Voltar para casa

Não, não nego nenhuma das acusações. Todas são verdadeiras nos seus pormenores. Eu fiz tudo isso e muito mais.

Exibicionismo? Talvez. Leviandade? É possível. Sempre fui um pouco leviana. Quem sabe um desejo de subverter tudo, de chocar as pessoas. Desejo inconsciente de ser descoberta. Como fui.

Em outras épocas as imprudências podiam nos custar a vida, e realmente custaram. Mas agora as coisas estão evoluindo rapidamente e a situação tornou-se irreversível. Apesar disso reconheço que não devia ter posto em risco um projeto tão importante.

Sim, vou explicar. Não importa mais esconder. Ninguém vai poder fazer nada, ainda que acredite. E eu sei que ninguém vai acreditar.

Quando eu era criança ficava horas trancada no quarto explorando as reentrâncias das paredes, os pequenos recantos dos móveis, o buraco da fechadura… Eu achava divertido, era como entrar em cavernas e ir descobrindo pequenas surpresas. Não, eu não diminuía de tamanho, simplesmente projetava a minha mente nesses lugares e passava a ver tudo como se estivesse lá dentro.  Na adolescência, gostava de sair nas noites claras. Me grudava na vidraça das casas e escorria por elas feito gelatina. Era engraçado quando alguém conseguia me ver.

Lembro quando entrei numa rosa pela primeira vez. É muito agradável dentro de uma rosa. Mas não gostei quando entrei numa laranja. Já entrei também num cachorro. Cachorro é bom. Gato não. Só uma vez entrei num gato. Ele percebeu, ficou inquieto. Tive que sair logo.

As pessoas? Nem todas são sensíveis; a maioria não é. Pode-se entrar e sair à vontade e elas continuam quietas, impassíveis, com a mesma cara apalermada. Exatamente como o cachorro. As outras, as felinas, capazes de captar o invisível, são poucas.

Bruxa, eu? Não, Senhor Inquisidor, nunca houve bruxas. A realidade não é tão simples.

O senhor quer saber sobre os sabás? Existiram, sim. Eram tentativas de abrir um canal espaço-temporal para que pudéssemos voltar ao nosso lugar de origem. Pensava-se naquela época que um esforço mental coletivo seria bastante forte para abrir o canal. Passaram-se alguns séculos até que se descobrisse o verdadeiro meio, o único meio de se conseguir isso.

De onde somos? Não sei responder. Sei que há muito tempo um grupo de exploradores estava investigando uma abertura no espaço-tempo quando foram puxados para cá. Nunca conseguiram voltar. O canal deixa passar matéria em um único sentido.

Os mais antigos, nossos ancestrais, quase enlouqueceram de desespero porque o seu conhecimento não era suficiente para resolver o problema. Foram obrigados a permanecer na humanidade e fizeram o possível para se manter despercebidos. Coisa que eu não fiz…

Tem sido difícil, sim. Mas agora não vai demorar. Está tudo preparado e quase pronto. Foi necessário interferir muitas vezes no curso da história. Tivemos que manipular os homens, jogar com as suas vaidades, influenciar algumas mentes criativas… Uma pequena parte do nosso conhecimento científico, revelado pouco a pouco, cautelosamente, levou a raça humana a fazer exatamente o que havia sido planejado.

Agora o arsenal nuclear mundial alcançou a potência necessária. Vai ser fácil deflagrar a guerra total. Só uma liberação de energia tão grande quanto a explosão de um planeta inteiro será capaz de inverter a inclinação gravitacional do canal.

Então nós nos libertaremos destes corpos humanos e seremos sugados de volta ao nosso próprio universo.

Finalmente poderemos voltar para casa.

  6 comments for “Voltar para casa

  1. will
    18 de outubro de 2017 at 18:57

    Fiquei curioso, e meio com medo, admito… Kkk. Um belo conto. Leve, fluído mas ainda assim misterioso. Gostei

    • 27 de outubro de 2017 at 16:10

      Obrigada, Will. 🙂 Ficou meio com medo?! Jamais pensei que alguém ficaria com medo… rsrsrs…. 😀

  2. Raquel Stern
    19 de outubro de 2017 at 14:11

    Fui até pesquisar sabás!

    Legal essa ideia de toda a nossa história ter sido uma grande manipulação, de os grandes “donos” do nosso mundo estarem sendo usados. Precisamos avisar pro Trump e pro Kim Jong-Un!

    • 27 de outubro de 2017 at 16:19

      Oi, Raquel! 🙂 Pois é, existem muitas teorias de conspiração (Illuminati e por aí afora), então por que não criar a nossa própria? 😉
      (Acho que não adiantaria avisar o Trump e o Kim Jong-Un. Mesmo que fosse verdade eles não acreditariam. Afinal, espertos como pensam que são, jamais poderiam ser manipulados…)

  3. 26 de outubro de 2017 at 07:49

    Nossa, tive empatia com o ser quanto a voltar para casa, mas achei sacanagem destruir um planeta inteiro para isso. Acho que talvez, se fosse eu, ia tentar aprender a me adaptar a este mundo. Ou não, talvez o ser tenha achado que os seres humanos não valem isso haha.
    Muito interessante! Gostaria de saber se o ser escreve para alguém ou se está sendo interrogado, que foi minha primeira impressão.

    • 27 de outubro de 2017 at 16:30

      Oi, Lídia! 🙂 Então… Imaginei uma bruxa falando com o seu inquisidor. Não uma bruxa falsa, como as milhares de inocentes mortas pela “Santa Inquisição”, mas sim uma bruxa verdadeira, do tipo que realmente faz coisas sobrenaturais. Porém essa nem humana é, apenas ocupa um corpo humano tal como os seus antepassados fizeram desde que chegaram por acidente à Terra.
      Normal que desejem voltar para casa, não? Mesmo que seja preciso destruir um planeta inteiro. Afinal, alienígenas não costumam ter compaixão com os terráqueos, você sabe… 😉

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