“Skyline Pigeon”

Noite de lua cheia.

Como está bonito o jardim, iluminado por essa luz. Intensa e ao mesmo tempo suave, tão diferente da luz do sol. Tudo se torna belo e misterioso, sensação de um grande segredo pairando sob o luar.

Queria estar agora ali no meio das árvores, pisando de pés descalços na grama úmida, dançando de braços abertos, respirando o ar deliciosamente frio. A brisa nas noites de lua tem um cheiro diferente. De terra, de seiva escorrida, de frescor, de liberdade.

Maravilhoso o resplendor daquelas nuvens vagando sem pressa no céu… Seria bom voar até lá, seguir junto com elas navegando na luz. Sem destino, sem pensar em nada, só sentindo paz e alegria de existir.

Não tenho tido muitas alegrias na minha existência. São tantas coisas que não entendo.

Moro nesta casa desde sempre. Todos me tratam bem, me trazem brinquedos, brincam comigo e contam histórias. Mas sou proibida de passear sozinha. Há sempre alguém segurando forte a minha mão quando estamos lá fora. Não posso nem correr atrás das pombinhas, nem subir em árvores, nem nada. Apanhar flores não dá, catar pedrinhas é impossível.

Certa noite, na outra lua cheia, esperei todos dormirem e tentei sair por uma das janelas. Foi quando percebi: todas têm grades de ferro.

Uma única vez fomos até o limite do jardim, isso depois de eu pedir muito. Só concordaram quando perceberam as lágrimas nos meus olhos. Era uma tarde linda, o céu estava de um azul profundo e eu podia ver a felicidade dos pássaros e das borboletas.

Fiquei admirada com a altura do muro.

“Por que tão alto assim?” perguntei. Nenhuma resposta.

Depois disso comecei a ter vontade de sair daqui. Eles afirmam que nada existe lá fora, mas acho difícil acreditar.

Outro dia veio um esquilo e colocou uma florzinha na minha mão. Eu conheço todas as flores do jardim, nenhuma é como aquela, o perfume eu nunca havia sentido antes. Onde o esquilo a encontrou?

Penso que devem existir jardins como este em outros lugares. Talvez até maiores, mais bonitos e sem muros altos.

Por tudo isso estou planejando fugir. Não posso deixar que percebam. Tenho medo de acabar presa neste quarto para sempre e não poder mais sair à luz do sol.

Hoje fui descuidada. Tanta vontade de correr, de chegar perto das borboletas, de brincar no meio delas! Sem perceber, distraidamente, quis largar a mão do meu acompanhante. Ele segurou mais forte ainda, chegou a doer. Como castigo, voltamos na mesma hora para dentro.

Quando eu era mais nova não pensava nessas coisas. Os brinquedos me bastavam, minhas perguntas eram apenas sobre as histórias ouvidas antes de dormir. Porém agora vivo atormentada por outros tipos de dúvidas, nunca esclarecidas. E que jamais serão, enquanto eu viver aqui.

Nesta noite de lua cheia, sozinha no meu quarto, contemplando as árvores e as nuvens através das grades da janela, meu único desejo é voar para longe.

Isso me lembra um dos grandes mistérios que me cercam: por que as outras pessoas não têm asas?

 

(Clique aqui para ouvir “Skyline Pigeon”, de Elton John.)

 

  3 comments for ““Skyline Pigeon”

  1. 6 de setembro de 2017 at 08:02

    Curti bastante! Me lembrou mesmo Ismalia hehe. Adoro esse tipo de fantasia e foi um conto gostoso de ler.

  2. Fabio Baptista
    12 de setembro de 2017 at 15:17

    Zulmira sempre fascinante! <3

  3. Will
    15 de setembro de 2017 at 01:28

    Ismália é tão feliz né? kkkk… brincadeiras a parte, senti esse conto um pouco como o outro: rápido, mas ao contrario do outro esse me incomodou. Acho que pelo fato de serem dias diferentes, os recortes ficaram muito curtos. Nesse caso sim uma descrição a mais, pelo menos na minha opinião, ficaria legal. O final deu um twist bacana, admito, mas me deixou mais curioso do que satisfeito. Queria o resto desse texto. E o titulo também foi interessante, fiquei o texto inteiro tentando entender. :p

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