhando minha pele. Contento-me com este cenário, na fronteira entre lembrança ou expectativa, e tento degustar de tudo o que ele me dispõe. Antes, chamava por ela, e esperava ouvi-la, que fosse mais uma só vez. Agora, me satisfaço em saber que, ao menos ali, eles ainda esperam por mim.

Ao menos ali, tenho um lar para ser recebido.

Entretanto, infelizmente, eu sempre acordo e, para minha surpresa, ela não está lá. No lugar dela, um copo bem gordo, porém fino, com um blend de whisky e melancolia. Meu estômago inflama, e travo o vômito na garganta. Mais um gole bem dado, e me ponho a escrever, tentando reviver um lado de mim que há muito se foi. O mesmo lado pelo qual ela se apaixonou.

Mais uma folha em branco, e mais um cabeçalho rabiscado.

Minha querida depressão,
Veja, eu não como bem.
Desde sexta só vomito,
Mas só água, é o que tem.”

Por incrível que pareça, depois de todo esse tempo, as pessoas ainda se encantam com minhas escritas. Talvez de forma sádica, banhando-se nas ideias amarguradas de um velho a definhar. Entretanto, ninguém critica ou revisa, mas apenas publicam e me observam deixando-lhes ricos. Já deixei que erros ortográficos e de concordância passassem impunes, de propósito, apenas para testar a competência de meus editores. Entretanto, há um momento na vida de um homem em que seu nome vale mais que a própria competência.

Cores fracas, riso torto
Coração apavorado
Revivendo o que está morto,
Sonhador desesperado.”

Mercenários imundos, estúpidos, iletrados, sádicos, malditos. Esbaldam-se no desgosto de um moribundo. E pensar que já fui como eles, admirando a agonia de autores que me precediam. Tentei botar coração onde todos colocam dinheiro, e acabei me tornando uma fonte de amargura para pessoas sem problemas o suficiente. Sequer param para pensar no que os autores sentiram enquanto vomitavam suas mágoas em folhas de papel. E, qual é o problema, se te render um milhão de compartilhamentos, não é mesmo?

“Minha querida ansiedade,
Veja, não me fazes bem.
Desde sexta só me arranho,
E me perguntam o que é que tem.”

Não, não é bonito. Não é para ser bonito. É um aviso, seus imbecis. É um recado para que não errem como eu errei. Mas não entendem, e jamais entenderão. Pessoas que entortam os lábios para qualquer merda que lhes apresentam em versos. Mal sabem eles que a arte não é um fim, e sim um meio de transmitir sentimentos.

“Cores fortes, riso tenso
Esperança é um breu
Revivendo um momento
Que sequer aconteceu.”

E continuo a transmitir os meus, na expectativa de que, em algum lugar, num quarto escuro, um homem sinta o que estou sentindo, e se prive de fazer a escolha errada. Deus, faça com que ele entenda. Nunca saberei de quem se trata, mas ele fará a coisa certa, e jamais perderá todos que perdi. E, daqui a alguns anos, ele estará feliz e satisfeito, envolto em três gerações abaixo de si, e ele saberá, lá no fundo, que fez a coisa certa.

Dono do meu devaneio,
Quinze dias tu me deu
E o meu maior anseio
É acordar com um toque seu.”

O que eu deveria ter feito, mas não o fiz, e, portanto, estou sozinho.

REDENÇÃO
Imerso em devaneios, sufocado pela própria tristeza, me encontro sentado numa mesa de bar. Um dos ambientes mais depressivos para um meio de semana, penso comigo, com quatro ou cinco gatos pingados afogando suas angústias em copos meio rasos.

Me limito a fitar a mesa à minha frente. Tiro do bolso o papel antes escrito, posiciono a caneta logo abaixo do último verso, e aguardo para registrar parte do que sinto. Entretanto, e talvez felizmente, a virtude não aprecia ambientes como aquele, e eu sempre soube disso. Dessa forma, me ponho a aguardar, sem que o mínimo de atenção seja dada a qualquer murmuro que venha dos outros ali presentes.

E, como esperado, um homem se senta à minha frente.

Levanto os olhos de forma penosa, sem orgulho de minhas olheiras, somente para encontrar uma pequena dose do que já fui.

– Como está a sua mãe? – Digo com certo pesar, e travo o enjoo e minha garganta desgastada.

– Casta, como sempre. – Meu filho responde, e percebo tristeza em sua voz – Se antes ia à igreja todo domingo, hoje é raro quando não faz alguma prece.

Fitei seu queixo afiado, incapaz de olhá-lo nos olhos.

– Belo Deus, o que ela cultua. – Disse com ironia.

– Pai… – Tentou me interromper, mas sem sucesso

– De todos os deuses a serem escolhidos, ela opta por esse maldito vingativo. – Um suspiro de satisfação escapa de minha garganta.

– Deus sabe o que faz, pai. – Respondeu dotado de certeza – Ele não comete erros.

– O livre-arbítrio foi um erro. – Respondi de imediato

– Pai, por favor…

– É a mais pura verdade. – Prossegui – É como dar poder de escolha a um bando de crianças mimadas. Simplesmente ridículo.

Por mais que o tempo tenha passado, e a glória talvez esquecida, eu ainda me orgulhava quando conseguia ironizar algo de forma esperta. Entretanto, a satisfação se esvaia ao lembrar de nossas risadas. Nosso humor era ácido, certeiro, sem rédeas, e apenas nosso.

– Ela nunca saiu com nenhum outro homem depois do senhor. – Tentou me consolar, e retruquei com acidez

– Outro erro. É o que ocorre quando você decide seguir uma doutrina ruim.

– Pai, podemos não entrar nesse assunto…? – Notei desgosto em sua voz. Lambeu o lábio inferior, disposto a tratar daquilo para o que tinha vindo.

– Ela merece alguém que zele por ela, e que a faça feliz.

– Ela não quer nada disso, pai. – Retrucou – E todos nós zelamos por ela o tempo todo. Ela entende que seu propósito nessa vida já foi cumprido…

– Não há propósito na vida. Ninguém existe com um propósito. Ninguém pertence a nenhum lugar, e todos nós vamos morrer. – Sempre fui excelente em dar murro em ponta de faca.

– Não estamos aqui para debater sobre a vida e o universo. – Tirou do casaco um envelope marrom – Eu preciso que o senhor assine.

Me ofendi.

– Por quê? Faz diferença? – Não consegui olhá-lo nos olhos – Já estamos divorciados há anos, e não a vejo há mais tempo do que consigo me lembrar.

Observei-o suspirar profundamente. Numa breve faísca de empatia, me pus no lugar de meu filho, assistindo ao pai se recusar a dar à sua mãe o que lhe é de direito. Agi como os velhos que sempre repudiei. Neste momento, travei o choro à garganta. Cego de orgulho, tentei prosseguir:

– Deixe como está. – A voz chorosa se fez presente – De qualquer forma, eu não tenho muito mais muito tempo.

– Pai, por favor, entenda… – Ele tocou minha mão, e lágrimas surgiram.

– Eu só te peço isso, filho… – Engoli a tristeza, que rasgou minha garganta – Eu já sofri o suficiente. Eu perdi a honra, perdi o respeito dos meus filhos… – Finalmente levantei os olhos, aos poucos, de encontro com os dele – …só não me faça perder a mulher da minha vida.

Ao fita-lo nos olhos, enxerguei-a me observando. A tristeza escapou e, sem sucesso, tentei engolir todo o pesar de uma só vez. Lágrimas brotaram em abundância, e desabei sobre a mão de meu filho caçula.

– Eu ainda a amo. – Engasguei em minhas palavras enquanto sentia o sabor de minhas próprias lágrimas – Amo-a com todas as forças, e de toda minha alma. Diga para ela, por favor.

– Por favor, pai, não torne isso mais difícil do que já está sendo… – Apertou forte minha mão, e olhei de novo para seus olhos.

– Eu errei, filho. – Finalmente admiti, derrotado – Eu joguei tudo fora por prazeres mundanos. Eu sei que errei.

– Ninguém é obrigado a perdoar traições, pai. – A realidade me chocou como um murro certeiro que desloca a mandíbula – Ela não vai voltar atrás.

– Um homem não tem o direito de errar? – Supliquei – Não é possível! Foram infinitos momentos maravilhosos que vivemos juntos!

– E o senhor jogou tudo fora em função de outras mulheres. – Novamente me acertou, e senti meu coração apertar por um breve segundo.

– Eu… eu errei. – Fitei novamente a mesa, envergonhado – Errei onde não deveria ter errado. – Olhei novamente para ele, e me enchi de orgulho – Não consegui ser homem o suficiente, mas sei que vocês serão melhores do que eu.

Observei meu filho engolindo saliva. Sorri para ele, certo de que não me acompanharia no choro, quando lágrimas marcaram sua face.

– Me dê logo o papel. – Ordenei, estendendo a mão esquerda

Ele tirou do envelope os documentos referentes ao divórcio, e me entregou-os em mãos.

Assinei.

– E limpe essas lágrimas. – Disse a ele, devolvendo-lhe os documentos – Homem de verdade não chora.

– É aí que o senhor se engana, papai… – Guardou-os novamente no envelope – Homens de verdade choram sem se preocupar em cobrir o próprio rosto. “Não temos nada a esconder”, é o que o senhor sempre nos ensinou, não é mesmo?

Neste momento, tive a certeza de que, ao menos na criação de meus filhos, eu havia acertado em cheio. Tive orgulho, admito, mas não de mim, e sim do homem que ele havia se tornado.

Voltei novamente minha atenção ao rascunho de antes, com o poema incompleto.

– Posso te pedir uma última coisa?

Agarrei a caneta, posicionei-a logo abaixo da última estrofe, e me pus a escrever.

“Minha querida depressão,
Eu não sei mais distinguir
O que é real e fantasia,
Se só anseio por dormir.”

– Claro. – Me respondeu com um sorriso no rosto – Qualquer coisa.

Um turbilhão de memórias veio à minha cabeça. O primeiro beijo. O doce odor de seus cabelos. Seus olhos abrindo-se lentamente após acordar. Deus, como eu amava observá-la acordar! Momentos infindáveis, lembranças calorosas da perfeição que criamos em nosso próprio universo.

Continuei escrevendo, cuidando para que as lágrimas não borrassem a tinta ainda molhada.

“Dormir fundo, dormir bem
Como quando éramos um.
Eu te chamo, e tu não vem,
Cinco dias de jejum.”

– Você pode entregar isso para ela? – Dobrei o papel e o entreguei com a certeza de que jamais seria visto por olhares diversos.

– Posso. – Tomou o papel de minha mão e prontamente guardou-o no casaco – Claro que posso.

Abracei-o com força, e notei que as pessoas ao redor nos observavam. Algumas contentes, e outras emocionadas. Dei de ombros.

– Você tem os olhos da sua mãe. – Fitei-os profundamente, como que pela primeira vez – E são os mais maravilhosos que eu já vi. – Um sorriso de orgulho se ascendeu na face de meu filho, e, depois de tanto tempo, me senti amado mais uma vez.

A vida é feita de lições, e cabe a nós não repetirmos os erros dos menos afortunados. O amor não deve ser entendido, negociado, digerido ou saciado. O amor deve ser sentido e, com muita cautela, degustado. Creio que, ao menos nesta vida, eu tenha entendido do que se trata o amor, e estou satisfeito com isso.

Apesar de tudo, ainda há uma coisa que me tira o sono.
Dizem que é a última que morre, e, de fato, creio que morrerei bem antes dela própria.

  5 comments for “Saudosa Letargia

  1. Fabio Baptista
    10 de julho de 2017 at 17:35

    Hey, gostei muito da história!
    Único ponto, mas que não é uma crítica, é um ponto de vista: achei um pouco rebuscado demais. Acho que nesse caso, se a fosse contada de maneira mais leve, a história teria ficado ainda melhor.
    Bom trabalho 🙂

  2. rafaela carvalho
    13 de julho de 2017 at 15:26

    Sabe lendo essa historia hoje,
    senti sensações que não lembrava a um certo tempo que existia.

  3. 17 de julho de 2017 at 08:51

    Concordo com o Fabio! Gostei muito do texto, melancólico, sentimental. O fato do começo ser muito rebuscado deixou o texto mais pesado (não emocionalmente, pesado de ler, entende?). Acho que por conta de fazer o mistério e deixar para revelar o assunto mais para o final, acaba colocando muita descrição para algo que o leitor ainda desconhece. Em alguns casos isso pode deixar ele curioso, mas como o texto ficou rebuscado, me deixou ansiosa e um teco irritada (do tipo: ok, fale logo).
    No final, a última frase ficou um pouco confusa. É a esperança, certo? Mas isso quer dizer que ele se matou?

  4. Will
    26 de julho de 2017 at 09:06

    Caraca… “QUE PERSONAGEM”
    Eu adorei o personagem principal. O texto em si é muito bom, mas para mim ele é o que mais brilha.
    O texto em si é rebuscado, sim, mas considerando que ele escreve poesia, portanto provavelmente ganha a vida com as palavras, é normal que seja.
    Enfim, um belo trabalho.

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