Virtuoso

 

PRÓLOGO
O fundo escuro, com um único feixe de luz desferido logo ao centro do palco. Dedos dançavam para com a melodia que encantava os espíritos de cada um ali presente. O som de couro sendo contraído, a audiência se espremia em suas poltronas, ansiosos pela próxima virada em duas oitavas de Ré sustenido maior.

Murmuro.

Lágrimas.

E, enfim, o desfecho.

Ao centro do palco, observava-se um homem imóvel, frente a um piano que ressaltava sua própria competência. Olhou para o teto, fitando diretamente a luz que lhe banhava, e cerrou os olhos. Aspirou fundo, umideceu os próprios lábios, engoliu saliva e, enfim, levantou-se.

Antes mesmo que seus joelhos fossem estendidos, a multidão explodiu em aplausos. De idosos a infantes, de graduandos a doutores, de religiosos a descrentes, não havia um só espírito que permanecesse intocado em face de sua sinfonia. Incontáveis palmas, assovios longos, risadas expressivas e, bem lá no fundo, os gemidos de choro, pertencentes aos mais comovidos com o concerto.

Por um breve segundo, fitou o público em êxtase. Não enxergava indivíduos singulares, mas sim a audiência como um todo, anunciando que seu trabalho havia sido realizado com a devida maestria que se esperava de um homem como ele. Jamais seria capaz de conhecer cada ouvinte ali presente, mas sabia exatamente para quantas pessoas ele havia se apresentado naquela noite, bem como em todas as anteriores.

Ainda sem expressão, caminhou até as bordas do palco, onde fez sua reverência e, com a cabeça ainda baixa, deixou finalmente que um singelo sorriso tomasse conta do canto direito de sua boca.

Pela primeira vez em meses, a Filarmônica de Berlim estava completamente lotada.

DILIGÊNCIA
No camarim, três pessoas cuidavam de seus afazeres. Um carpê bege tomava conta de toda a sala, enquanto duas poltronas de veludo, ambas em bordô, contrastavam com uma cadeira de mogno escuro, logo em frente ao espelho. A porta se abriu e, de lá, uma figura irônica se pronunciou.

– Completamente lotada! – Ele exclamava – Completamente! Ouviram? – E gesticulava com ambas as mãos – Não havia espaço para mais ninguém! Nem mesmo se alguém como, sei lá, a  Angela Merkel tivesse vindo, teríamos conseguido encaixá-la aqui.

Os três ali presentes levantaram seus olhos e suspiraram com certo alívio. Um deles, ao fundo, riu.

– E foi o penúltimo show dessa turnê. – Disse Mila, sentada numa das poltronas bordô – Já podemos pensar nos contratos para a próxima temporada. Hoje cedo me ligaram de Boston, fizeram uma proposta excelente para a…

– Menos, Mila, menos! – Ele a interrompeu, fechando a porta e finalmente adentrando a sala – Não precisamos de papos técnicos numa hora dessas! Vamos lá, onde está nosso garoto? Nosso motivo de orgulho…?

– Acalme-se, Elliott. – Eva disse, em tom sereno, apoiando seus pés na mesa de centro – Não acho que vamos vê-lo ainda hoje. Magnus está exausto, e deixou bem claro que não quer ser incomodado.

– Ah, como em todos os outros dias. – Elliott cruzou os braços, deixando a coluna reta – Vamos comemorar por ele, que tal?

– Não sei vocês, mas eu tenho que dormir. – Conrad se pronunciou, levantando-se de seu assento e pondo no bolso seu celular – Estou tão exausto quanto ele, e trabalhamos duro nos últimos meses. – Então, pôs-se a caminhar em direção à porta pela qual Elliott havia acabado de entrar

– Acho que eu também vou. – Dessa vez foi Eva quem se levantou, fechando o laptop em seu colo e guardando-o em sua bolsa – Amanhã é o grande dia, o encerramento da turnê, e Paris estará esperando por nós. – Olhou para Elliott, que levantava uma de suas sobrancelhas em reprovação ao resto do grupo

– Pessoal, sério? – Elliott exclamou com desgosto – Quando é que teremos a chance de comemorarmos o sucesso de nosso trabalho, juntos, aqui em Berlin? Pensem nas cervejas! Nas garçonetes de babado!

– Qualquer dia depois de amanhã. – Mila disse em tom irônico, levantando-se da poltrona – Assim que a turnê acabar e que estejamos todos bem descansados e contentes.

– Até você, Mila? E o Magnus, nem pensar, né…? – Ele abaixou os ombros, em sinal de derrota, e se aproximou da cadeira de mogno em frente ao espelho.

– Magnus está no banho, e está mais cansado que todos nós. – Foi Mila quem respondeu, enquanto Eva retirava-se da sala – Não é fácil lidar com pessoas após um espetáculo como aquele.

Elliott apoiou os braços no assento da cadeira e apenas murmurou. Varreu a mesa com seus olhos, encontrando interesse apenas na maleta de Magnus, que se encontrava apoiada na quina de sua mesa de camarim. Cerrou os olhos, tossiu de leve, e puxou a maleta para si.

– Eu realmente não faria isso se fosse você. – Mila disse, apoiada na porta. – Você sabe como ele é, extremamente sistemático, e realmente detesta que mexam em suas coisas. – Levantou as duas sobrancelhas, apesar dos olhos sonolentos

– Sim, eu sei. – Elliott disse, olhando-a por cima dos ombros enquanto pousava a maleta no assento da cadeira de mogno – Vou deixar tudo meio pronto para quando ele voltar, e já vamos para o hotel, ok?

– Sério? – Ela segurava no trinco da porta – Você quem sabe, estamos indo agora. Boa noite, Elliott. – E fechou-a

– Boa noite, Mila.

– Ah, a propósito… – A porta abriu novamente – …esse seu suéter não combina com essas jeans rasgadas. Não aqui, e não em pleno século vinte e um. – Ela fez uma breve pausa, aguardando respostas, mas não houve nenhuma – É isso. Boa noite. – E fechou novamente a porta

Elliott suspirou, sorriu, levou a maleta até a mesa de centro e pôs-se a balbuciar.

– “…não combina com essas jeans rasgadas.” – Ele repetiu em meio a risadas – Quem ela pensa que é? Mal chegou aos trinta e já fala como alguém que não transa há décadas. – Pôs-se a abrir a maleta de Magnus, e começou a remexê-la

A maleta era singela, de couro preto, e não possuía divisões. Um relógio de pulso, um caderno de anotações, um gravador, moedas soltas, um suéter fino e, finalmente, uma caixa de papelão. Uma caixinha simples, de papelão branco envelhecido e com algumas manchas de café. Possuía não mais que vinte centímetros de largura por oito de altura.

– Uma caixa? – Ele posicionou-a ao lado de seu ouvido e a chacoalhou suavemente. Ouviu papéis colidindo com as paredes da caixa, e não mais que isso – Por que é que o grande Magnus levaria consigo, para cima e para baixo, uma caixinha de papelão? – Disse em tom irônico – O que será que…

– Nada muito relevante, na verdade. – Uma voz masculina se fez notar, e Elliott, num susto abrupto, se estremeceu e deixou com que a caixa caísse. – Ei, tudo bem? – A voz soou novamente, grave e juvenil.

Da porta do banheiro, junto a uma nuvem de vapor, Magnus adentrava a sala.

– Magnus?! Oi! – Elliott se inclinou rapidamente, apanhando a caixa e pondo-a novamente na maleta – Estava arrumando suas coisas para quando você estivesse pronto para irmos! E pelo jeito, está! Vamos para o hotel?

– São só anotações, Elliott. – Magnus sentou-se ao lado dele – Pode ler se quiser. É só coisa velha, pra ser bem sincero.

– Não, não, não! – Elliott levantou-se num pulo, e correu para recolher as poucas coisas que faltavam – Vamos logo com isso, que amanhã será um dia cheio!

– De todas as pessoas, logo você está animado assim para trabalhar? – Magnus riu – Quem diria.

– Mas é claro! – Urrou, já no outro lado da sala – Amanhã é o grande dia! O ato de fechamento! Não há uma crítica negativa sequer, Magnus, UMA! Nós estamos construindo história aqui, meu caro!

– Mais um concerto, Elliott. – Magnus disse calmamente – Nada além disso.

– Estou pronto. – Elliott terminara de fechar a mochila, e agora fitava o amigo numa das poltronas. – Vamos?

– Viu… – Magnus fitou o teto, como de costume – …você acha que… – Fez uma pequena pausa, em tom de insegurança – …estamos mandando bem?

Elliott não teve resposta, e se manteve em silêncio por alguns segundos.

– Isso… é algum tipo de pergunta retórica…? – Levantou uma das sobrancelhas, confuso – É claro que mandamos bem. Você é o pianista mais virtuoso deste mundo, desde o próprio Schubert. É óbvio que estamos mandando bem! Você não ouviu a multidão te aplaudindo?! A casa estava cheia! Cheia!

– Desculpe. – Magnus respondeu, de olhos fechados – Eu só queria uma opinião.

– Vamos, vamos. – Elliott prosseguiu – Não há mais nada pra fazer aqui.

– Pode ir. – Replicou breve – Eu vou depois.

– Como é?

– Pode ir para o hotel, é só meia quadra daqui. – Magnus disse em tom solene – Eu vou mais tarde.

– Mas… você não precisa descansar?! – Elliott urrou, incrédulo

– Preciso. – Abriu os olhos, pendendo levemente a cabeça em um de seus ombros – Mas tem algo que quero fazer antes disso. – E olhou para Elliott

– Tem certeza…? – Levantou novamente uma das sobrancelhas

– Tenho.

– É você quem sabe.

E saiu pela porta.

FONTE
Elliott recém pagara a conta naquele bar quando tropeçou nas próprias pernas e despejou-se ao chão. Derrubou o copo junto consigo, banhando-se por completo em cerveja puro malte. Risadas se tornaram notáveis, e pessoas ainda presentes no bar observavam e julgavam a cena corriqueira.

– É só o que eu precisava. – Levantou-se, tirando poeira de seus braços encharcados. – Que merda.

Tateou o celular e a carteira, bem como suas chaves. Fitou as garotas com quem conversara as últimas duas horas e meia, que viraram o rosto em deboche.

– Bêbado. – Uma delas disse, rindo em seguida.

– É, realmente não tem mais nada pra mim aqui. – Pôs-se a andar pela calçada estreita, vislumbrando a vida noturna de Berlim.

As ruas estavam serenas, e Elliott caminhava em passos descontraídos, esporadicamente tropeçando em si mesmo, e gargalhando da própria situação.

– Anos de evolução! Anos! Para quê? – Ele discutia consigo mesmo – Para isso! – E gesticulava sozinho, apontando para os próprios pés.

Andou por cerca de dez minutos. Apesar da infinidade de monumentos e construções, Elliott caminhou olhando para o céu, e se deleitou em seus mais profundos e imaturos pensamentos de garoto, onde se questionava sobre a existência da vida, bem como de seus objetivos. Pensou sobre sua vida até aquele momento, e sobre como tudo deu certo “meio que  sem querer”. Considerou-se um homem de sorte, e se sentiu mal por dispor de seu tempo livre daquela forma.

Finalmente encontrou-se ao lado da Filarmônica de Berlim, a apenas meia quadra do hotel. Observou-a com calma, inclinou a cabeça, pensou por um ou dois momentos, quando finalmente decidiu se aproximar.

Caminhou até a porta da qual havia saído.

O som de grilos ao fundo.

Engoliu saliva, forçou os maxilares e, por fim, girou a maçaneta da porta, que se abriu.

– Aberta? Uma hora dessas?! – Disse para si mesmo, enquanto observava o corredor escuro. – Será que esquecera… – E foi interrompido por um ruído abafado que se originava na própria Filarmônica.

Elliott se esgueirou pela porta e fechou-a com cuidado. Desceu pelo corredor em completo silêncio, iluminando o caminho com a tela acesa de seu celular. O ruído, cada vez mais evidente, tratava-se de uma música ouvida por ele naquele mesmo dia. Cada passo mais próximo do palco, cada nota a mais que soava, e o seu coração pulsava forte.

Quando finalmente chegou ao palco, deparou-se com poltronas vazias, o piano aberto, e Magnus tocando mais uma vez a famigerada Serenata de Schubert-Liszt, responsável pelas inúmeras aclamações na noite anterior.

Voltou o celular para si, e se assustou ao perceber que eram duas e quarenta e oito da manhã.

Observou o amigo por mais alguns instantes e retirou-se de consciência pesada. “Enquanto eu jogo meu tempo fora, ele se dedica.” Pensou, caminhando novamente no corredor escuro e deixando que a sinfonia se perdesse nos ruídos de fundo.

Passou pela porta do camarim, onde trocaram palavras pela última vez. “Por que não?” Pensou, e adentrou o local, encontrando tudo exatamente como estava antes de sua saída. Levou seus olhos até a maleta de Magnus, intocada, e caminhou faminto até ela.

Agarrou a caixa com as duas mãos, removeu a tampa, e deparou-se com uma pilha de papéis dos mais variados formatos e cores. Alguns rasgados, outros sujos de café, outros rabiscados e meio amassados. Todos escritos à mão, e com data expressa.

Tirou o primeiro deles da caixa, datado de oito anos atrás.

13 de Abril de 2009

Hoje, meu pai me disse que se arrepende de me ter como filho. Disse que perco tempo demais com coisas inúteis, e disse que sou um investimento sem retorno.”

Guardou, e tirou o próximo.

27 de Junho de 2010

Hoje fui chamado de burro por minha professora de biologia. Ela disse que eu jamais serei aceito numa boa universidade, e recomendou que eu fizesse aulas particulares todas as tardes.”

E o próximo.

14 de Fevereiro de 2010

Fui agredido por pessoas da minha sala por ter reclamado de ficarem chutando minha cadeira. Não entendo por que me tratam assim, sendo que não faço mal algum para eles.”

E o próximo.

18 de Janeiro de 2011

Anna fez aniversário no fim de semana, e todos foram convidados, menos eu. Não sei o que ela vê em todos eles.”

E o próximo.

3 de Abril de 2011

Eu sou uma pessoa boa. Eu sei que sou uma pessoa boa. Por que é que ninguém gosta de mim? Por que?”

E o próximo.

“28 de Setembro de 2012

Talvez não haja lugar para mim. Talvez tudo o que amo seja realmente um sonho idiota. A hipótese de suicídio se torna cada vez mais viável.”

E o próximo.

“15 de Março de 2013

Não fui aceito em nenhuma faculdade. Eu realmente não me importo mais. Me recuso a viver uma vida que não escolhi para mim. Não vou mais me lamentar.”

Elliott guardou os papéis junto aos inúmeros não lidos.

Fechou a caixa.

Guardou-a.

E, em sua mente, deixou que a sinfonia soasse por toda a madrugada.

VIRTUDE
Os dedos de Magnus dançavam pelas teclas de marfim, dominando um Steinway & Sons que possuía pelo menos o triplo de sua idade. Seu espírito ecoava por cada centímetro da Filarmônica de Paris, onde a multidão sentia o impacto de tão fabulosa interpretação artística. Alguns desabavam em lágrimas, esforçando-se para abafar seus soluços. Outros espremiam-se em suas poltronas, se deliciando com cada virada em cada nota devidamente escalada.

No palco, nada além da própria virtude, desolada, porém eternamente vitoriosa, e devidamente orgulhosa de seu detentor.

O silêncio.

A expectativa.

E, enfim, o desfecho.

A multidão explodiu, todos de pé, com aplausos, soluços, risadas, abraços, urros e assovios. Dos mais graves até os mais agudos, dos mais solenes até os mais majestosos, dos mais sérios até os mais alegres, estavam todos comovidos com a história que Magnus acabara de narrar.

Ele se levantou, fitando o público por um breve segundo. Caminhou até a borda do palco e, como de costume, fez sua reverência. Os aplausos explodiram novamente, e um singelo sorriso se fez presente no canto direito de sua boca. Finalmente levantou-se, ainda sorrindo, e retirou-se do palco.

Ainda na filarmônica, era aplaudido e exaltado por qualquer corredor que passasse. Cumprimentou cada um que andava até ele, dando autógrafos e posando para fotografias com diversos funcionários dali. Caminhou até o camarim, onde adentrou sozinho, recusando-se comemorar com os outros.

Minutos se passaram, e ele apenas fitava o teto, sentado, entrelaçando os dedos de ambas as mãos sob seu estômago. Ouviu a porta abrindo, e se arriscou deduzir:

– Elliott?

– Sou eu. – Elliott respondeu, adentrando a sala e fechando a porta.

Magnus sorriu, orgulhoso de si mesmo.

– Ah, então você está feliz? – Elliott disse em tom perspicaz

– Sim, eu acertei. – Magnus disse, satisfeito

– Sem dúvidas, acertou. – Elliott replicou – Não teve uma só nota fora do tom. – E notou Magnus levantando as suas sobrancelhas, ironicamente demonstrando surpresa – Mas… acho que você não precisa de mais uma pessoa inflando seu ego, não é mesmo?

– Ah, tanto faz. – Magnus respondeu – Agora temos alguns bons meses para descansar, e estou ansioso para pôr no papel umas ideias novas.

– Não cansa de trabalhar, hein? – Sentou-se na poltrona da frente

– Quando seu trabalho é gerar estes sentimentos no interior de cada pessoa que se preza a prestar atenção em ti… – Fez uma pausa, e olhou para a mesa a sua frente – …realmente não tem como se cansar.

– De qualquer forma, não é por isso que estou aqui. – Elliott olhou fixamente para Magnus – Eu vim te pedir desculpas.

– Desculpas? Por que? – Magnus sorriu com certo esforço. Seus olhos estavam pesados, mas buscava demonstrar atenção para o que Elliott tinha a dizer

– Ontem. Eu mexi na sua caixinha e li alguns dos bilhetes. – Elliott cerrava os punhos, aflito. – Foi quebra da sua privacidade. Me perdoe por isso.

– Não tem importância. – Respondeu despreocupado, e notou certa tensão se esvair dos ombros de Elliott – Ontem mesmo eu disse que poderia ler. O que você achou?

– É… terrível. – Ele demonstrava tristeza, enquanto Magnus exalava despreocupação – As coisas que fizeram contigo foram monstruosas. Essas pessoas deveriam ser punidas. Mas… – E pausou por alguns segundos – …por que é que você carrega essas coisas contigo? Não deveria deixar isso tudo no passado? Todas essas lembranças ruins?

– Ah, meu caro Elliott. – Soava como um pai que narrava verdades a seu filho – São lembranças ruins, sim. De um Magnus que não sabia qual era seu lugar no mundo. São também um registro de tudo o que as pessoas comuns podem ser, incluindo sua própria família. Não é bonito, eu sei que não é, mas é a realidade. – Pausou momentaneamente, e fitou o fundo dos olhos de Elliott – Não me entenda mal, eu amo minha família. Mas, diferente dos outros, eu tive que ensinar a mim mesmo do que se tratava o tal amor que tanto diziam. Meu amor é pela arte, e a música é a forma que encontrei de manifestar esse sentimento. É a mais pura de todas as artes, a primeira, e minha fiel companheira desde sempre. É o que me motivou a continuar vivendo.

–  Mas pra quê guardar isso?! – Urrou com certa ogeriza – Aquelas pessoas não tinham o mínimo apreço por você até pouco tempo atrás! Você ganhou! Você está aqui, e quem são eles? Não são nada!

– Para que eu não me esqueça, meu caro confrade… – E sorriu com satisfação – …quem eu era, e de onde eu vim. Afinal de contas, por mais que digam que sou coisas demais, mas eu sou nada além de um caipira que perdeu tempo demais estudando as coisas que lhe davam borboletas no estômago. O que aprendi com a vida é que, na maioria dos casos, as pessoas vão falhar em seus objetivos. Jamais realizarão seus sonhos. Trágico, não é mesmo? – E riu de forma irônica

– Sem sombra de dúvidas.

– E as vezes, bem de vez em quando, o sonho de uma pessoa é grande demais. – Disse Magnus – Maior até mesmo que as barreiras que o mundo lhe impôs. Sua alma clama por combustível e, se a pessoa desejar o suficiente, seu espírito se ascenderá em resplendor infinito. Este brilho, meu caro Elliott, é o que eu chamo de virtude. E se você a detém, meu caro… você tem tudo que as pessoas mundanas jamais imaginariam ter: Apenas o que nos faz felizes de fato.

– Sinto que isso deveria ser óbvio para todos, mas não é. – Elliott disse, pasmo – Gostaria de conhecer mais pessoas virtuosas.

– Virtuosas? Não, não gosto de chamá-las assim. Prefiro dizer que são…

Pausou,

Umideceu os lábios,

Engoliu saliva,

E finalmente disse:

– Sonhadores.

Elliott levantou-se sorrindo, completamente motivado. Magnus havia estimulado seus sonhos há muito esquecidos, e deleitou-se com o sentimento de renovação que tomara conta de seu corpo.

Magnus encontrava-se sentado na mesma posição, com os dedos entrelaçados sob seu estômago, e observou o amigo se levantar de forma enérgica. Ao menos naquele dia, teve a certeza de que estava exatamente onde deveria estar.

Elliott recolheu suas coisas, reverenciou Magnus, e deixou que o amigo finalmente se enclausurasse para o tão merecido descanso.

  6 comments for “Virtuoso

  1. 30 de maio de 2017 at 07:42

    :0 palmaaaas, cara, tu tem um controle de ritmo de narrativa e um vocabulário bem extenso. O texto fica dinâmico desse jeito, e com o tema do conto, ficou encantador do jeito que tu quis transmitir. O que me incomodou um pouco, mas só um pouco, foi a repetição do recurso de palavras pausadas para indicar o encerramento do espetáculo. Como é um conto, utilizar duas vezes num curto espaço pareceu dejavu. No caso este ponto pode ser dramaticidade do seu estilo de escrita, o que é super legal, mas seria legal não repetir ele engolindo saliva pela segunda vez no texto. 🙂
    aplausos, fogos de artifício, fechem as cortinas vermelhas ahehaheus

  2. Willian Fernandes
    30 de maio de 2017 at 11:22

    eu até queria criticar, mas vou ficar nos parabéns mesmo… e a musica foi a cereja no bolo, você deveria colocar a indicação aqui no conto também ^^

  3. Fabio Baptista
    30 de maio de 2017 at 12:28

    Sensacional! Adoro também a indicação da música. Parabéns! 🙂

  4. 30 de maio de 2017 at 12:30

    Vocês me fazem parecer a chata do rolê

  5. Viviane Farias
    2 de junho de 2017 at 13:33

    (…) e tem sempre aquela mensagem que está lá guardadinha (àquelas também que deveríamos segui/pensar), aí você vai lá e… escreve! (né?!) hahaha
    Indique mais músicas que combinem com o texto, por favor.
    Parabéns!

  6. rafaela carvalho
    13 de julho de 2017 at 15:05

    Nossa, amei !!
    Posso te dizer que como leitora entrei dentro da historia e senti cada emoção.

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