Terrarium

Minha tribo vive dentro desta bolha há milhares de anos. Mas nem sempre foi assim.
Tudo começou quando uma epidemia manifestou-se nesta região do planeta.
Escrituras antigas dizem que éramos uma nação numerosa, em plena harmonia com a natureza.
Porém um dia a floresta engendrou um vírus mortal. Inúmeros nativos foram afetados, e todos os que se aproximaram tentando ajudar morreram também.
Depois de muitos estudos, o povo lá de fora concluiu que não havia salvação para nós.
Não podiam deixar o vírus disseminar-se até as regiões ainda sãs do planeta, e procuraram com urgência uma resposta.
A solução encontrada foi nos confinar dentro desta enorme bolha construída em torno da aldeia e sob o próprio solo: garantia de que ninguém conseguisse sair e de que o vírus não atingisse os lençóis freáticos.
Foi por receio de se aproximarem da parte infectada da floresta que desenharam e edificaram uma estrutura de tão grandes dimensões. A intenção de preservar o restante da humanidade os motivou a investir riquezas e esforços de muitos países. Isolar a floresta e seus habitantes o mais rapidamente possível, o mais completamente possível, essa era a única maneira.
Os nativos não reagiram devido à apatia da doença e também porque não sabiam ao certo o que estava acontecendo. Quando vieram a perceber, tudo estava pronto.
O povo lá de fora informou, através da comunicação por ondas magnéticas, que haviam construído um “terrarium”: ecossistema hermético com satisfatórias condições de subsistência para os seres nele encerrados. Não se recomendava tentar sair já que o material empregado – embora tivesse aparência de vidro comum – era composto por uma estrutura cristalina indestrutível.
Foi a única e derradeira comunicação que recebemos.
O tempo passou e alguns resistiram à doença, dando origem a descendentes imunes ao vírus. Nossa tribo voltou a se desenvolver. Nunca mais a floresta nos castigou. Aqui permanecemos e evoluímos. A redoma passou a ser vista como proteção, não mais como segregação. Tornamo-nos autossuficientes e tão felizes quanto seres humanos podem ser. Não fosse pela recente descoberta da situação do povo de fora, tudo continuaria perfeito.
A informação foi trazida por um grupo de pesquisadores que, durante uma caminhada, chegou até o limite da redoma. Raramente alguém vai até lá. Não há objetivo nenhum em contemplar um mundo que já não é nosso e que nunca voltará a ser. O que descobriram era – até então – inimaginável.
Toda a terra além da redoma está devastada e estéril. Não há mais quase nenhuma vida lá fora. Vegetação rara e debilitada, pequenos animais aparecendo rápida e esporadicamente, solo arenoso, luminosidade forte e áspera.
Após essa constatação, os pesquisadores decidiram verificar todo o contorno da redoma. Não suspeitavam que visões ainda mais chocantes iriam surgir. Em diversos pontos encontraram pessoas tentando entrar. Ao verem os pesquisadores, fizeram sinais desesperados implorando ajuda. Uma ajuda impossível de conceder.
Não raramente depararam-se com esqueletos jazendo encostados à redoma. Ferramentas e resíduos em torno deles testemunhavam que haviam tentado de tudo.
Deveras lastimável a situação. Parece que o Terrarium é o único lugar no planeta onde a vida continua existindo em sua normalidade.
Os pesquisadores fizeram reuniões para discutir o que poderia ser feito para ajudar os de fora. Não chegaram a nenhuma conclusão.
Eu sou um desses pesquisadores. Eu sei como abrir uma passagem para o mundo externo. Descobri há muitos anos, mas não disse nada a ninguém. Para que perturbar uma situação perfeita?
Vou permanecer em silêncio. Quem garante que os de fora, entrando na redoma, não trarão agentes infecciosos para os quais os nossos organismos não têm proteção? É muito perigoso.
Jamais direi uma palavra. É para o nosso bem.

  2 comments for “Terrarium

  1. Raquel
    13 de novembro de 2017 at 13:19

    Achei bem interessante a inversão! De o Terrarium ter sido feito para isolar a epidemia e salvar a população e depois ser o único lugar onde a população estava a salvo.

  2. 14 de novembro de 2017 at 21:47

    Obrigada pelo comentário, Raquel! 🙂 É como diz aquele ditado popular: “Nada como um dia depois do outro.” 😀 rsrsrsrsrs

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