Um expresso duplo, por favor

Quando o telefone tocou, naquela manhã de domingo, na parede de Fabi ainda estava a foto de André. Não por nada, só porque não via urgência e não lhe incomodava aquela recordação.

Não tinha trauma, raiva, revolta. Só era hora, só tinha acabado. Já não se amavam. Não como antes. Houve lágrimas, sim. Mas só porque é triste o fim, pensava, com a música dos Paralamas em repeat na cabeça.

A ligação acordou-a. E preocupou um pouco. O que queria o ex àquela hora? O que significava aquele encontro? Teve sentimentos confusos. Estava bem assim, não queria voltar. Mas e se ele quisesse? Ela saberia dizer não? Já estavam tão acostumados um com o outro… tinha seu valor aquela segurança.

Tomar um café na padaria nova, aquela na esquina da casa dele, foi isso que  André dissera. E sabia muito bem que ela não negava aquele café.

Entrou no elevador ainda semi-adormecida. Futucou os olhos tirando as remelas que sobravam e, ao ver-se deveras descabelada, tratou de tentar usar os dedos de pente. Sem sucesso, o jeito foi prender num nó. O carro de André já estava na porta.

Cumprimentaram-se da maneira mais atabalhoada possível: era a primeira vez que se encontravam como ex. Do desencontro de beijos, resolveu-se com um abraço curto, exageradamente impessoal.

André só começou a falar quando ela passava da metade do expresso duplo. Embora estivesse bastante curiosa,  Fabi não o apressou. Eram dois os motivos: não sabia se queria ouvir o que ele tinha pra dizer e, de toda forma, não seria capaz mesmo de se concentrar antes de uma boa dose de cafeína.

Ele não sabia como começar, parecia arrependido de tê-la tirado da cama. Chegou a gaguejar, o que ela sabia que só acontecia quando estava realmente nervoso. Veio com elogios e ela se arrepiou de medo: terminaram de comum acordo, mas, há um mês atrás,  era ele quem estava mais seguro da decisão. Estaria dando pra trás, justo agora que ela se acostumava com a ideia de ser solteira praticamente pela primeira vez na vida? Justo quando ela tinha, na noite anterior, conseguido beijar outra pessoa, depois de cinco anos?

Quando ele finalmente chegou no ponto, ela já quase não escutava. Divagava entre as lembranças da noite com Thiago ao mesmo tempo em que tentava entender como ela e André tinham passado tanto tempo juntos. Eram tão diferentes! Descobriram isso pouco depois de entrarem na faculdade, em cursos opostos, embora para os outros já fosse bem claro. “O que o amor constrói, a universidade destrói”, cantavam em ambas calouradas e eles primeiro se irritaram. Mas aos poucos a coisa realmente desandou. Quando saíam com os novos amigos dele, ela fica deslocada. Com os dela ele nem se animava a sair. Por fim entenderam que se reconheciam mais naquelas novas pessoas do que um no outro. Mas daí a terminar, levou quase um ano de um relacionamento de merda. Fabi teve certeza que não voltaria, não importava o que André dissesse, o que prometesse. Preparou o não.

Mas se a cabeça estava distante um instante antes, voltou num tranco pra’quela mesa, quando ele desembuchou e ela viu o quão errado era seu palpite. Estava ali, diante de seu ex namorado/primeiro namorado/ÚNICO namorado, e ele tem a audácia de, apenas um mês após o fim de um relacionamento de CINCO ANOS, tirá-la da cama num domingo pela manhã, sabendo o quanto ela ODIAVA acordar cedo, para pedir, pasmem, CONSELHOS AMOROSOS.

Incrédula, foi assim que Fabi ficou. Sentiu um pouco de raiva…ciúme? “Mas já?!?”, pensou, mas não disse. Estaria decepcionada? Chegou a considerar se não preferia que fosse uma tentativa de reatar. Por alguns instantes não conseguiu dizer nada. Acha que não demorou muito, mas foi o tempo de ver no rosto de André a careta que sempre fazia quando estava constrangido. Por fim, riu.

“Você sabe que é bem inadequado chamar justo a mim pra esse papo, né?”.

Ele sabia. Mas não sabia era o que fazer. E as opiniões dos amigos Dico e Lucas, os mais próximos depois dela, não iam prestar. Ela não teve como não concordar. Além disso, Fabi era sua única amiga mulher. Assim, amiga mesmo. Ela riu, lembrando do quiprocó que deu quando disse que Vitor, colega de turma desde os oito anos, era seu melhor amigo. André ficara inconformado, achando que obviamente ele que devia ser o melhor amigo da namorada. Não adiantou querer pôr namorado como uma categoria hors concours. Lembrou-se então de como aquele menino podia ser chato e teve mais uma vez segurança na decisão. Era até bom que arranjasse outra pessoa, alguém mais parecida com ele!

Aceitou aquela nova função: melhor amiga de André. E tentou ali ser brother mesmo, como ele dizia. Só saiu do papel quando entendeu quem era a mocinha que tirara o sono daquele que até pouco se dizia apaixonado por ela. Claro, justo Mayara, da academia. Aquela que tinha deixado Fabi, que não era exatamente uma pessoa ciumenta, com uma pulga atrás da orelha. Cismada, perguntara na época – época essa que não contabilizava nem três meses antes daquele reencontro – se tinha algo acontecendo. Ele garantiu que não, pôs ela de louca, como eles gostam de fazer. Mais uma vez contra a parede, André jurou que, enquanto estavam juntos, não tinha acontecido nada. Disse que até um mês atrás nem reparava na May – e essa intimidade deu um arrepio em Fabi – e que tudo tinha acontecido há duas semanas, num churrasco na casa de Lucas.

Fabi decidiu acreditar que não fora traída, mas não se convenceu de que, em pensamento, não estava já tudo acontecendo. De toda forma, preferiu deixar pra lá. Se deu conta até de que os dois por fim combinavam bastante. Pensava nisso quando André agradeceu os conselhos dados antes de saber de quem se tratava e disse que, sendo assim, pediria Mayara em namoro naquela noite.

“Nossa, você está realmente apaixonado!”, deixou escapar Fabi, genuinamente espantada.

Ele ficou nervoso. “É cedo né?”

Ela se recompôs do susto: “Cedo? Cedo pra querer casar e ter um casal de filhos e o cachorro chamado Bigorna!”. Riram juntos dos planos que nunca concretizariam.

Depois Fabi entendeu que não era daquele cedo que ele falava. Ou talvez também fosse. Mas tinha um olhar de confuso e talvez culpado. Qual era o tempo recomendável de luto? Em algum momento estariam com outras pessoas. Era estranho, mas era fato. E pensando bem, juntos, juntos, já não estavam parecia uma eternidade.

Conversaram muito. Sobre “aquelazinha” e sobre outras coisas. Até de Thiago ela contou. Se divertiram como há muito não faziam. Por várias vezes ela o chamou de “amor”. Não porque estivesse confusa, mas simplesmente porque até outro dia esse era o seu nome. Saíram da mesa só quando já arrumavam o salão para o almoço. Deram dessa vez um abraço apertado e tiveram a certeza de que seriam grandes amigos.

Chegando em casa, Fabi tirou a foto da parede.

André namorou por um tempo com Mayara; Fabi com Thiago. E depois cada qual com outras pessoas.

Quando se conheceram aos quinze, não eram ainda quem seriam. Não se arrependiam do tempo juntos, de todas as primeiras vezes divididas, mas se descobriram diferentes demais. Tão diferente que grandes amigos, como prometeram naquele domingo, nunca se tornaram pra valer. Mas sempre terão muito carinho um pelo outro.

E Thiago, durante os dois anos de relação, nunca acreditou que aquele tal encontro com o ex fora apenas um café-da-manhã.

 

  3 comments for “Um expresso duplo, por favor

  1. 26 de outubro de 2017 at 19:17

    Que lindo Raquel! Um conto suave que mostra justamente o que eu acho de todos os casais: terminar brigado é horrível, só mostra o quanto empurraram o relacionamento com a barriga por tempo demais. Achei curioso também o termo “hors concours” que eu não conhecia. 😀 parabéns!

  2. 27 de outubro de 2017 at 16:52

    Fiquei aqui pensando em como o André era sem noção. E como alguns homens são exatamente assim. Mas a Fabi saindo de casa sem se arrumar para o primeiro encontro com o ex, confesso que estranhei. Era ocasião de ela tomar um bom banho, usar uma colônia refrescante, pentear os belos cabelos e passar batom, só para mostrar ao André o quanto estava ótima sem ele (uma vingancinha sempre faz bem).
    No mais, gosto da sua escrita porque a leitura flui sem esforço, bem natural, mostrando cenas e emoções que se consegue ver e sentir. Parabéns! 🙂

  3. Raquel
    2 de novembro de 2017 at 19:45

    Sim, Zulmira, o André foi totalmente sem noção! Engraçado você falar, porque comecei a escrever essa história outra vez, só que em forma de roteiro, e ele falava exatamente isso “eu sei, o sem noção de sempre”.

    Fiquei pensando sobre se mexia para Fabi se preocupar em arrumar um pouco. Mas, no fim, acho que vai seguir assim. Como terminaram de comum acordo, ela não sentiu ter razão para se vingar, para exibir uma superação. Os dois ficaram triste quando terminaram, mas sabiam que não faziam mais sentido juntos. (sim, tem algo de autobiográfico este, embora eu sequer tome café rs)

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