Último Destinatário

Tessa estava com a caixa em mãos quando Jullie abriu a porta para recebe-la naquele sábado chuvoso. Os olhos azuis de Tessa não mais contrastavam com sua pele clara e os cabelos ruivos, porque naquele momento demonstravam profunda aflição. _Então… você fez? – Jullie estendeu o braço para pegar o objeto, mas Tessa recuou não permitindo. – Eu não queria… – sua voz falhou.

As duas se encararam por poucos segundos, mas foi o tempo suficiente para os olhos de Jullie marejarem e a garota loura cair em prantos, despejando todo seu peso nos braços de Tessa, que a abraçou, soltando a caixa e apertando o corpo da garota contra o seu. – Me desculpa… – Tessa sussurrou, aproximando os lábios da bochecha úmida de Jullie.

_Vamos dar um jeito nisso! – os dedos de Jullie estalaram.

_Não, não tem mais jeito. A regra é clara. A caixa precisa ser passada à diante e a última pessoa a entrega-la, deve morrer.

_E quem você…

_John. – Tessa respondeu.

Jullie baixou o olhar novamente para a caixa e o fixou no selo destinatário, as letras claramente escritas formavam seu nome e sobrenome. Sentiu o coração falhar a cada pulsada, os olhos queimaram. – Eu não vou conseguir… Tessa, eu não…

Tessa passou instintivamente as mãos pelos cabelos de Jullie e entrelaçou os dedos em cada fio. Seus rostos se aproximaram. Lágrimas e respiração, misturavam-se e os lábios das duas garotas se uniram.

_Eu não posso fazer isso… – Jullie roçava os lábios no contorno do maxilar de Tessa e escondia o rosto em seus cabelos.

_Você precisa.

_Isso é loucura, você nem sabe o que tem nessa merda de caixa!

_Eles te matariam, eu não vou permitir que você morra… São as reg…

_Que se danem as regras! Você acha que eu suportaria matar você, Teresa?! – Jullie gritou, o som ecoou e a loura rendeu-se ao chão. Sem suportar o peso que ainda a esperava.

_E você acha que eu queria matar meu irmão?! Eles não nos dão escolha, eles estão nos observando! – Tessa recuou e segurou novamente a caixa em mãos.

Junto com a caixa, havia um pacote. O conteúdo deste era previsível e Jullie compreendeu ao observar Tessa o desembrulhando. Sentiu seu estômago revirar, enjoada. A ruiva continuava, a expressão dura como se já não fosse capaz de sentir nada, completamente apática. – Eu quero saber o que tem dentro dessa caixa. – Jullie falou atônita, a voz ainda embargada pelo choro não contido.

_Você não pode e tem que me prometer que não o fará mesmo depois de… – Tessa falhou, sabia o que viria depois, sabia de todo o resto. Mas eles a tinham escolhido e o ciclo não acabaria.

Quando desembrulhou completamente o objeto do papel de seda, estendeu para Jullie, fazendo menção com a cabeça para que a mesma o pegasse. O revolver passou da mão de uma para a outra e Jullie estremeceu ao pegá-lo, como se pesasse uma tonelada.

_Não posso… – Jullie relutava. – Eu…

_Eles disseram que terminaria quando chegasse à última pessoa da lista, Jullie. E é você! Precisa fazer, precisa parar com esse ciclo horroroso! – Tessa parecia agora desesperada para que tudo acabasse.

Jullie apertou o revolver em suas mãos e olhou novamente para caixa. Engoliu em seco. Seus olhos ainda marejados a faziam enxergar tudo um pouco mais embaçado.

_Eu amo você. – Tessa quebrou o silencio.

Essas palavras fizeram Jullie enjoar com a culpa do crime que ainda iria cometer, mas respondeu – Amo muito…

O som ecoou na velha casa, mas foi substituído pelo estrondoso barulho do tiro, que fez-se como um terremoto no corpo de Jullie. A garota caiu para trás com o impulso e se viu ensanguentada pelos respingos do sangue de Tessa.

Teresa jazia pálida no tapete escuro que ensopava-se. Jullie emudeceu e por um tempo considerável, permaneceu imóvel fitando o corpo estático de sua companheira. Agora morta. Morta, porque ela a havia matado.

Foi simples, rápido. As pessoas diziam que a caixa era amaldiçoada e fazia isso com os outros, as incitavam. Mas Jullie não deixava de ser uma assassina.

Ela parecia que havia morrido igualmente, se não fosse por seu peito arfando de segundo a segundo lentamente. Seu olhar só desviou do corpo de Tessa após alguns minutos, quando agora passaram a encarar a caixa. Decidida, ajoelhou no tapete sujo e apanhou o objeto. Mesmo com todas as recomendações, ela precisava saber o porquê estava ilesa e o que era tão importante que a fizera matar a única pessoa que realmente amou.

Os dedos compridos e finos tremiam e tiravam a fita que lacrava a caixa com certa dificuldade. Algumas sacudidas a fizeram perceber que o que havia ali era leve demais para ser sentido, o que a fez arquear as sobrancelhas, receosa. Uma bomba? Documentos? Não.

Quando Jullie finalmente conseguiu abrir, viu que o que a fizera matar Tessa era ainda mais assustador. Seu coração parecia parar gradativamente sem que ela precisasse fazer nada e seus olhos pareciam queimar, era como se agora ela não suportasse mais carregar o peso do próprio corpo. O revólver ainda estava ao seu lado e ela o apanhou novamente.

Um barulho. Mais sangue. Escuridão.

—————— xxx ——————

A sirene da ambulância misturava-se com a dos carros de polícia e a vizinhança inteira saiu para ver o que acontecia na casa velha que há tempos havia sido abandonada. Um homem saia por entre as portas em pedaços com uma caixa em mãos. “Thomas“, era o que estava cravado no distintivo em seu peito.

_Parece que foi assassinato seguido de suicídio. Encontrei os corpos de duas garotas e… – o policial olhou para objeto em suas mãos. -…essa caixa. Não tem remetente.

O delegado Augusto apanhou a caixa, balançou a cabeça negativamente e a deixou de lado. – Assassinato. Suicídio. – repetiu.

A caixa estava vazia.

  3 comments for “Último Destinatário

  1. May Satsuma
    26 de maio de 2017 at 10:18

    O fato das duas serem um casal homoafetivo me agradou muito. Acho que falta mais abordagem na literatura moderna para esses assuntos, isso porque se diz moderno. Casais gays são sempre coadjuvantes e nunca protagonistas e isso foi um ponto super positivo. Sinto que em alguns momentos você podia descrever a relação das duas mais com sentimentos do que com ações.
    Sei que você gosta de drama, e isso aplicado no seu conto de terror é bem encaixado, mas dá pra utilizar menos da técnica de fazer a menina cair haha, dá a impressão que ela cai no chão umas três vezes. Utilizar isso demais talvez fique muito novela mexicana, quando o foco é o terror e não tanto o drama.
    Gostei de ser um final aberto. Instiga bastante a curiosidade do leitor, mas num conto de terror acho que você poderia ter dado mais informações sobre o conteúdo/porque da caixa ser amaldiçoada. Não sei se a frustração de leitora me influencia ao dizer isso, mas me dá a impressão que você na verdade não pensou num final e quis deixar aberto por preguiça de não saber como encerrar (posso estar errada), e essa impressão talvez fosse retirada com um pouco mais de informação: falar que era uma foto e o leitor pensa “foto que que?”, ou uma carta…
    Bem, são sugestões =) Me diga também onde você discorda do que eu disse hehe

  2. Willian Fernandes
    29 de maio de 2017 at 10:36

    Eu gostei… só trabalharia um pouco mais as descrições visuais. ^^

  3. Fabio Baptista
    29 de maio de 2017 at 15:38

    Sei que é um drama e tals, mas achei um pouco repetitivo também. Belo texto, sucesso <3

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