Vista pro Mar

Você pode ler ouvindo: https://open.spotify.com/album/48u6FkQwWas69dN2iOJbmG

Depois de uma adolescência agitada e de estar noivo da mulher mais bonita do mundo e aqui também não me refiro só a beleza, o que faltava para que eu estivesse plenamente em paz era um filho. Eu e Kate, minha esposa, decidimos que era hora de dar esse passo há alguns meses , desde então tentamos com certa frequência e fomos ao médico fazer alguns exames.

Após muita apreensão, vimos que estava tudo nos conformes e tentamos por mais algum tempo e eis que: nada. Já começava a ficar frustrado com toda essa situação, seria possível tal azar que mesmo estando em plenas condições de saúde, não conseguiria realizar meu sonho?

Certa vez, enquanto fazia minha corrida noturna pelas ruas do bairro, que tem o trânsito bastante agitado nesse período, vi que uma garotinha tentava atravessar  sem sucesso a avenida principal, quando percebi que ela avançou, mas que um esportivo preto também havia avançado o sinal vermelho. Apertei ainda mais o passo e puxei a menina com toda força no colo, pra que juntos desviássemos do carro. Quando a soltei ela tremia de susto e meu coração também estava acelerado a décima potência. Disse pra ela tomar cuidado, que aquela rua era perigosa, perguntei seu nome e disse que a levaria pra casa. As respostas foram curtas e baixas: “Não sei e não tenho casa”. Aquilo me destruiu. Levei ela pra minha casa.


meses depois…

 

É feriado e decido levar Kate e a pequena Laurel à praia.

– O que é praia, papai?

– É um lugar enorme, onde tem bastante areia e água e eles se encontram. – como explicar o que é praia? Socorro.

– QUE LEGAL, VAMOS LOGO!

Nosso final de semana foi maravilhoso. Nunca pensei que aos trinta anos de idade brincaria tanto a ponto de meus joelhos estarem doloridos. Laurel se divertiu tanto que prometemos logo voltar à praia.

Na segunda feira seguinte, o assunto dos noticiários era o míssil de um país vizinho que tinha atingido em cheio um prédio do Governo pela manhã e matado cerca de 180 funcionários que trabalhavam naquele período. Era, sem sombra de dúvida, um dia bem triste pra todos. Mal sabia eu que o dia seguinte seria pior.

Na manhã de terça, como de costume, levantei e fui buscar a correspondência para poder ler o jornal durante o café, mas um envelope diferente me chamou atenção. Com um brasão do governo no canto da página, seguia o texto:

 

“Caro Senhor Clever,

É com imenso pesar que informamos que depois de várias tentativas pacíficas de comunicação e acordo, nosso país declarou guerra aos vizinhos que nos atingiram na manhã de ontem com um míssil 339 na sede do  Depto. De Segurança Nacional. Solicitamos que todos os rapazes com menos de 35 anos e legalmente solteiros até o dia de hoje sem exceção, se dirijam ao Quartel das Forças Armadas para um novo alistamento obrigatório.

Cumprimentos militares,

Governo Federal.”

 

Kate e eu obviamente ficamos sem chão. Além de um futuro incerto para todos, o que inclui nossa família, ainda teria que me expor ao risco na guerra. Como a lei manda, fui até o quartel me alistar e depois de poucos dias recebi a mensagem de que havia sido selecionado. Devastado, tive que fazer uma mala pequena e de um dia pro outro partir de casa sem saber se e quando voltaria. A parte mais difícil era me despedir de Laurel. Depois que cheguei bem perto, conversei com ela, dei um abraço muito apertado e um beijo na testa, ela me perguntou:

– Papai, ainda vamos à praia, não é?

– Sim, minha querida. Assim que eu voltar vamos a praia. – respondi.

Depois de me despedir de Kate com mesma intensidade, peguei minha mochila e fui até a porta, quando Laurel perguntou:

– Você vai continuar me amando, papai?

Eu parei por dois segundos e sem pestanejar respondi convicto e a plenos pulmões:

– Até a última gota de água do mar.

  6 comments for “Vista pro Mar

  1. 17 de julho de 2017 at 19:46

    Owhnnn, que fofo! Muito bonitinho o conto, Fábio. Acho que ele ficou um pouco corrido no começo, só. As frases estavam longas e com bastante vírgula, seria interessante quebrar um pouco pra deixar a respiração mais pausada na leitura. Como exercício de revisão, sugiro a leitura em voz alta.
    Mas depois da ida a praia teve uma boa desenvoltura. Senti muita empatia pelos personagens e a frase de desfecho foi demais!

    • Fabio Baptista
      18 de julho de 2017 at 09:40

      Oi, Lídia! 🙂
      Muito obrigado pelas dicas, vou me atentar e tentar aprimorar!
      Que bom que gostou, beijo! 🙂

  2. 17 de julho de 2017 at 22:39

    Só eu ouvi a voz de Laurel? 🙂

    • Fabio Baptista
      18 de julho de 2017 at 09:41

      Oi, Zulmira!
      Hahahah Uma graça, não é? eu também consigo ouvir!
      Obrigado pelo comentário 🙂

  3. Will
    26 de julho de 2017 at 09:34

    Ai credo… e depois vocês falam do cachorro do meu texto… que coisa horrível cara… a menininha… putz… e sim, eu também ouvi a voz. Obrigado pela manhã deprimente… rsrs
    só um pequeno detalhe. No começo você disse que o Clever era casado, mas na carta do alistamento você menciona homens legalmente solteiros e isso me deixou meio confuso. Talvez eles apenas morassem juntos, não sei. Depois dê uma olhada nisso, se quiser, é claro! ^^

    • Fabio Baptista
      26 de julho de 2017 at 11:21

      Oi, WIll 🙂
      Desculpa ter deixado sua manhã um pouco pra baixo haha
      Sim, eles só moravam juntos, estavam noivos. Vou corrigir o ponto onde ele a chama de esposa.
      Muito Obrigado!

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